quarta-feira, 13 de agosto de 2014
terça-feira, 12 de agosto de 2014
GOVERNADOR RUY LINO – Um acreano da boa cepa
Regina Amélia D’Alencar Lino
Se vivo fosse, dia 13 de agosto José Ruy da
Silveira Lino estaria completando 90 anos de idade.
Nascido no município acreano de Tarauacá, em
1924, Ruy Lino desfrutara a aurora de
sua vida nas brincadeiras infantis, nas peraltices naturais, divididas
frequentemente com o amiguinho Geraldo Brasil, curiosamente nascido no mesmo
mês, porém em data inversamente grafado à sua (dia 31) e residente na mesma
rua, no número 132, defronte sua residência, de número 231. Ao final da
primeira infância querida Ruy Lino seguira para Manaus, a fim de iniciar seus
primeiros estudos no Colégio Dom Bosco da capital amazonense.
Sentindo despertar a vocação para o trato com
a natureza vegetal e grande atração para lidar com a terra, Ruy Lino optara por
fazer estudos da agricultura, escolhendo a Faculdade de Agronomia da
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, para desenvolver seu projeto,
passando, também, a ter militância na política estudantil, com participação
ativa na União Nacional dos Estudantes (UNE).
Concluídos os estudos de nível superior e já
ingresso no quadro de funcionários do Ministério da Agricultura, Ruy Lino
retornara ao Acre, no início da década de 1950, sendo lotado no setor de
Fomento Agrícola Federal, divisão representativa daquele ministério.
Tratava-se de órgão responsável pela gestão
das políticas públicas de estímulo à agropecuária, pelo fomento do agronegócio
e pela regulação e normatização de serviços vinculados à agricultura. Aos vinte
e seis anos de idade Ruy Lino já desempenhava atribuições de relevadas
responsabilidades, no âmbito federal.
O que Ruy Lino queria, inicialmente, era a
carreira agronômica, seu desejo íntimo... continuar engenheiro agrônomo.
Servir o Acre na república, para Ruy Lino
significava voltar à agronomia, ser engenheiro do Ministério da Agricultura,
cuidar de sua própria terra e de seus conterrâneos – tudo o que ele mais
almejava.
Ruy Lino atendera, enfim, à “paixão humana”,
o interesse vivo, palpitante, absorvente, no destino e na condição alheia,
sobretudo dos pobres e sem suficientes defensores – o que se poderia dizer dos
funcionários do Território do Acre, que recebiam, com contínuos atrasos,
iníquas remunerações, como “extranumerários”. A eles passara a dedicar toda a
vida, através da política, ajudar a sua terra, prestar ombros à sua época.
Constituindo família aos 27 anos de idade,
com os filhos Regina, Beth, Ruy e Ovídio, Ruy Lino tivera na sua esposa zelosa,
admirável e encantadora Niní, a primazia da mulher amada, sustentáculo sólido
e ideal para o desenvolvimento de todos
os seus sonhos e projetos – idealistas e
racionalistas.
Lançara-se, então, à atividade política, sem
prejudicar o tempo empregado à responsabilidade funcional dedicada à burocracia
de sua repartição, vindo a filiar-se ao Partido Trabalhista Brasileiro – PTB,
em cujo programa destacavam-se algumas reformas sociais, tais como a urbana, a
agrária e a da educação.
Assumindo de corpo e alma as lides petebistas
no Acre, Ruy Lino não medira esforços para denunciar e opor-se, de viva voz, às
ocasionais irregularidades administrativas
que ocorriam no Território. De
salientar um incidente ocorrido com seu sogro, chamado ao gabinete do
governador para ouvir, do próprio mandatário na época, a ameaça de espancamento
ao seu genro, em praça pública, caso continuasse a levar a efeito os discursos
denunciatórios. Sentindo-se profundamente ferido com as palavras ameaçadoras, e
super injuriado, o sogro do jovem político, sem nada contestar, retirara-se à
sua residência e, de revólver em punho, retornara ao palácio para pôr termo à
ameaça sofrida, o que, naturalmente não viera a ocorrer, graças e intervenção de
amigos íntimos, ligados a ambos. No dia seguinte, lá estava, em praça pública,
Ruy Lino a denunciar, inflamado, de megafone em mão, o insensato destempero do
governador e suas irregularidades.
