terça-feira, 15 de julho de 2014

A POESIA DE RENÃ LEITE PONTES

Um pouco da poesia do acreano de “Benjamins” (Senador Guiomard) Renã Leite Pontes, que é um dos exímios poetas acreanos, já com um importante trabalho difundido no Acre e além fronteiras. Além disso, Renã Pontes é membro Vitalício da International Writers end Artists Association – IWA, Toledo, Ohio, USA; membro Honorário do Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais – IMBRASCI, RJ; membro Fundador da Academia dos Poetas Acreanos; e professor de Educação Física, no Acre. Conheça a página do poeta CÂNTICOS DO ACRE.


PANO–ARUAQUES
Renã Leite Pontes

                                                    “O amor é um fogo na carne do boi.”
                                                                            Renã Pontes


A esplanada treme
E treme a terra,
A ação da mão enérgica,
Guerreira...

Um movimento brusco,
Freia o corcel negro,
Chacoalha as zarabatanas[1], as flechas,
Os cestus[2] dependurados
E os demais aparatos de guerra.

Ao parar o bravo
Freiam seus exércitos,
Bufam mil cavalos,
Rangem seus arreios
(De couro arredio).
Legiões de guerreiros
Levanta poeira.

No meio das Legiões de Aruaques,
Comitivas da nação Pano,
E outros que aguardavam...
Destaca-se a mais bela:
Lábios de carmim,

Pernas de gazela,
Graça de felina,
A atenta contemplada
de beleza nua,
Tão linda que espalhou morte a mil guerreiros,
Pelo direito aos beijos da madrugada,
Pelo encosto ao pedestal do peito
Da cunhatã que é irmã da lua.

Os olhos do bravo
A nada mais veem
A ninguém mais veem,
Mas, somente a ela,
Tão somente a bela,
Vestida de palhas.

Núbil dama, em tenra idade,
Traz na mão uma flor.
No colo delicado,
O emblema dos valentinianos.
E no coração,
Amor maior
Que o materno...

Sorri tão singela:
Chegou meu amor!
Chegou meu abaçai[3]
Chegou a vitória!

A erva nativa
Que verdura o dia dos enamorados,
De uma a outra ponta
Está
Atapetada de pétalas,
Forradas de flores,
Perfumada do orvalho.

Soam-se os gritos,
- Bufam seus cavalos -,
Ribombam os bumbos,
Prorrompem os instrumentos de sopro
Saudando a vitória,
Dão brilhos da glória,
Louro merecido.

E logo, todas,
Pequenos e velhos,
Mergulham na história
Da paz pela guerra,
Curvando-se aos atributos,
Da filha Naiá[4]
(Norte – na vitória),
Musa inspiradora

Que desfrutou da honra
Mas depois
Na sombra da barriguda
Amou e pariu curumins
Com febre de malária
E marcas de mordidas de taxi
Naqueles dias quentes de inferno,
A maternal figura, já quase banguela
E cega dos olhos,
Cantando a música do ritual do sol
Sentindo a brisa, desta vez tacanha,
Carregada de “polvo” feito aerossóis.
Expirou
De morte triste de mosquito estranho.


ENTALHE AMAZÔNICO
Renã Leite Pontes

Vou entalhar a golpes de martelo,
na tábua de carvalho da esplanada,
o teu “retrato”, em letra esbranquiçada,
no meu poema mais castiço e belo.

E augusto... O luso mais verde-amarelo,
borda fresada e ricamente ornada.
vou esculpi-lo, na ogival chapada,
com arte sem padrão nem paralelo,

Vou definir-te como és, cem por cento;
depois, num transe de arrebatamento,
imaginar te ver sorrindo inteira.

E envernizando o teu nome encravado,
quero, por fim, amor, meu anjo amado,
deixar-te eternizada na madeira.


JUREMA
Renã Leite Pontes

Ao canto do inhambu que não tem dono,
O másculo das botas do abandono,
Forma a poeira.

Num campo sapecado,
Na casa paxiúba de madeira...
Um corpo abandonado:
Tem quem queira!

Do olho ao queixo
As lágrimas formam o Nilo...
Canta o inhambu, chora a Jurema.

O arulhar da ave que resiste,
O sofrer da mulher, pesado e triste,
A prestação, forma o poema.


O MEDO
Renã Leite Pontes

Lá fora, eles,
Na cinética patológica das ruas
Da infeliz cidade,
O medo:

Do roubo, do atraso, da gripe... do medo.

Cá dentro, eu,
Na estática faustosa do claustro
Da infelicidade,
O medo:

Do outro!...


SAUDADE EM VERSOS BRANCOS
Renã Leite Pontes

Sinto de ti saudade tão sentida,
Como se foras o sol da minha vida.
Se bem que foste, mesmo sem ter sido.
Por isso, ao teu lado penso haver vivido.

Provando os méis das mais doces delícias,
Sorvendo as delícias e carícias mais meigas,
Quando ao despertares, despertava-me a alma,
Com mútuos delírios próprios de quem ama.

Lembro-me dos momentos em que te amei, conquanto,
Morro de saudades e só saudades sinto.
E guarda o tempo o que eu ainda sinto tanto.

E sinto tanta falta que às vezes me espanto,
Pois vejo na rua, noutra mulher, teu gesto.
Às vezes vejo alguém e penso ver teu rosto.


[1] Pequena arma indígena, utilizada, inclusive, na América do Sul, que consiste em um tubo originalmente de madeira (caule oco), pelo qual eram soprados pequenos dardos, piluns, ou setas (projéteis). De fácil confecção e manuseio, foi utilizada por diversas tribos, em situações de ataque estratégico e caça. Os dardos embebidos em resina vegetal venenosa ou veneno animal – de acordo com o conhecimento da floresta – geralmente desencadeavam a morte ou paralisia da vítima (N. do A.)
[2] O cestus indígena consistia em uma luva de batalha, geralmente utilizada para proteger os punhos dos guerreiros indígenas antigos. Quando incrustada de ossos, bicos de aves, dentes de animais ou outros componentes da floresta, manifestava sua versão mais letal (N. do A.).
[3] Na linguagem tupi significa: homem de respeito ou principal guerreiro (N. do A.).
[4] Personagem da mitologia indígena: a Lenda da Vitória-Régia.
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