Poucos anos depois, mais precisamente em
1961, estando o PTB na presidência da República, Ruy Lino fora nomeado
governador do Território do Acre. Por essa época, encontrava-se aguardando a
sanção do presidente, a Lei que elevaria o Acre à categoria de Estado, cujo
projeto já tramitava há quatro anos – no período de governo do PSD. Surgira a
chance daquele acreano minorar o sofrimento de seu povo – seu anseio.
Porém, faz-se mister algumas gotas de
reflexão, no tocante às correntes políticas acreanas, na época, e a emancipação
do Território à categoria de Estado. Sendo o PTB oposicionista, seria razoável
o presidente Jango postergar a esperada sanção da lei acreana.
A União Democrática Nacional – UDN, na
realidade, apresentara contestação, porém em termos.
Referira-se aos elementos sociais, aos grupos
políticos, aos elementos administrativos e aos inexpressivos elementos
econômicos. Parodiando a filosofia antiga, para alguns, Acre não possuía terra, ar, água e fogo, isto é, para
tornar-se estado, o Território seria desprovido das substâncias consideradas
como força da natureza estatal.
Talvez não por ironia do destino, mas
propositadamente, a citada Lei, sob o nº 4.070, fora assinada oito meses após a
posse de Ruy Lino que, conforme verifica-se
em sua larga entrevista ao
Correio da Manhã, do Rio de Janeiro,
também ele apoiava a referida emancipação, categoricamente.
Durante o período que passara à frente do
governo do Território do Acre, Ruy Lino, ao persuadir o presidente João
Goulart, concretizara o anseio de todo o funcionalismo acreano, efetivando-os no
Quadro Permanente, vinculado ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores,
medida que visara tanto o desenvolvimento da unidade federativa, como o
bem-estar social.
Quanto à transformação do Acre em Estado a
própria contestação da União Democrática Nacional – UDN, elaborada pelo
competente advogado Aluízio Macedo Maia, não apenas sugerira, como ratificara o
fato de todos os acreanos serem autonomistas.
De fato, as respectivas ilustrações a que se
tem acesso, fornecem comprovação que sugere buscas de entendimentos, entre os
políticos, pois afinal todos são acreanos.
Na certeza de que Jango sancionaria a Lei
acreana, Ruy Lino pedira exoneração onze dias antes, desincompatibilizando-se
do cargo de governador, para candidatar-se a deputado federal pelo Estado do
Acre.
Eleito para sucessivas legislaturas com significativas
margens de votação, Ruy Lino sempre procurou honrar e corresponder os sufrágios
que seus conterrâneos depositavam nas urnas.
Há mais de meio século, até mesmo muitos
adversários, ainda hoje, reconhecem a eficácia do esforçado feito do Deputado
Ruy Lino, no que concerne ao Enquadramento de milhares de servidores. E compreendem também que foi como político ou
parlamentar que ele se imortalizou na história da política acreana,
registrando-se, ainda, que Ruy Lino foi o primeiro, último e único acreano
nomeado Governador do Território do Acre – Delegado da União.
Ruy Lino fora, enfim, um gigante em bondade,
grandeza de atitudes, solidariedade, amizade, lealdade, convicções, exemplo de
boas lutas e desprendimento.
A foto acima registra o principal escalão do
último governo do então Território do Acre. Sentados, da esquerda para a
direita: Alfredo Sanches Mubárac, governador José Ruy da Silveira Lino e Dr.
José Tomaz Nabuco de Oliveira. Em pé, na mesma ordem: Dr. Pojucan Ribeiro,
Abrahin Isper Jr, Prof. Geraldo Gurgel de Mesquita (Secretário Geral), Milton
Matos Rocha, Cap. Manuel Ramos e Dr. Garibaldi Carneiro Brasil.
*Regina Amélia D’Alencar Lino é socióloga, e filha de Ruy Lino. Ex-vereadora, ex-deputada federal, e ex-vice-prefeita de Rio Branco – AC.
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
MENINOS
Murilo Mendes (1901-1975)
Sentada à soleira da porta
Menino triste
Que nunca leu Júlio Verne
Menino que não joga bilboquê
Menino das brotoejas e da tosse eterna
Contemplo o menino rico na varanda
Rodando na bicicleta
O mar autônomo sem fim
É triste a luta das classes.
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
UTOPIA E BARBÁRIE
Do excelente diretor Sílvio Tender. “Utopia e
Barbárie” (2009) transita por alguns dos episódios mais polêmicos da história
mundial recente, como as bombas de Hiroshima e Nagasaki, o Holocausto, a
Revolução de Outubro, o ano de 1968 no mundo (Brasil, França, Chile, Argentina,
Uruguai, dentre outros), a Operação Condor, a queda do Muro de Berlim e a
explosão do liberalismo mais canibal que a História já conheceu.
PASSAGEM ESTREITA
Isaac Melo
dorme o quarto
reclinado sobre a escuridão
ouço algo a pulsar
no silêncio do desvão
não sei
se respiram as trevas
ou se
agoniza o coração
quinta-feira, 7 de agosto de 2014
NÃO SE ACEITAM TROCAS
Theodor W. Adorno (1903-1969)
As pessoas estão desaprendendo a dar
presentes. Na violação do princípio de troca, há algo de absurdo e implausível;
muitas vezes, até mesmo as crianças examinam com desconfiança quem dá algo,
como se o presente fosse apenas um truque para vender-lhes uma escova ou um
sabonete. Em compensação, pratica-se a charity,
a beneficência administrada que, como um adesivo, tapa planejadamente as
feridas expostas da sociedade. Dentro dessa empresa tão organizada já não há
mais lugar para a emoção humana, a doação está necessariamente vinculada à
humilhação pelo ato de repartir, de avaliar exatamente, em suma, pelo fato de
tratar como um objeto aquele que é presenteado. Até o ato privado de dar
presentes foi rebaixado ao nível de uma função social que se efetua com uma
racionalidade contrariada, com base no cumprimento cuidado de um budget estipulado, numa avaliação
céptica acerca do outro e com o menor esforço possível. O verdadeiro ato de
presentear encontrava sua felicidade na imaginação da felicidade do recebedor. E
isso quer dizer: escolher, dedicar tempo, desviar-se de suas ocupações, pensar
no outro como sujeito: o contrário da negligência. Eis aí algo de que quase
ninguém mais é capaz. Na melhor das hipóteses, as pessoas presenteiam aquilo
que desejariam para si próprias, apenas um pouco piores sob alguns aspectos. A decadência
do costume de dar presentes reflete-se na embaraçosa invenção dos artigos para
presente, que se baseiam na pressuposição de que as pessoas não sabem o que
presentear porque, no fundo, não querem fazê-lo. Essas mercadorias são
desprovidas de toda relação com os seus compradores. Já eram artigos de encalhe
desde o primeiro dia. Algo semelhante ocorre com a ressalva relacionada com a
troca de artigos, que para o presenteado significa: – Aqui está sua tralha,
faça com ela o que quiser; se isto não lhe agradar, para mim é indiferente;
troque por outra. Ademais, em face do embaraço envolvido nos presentes
habituais, sua substitutibilidade exibe até um aspecto mais humano, porque aos
menos permite ao presenteado da algum presente a si mesmo, o que, porém,
implica ao mesmo tempo a absoluta contradição do ato de presentear.
Em vista da enorme abundância de bens
acessíveis até aos mais pobres, a decadência do costume de dar presentes
poderia parecer indiferente e sua consideração algo sentimental. Entretanto,
mesmo que na abundância isso fosse supérfluo – e isto é uma mentira, tanto
privada quanto socialmente, pois hoje não há ninguém para quem um pouco de
fantasia não possa encontrar exatamente algo que o alegre por completo –
restariam como carentes de presentear aqueles que não presenteiam mais. Neles se
atrofiam aquelas faculdades insubstituíveis que não podem prosperar no
isolamento da pura interioridade, mas apenas em contacto com o calor das
coisas. A frieza apodera-se de tudo o que fazem, da palavra amistosa que
permanece impronunciada, da consideração que não é praticada. Essa frieza acaba
repercutindo naqueles que emana. Toda relação não deformada, talvez até mesmo
aquilo que é conciliador na vida orgânica, é um dom. Quem se torna incapaz
disso por força da lógica da coerência faz de si uma coisa e deixa-se congelar.
ADORNO, Theodor W. Minima Moralia: reflexões
a partir da vida danificada. Tradução Luiz Eduardo Bicca. São Paulo: Ática,
1993. p.35-36
quarta-feira, 6 de agosto de 2014
O SONHO DA ARGILA
Thiago de Mello
O vocábulo puro, em que me amparo,
esquiva-se a meu jugo; e raro canto.
Que a palavra da boca é sempre inútil
se o sopro não lhe vem do coração.
Mudo, contemplo os valerosos feitos
de quem funda caminhos sobre os mares
e edifica cidades e ergue torres
de cujo topo logre dominar
o mundo inteiro – e ver que o mundo é pouco.
Antes os que, cegos, trabalham a terra,
sorvendo-lhe os tesouros mais esconsos,
sem assombro, no convívio dos bois,
com eles aprendendo a ser humildes,
e dormem, vinda a noite, sossegados,
– permaneço calado, e todavia
algo em mim lhes inveja esse dormir.
Não me pranteio por saber-me turvo
ou por não me caber a paz dos brutos.
Sei que morro amanhã, mas não me louvo
a sóbria face que disfarça o medo.
Move-me ao canto ver que a sombra cresce
dentro de mim, enquanto um sol avaro
esplende oculto – em céus só vislumbrados
quando a argila, grotesca e ousada, sonha.
E ver o inútil dessa argila em sonho,
mais que mover-me ao canto, me comove.
MELLO, Thiago de. Vento geral (1951-1981).
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984. p.84-85
terça-feira, 5 de agosto de 2014
MAPA
Murilo Mendes (1901-1975)
A Jorge
Burlamaqui
Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo
medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela
minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluido,
depois chego à consciência da terra, ando
como os outros,
me pregam numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número,
detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou
andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali,
desarticulado,
Gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho
com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei mais o
que é o bem nem o mal.
Minha cabeça voou acima da baía, estou
suspenso, angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de
pensamentos,
não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados, me balanço em
arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua
combatendo personagens imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às
gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis
do jardim.
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem
anos, levantando populações...
Me desespero porque não posso estar presente
a todos os atos da vida.
Onde esconder minha cara? O mundo samba na
minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noites, mulheres
andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e
movimentos me chamam a atenção,
O mundo vai mudar a cara,
A morte revelará o sentido verdadeiro das
coisas.
Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as
agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos
revolucionários.
Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras
caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os
passos
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete
mulheres,
vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as
almas no ar,
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.
Almas desesperadas eu vos amo. Almas
insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os
homens “práticos”...
Viva São Francisco e vários suicidas e
amantes suicidas,
e os soldados que perderam a batalha, às mães
bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram
perfeitos ou porque jejuavam muito...
Viva eu, que inauguro no mundo o estado de
bagunça transcendente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos
passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando
sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me
inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes
desesperados,
no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos
andando,
sempre em
transformação.
MENDES, Murilo. Os Melhores Poemas de Murilo Mendes. Seleção Luciana
Stegagno Picchio. São Paulo: Global, 1994. p.24-26
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
DEPOIS DE TUDO
Cassiano Ricardo (1895-1974)
Mas tudo passou tão depressa.
Não consigo dormir agora.
Nunca o silêncio gritou tanto
nas ruas da minha memória.
Como agarrar líquido o tempo
que pelos vãos dos dedos flui?
Meu coração é hoje um pássaro
pousado na árvore que eu fui.
RICARDO, Cassiano. Melhores Poemas. Seleção
Luiza Franco Moreira. São Paulo: Global, 2003. p.225
DO LER E ESCREVER
Friedrich Nietzsche (1844-1900)
De tudo escrito, amo apenas o que se escreve
com o próprio sangue. Escreve com sangue: e verás que sangue é espírito.
Não é coisa fácil compreender o sangue
alheio: eu detesto os que leem por passatempo.
Quem conhece o leitor nada mais faz pelo
leitor. Mais um século de leitores – e até o espírito federá.
Que todo mundo possa aprender a ler, a longo
prazo isso estraga não só a escrita, mas também o pensamento.
Outrora o espírito era Deus, depois se tornou
homem, agora está se tornando plebe.
Quem escreve em sangue e em máximas não quer
ser lido, quer ser aprendido de cor.
Nas montanhas, o mais curto caminho é aquele
entre um cume e outro: mas para isso tens de ter apenas pernas compridas.
Máximas devem ser cumes: e aqueles a quem são ditas devem ser grandes e altos.
O ar fino e puro, o perigo próximo e o
espírito pleno de alegre maldade: essas coisas combinam.
Quero ter duendes a meu redor, pois tenho
coragem. A coragem que espanta os fantasmas cria seus próprios duendes – a
coragem quer rir.
Já não sinto como vós: essa nuvem que vejo
abaixo de mim, essa coisa negra e pesada da qual eu rio – justamente isso é
vossa nuvem de tempestade.
Olhais para cima quando buscais a elevação.
Eu olho para baixo, porque estou elevado.
Quem, entre vós, pode ao mesmo tempo rir e
sentir-se elevado?
Quem sobe aos montes mais altos ri das
tragédias do palco e da vida.
Corajosos, descuidados, zombeteiros,
violentos – assim nos quer a sabedoria: ela é uma mulher, ela ama somente um
guerreiro.
Vós me dizeis: “A vida é difícil de
suportar”. Mas por que teríeis vosso orgulho de manhã e vossa resignação de
noite?
A vida é difícil de suportar: mas não sejais
tão delicados! Todos nós somos belos asnos e asnas.
Que temos em comum com o botão de rosa, que
estremece porque sobre o seu corpo há uma gota de orvalho?
É verdade: amamos a vida por não estarmos
habituados à vida, mas ao amor.
Há sempre alguma loucura no amor. Mas também
há sempre alguma razão na loucura.
E também a mim, que sou bem-disposto com a
vida, parece-me que borboletas e bolhas de sabão, e o que há de sua espécie
entre os homens, são quem mais entende de felicidade.
Ver e esvoejar essas alminhas ligeiras,
tolas, encantadoras e volúveis leva Zaratustra às lágrimas e ao canto.
Eu acreditaria somente num deus que soubesse
dançar.
Quando vi meu diabo, achei-o sério,
meticuloso, profundo e solene: era o espírito de gravidade – ele faz todas as
coisas caírem.
Não com ira, mas com riso é que se mata. Eia,
vamos matar o espírito de gravidade!
Aprendi a andar: desde então corro. Aprendi a
voar: desde então, não quero ser empurrado para sair do lugar.
Agora sou leve, agora voo, agora me vejo
abaixo de mim, agora dança um deus através de mim.
Assim falou Zaratustra.
NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra:
um livro para todos e para ninguém. Tradução, notas e posfácio Paulo César de
Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p.40-41
sábado, 2 de agosto de 2014
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
PESSIMISMO
Inês Lacerda Araújo
Matança de ratos presos em uma ratoeira, é
essa imagem que vem para descrever o massacre da população civil da Faixa de
Gaza. Espremidos entre o mar, a fronteira com Israel e com o Egito, ambas
fechadas, dois milhões de habitantes não têm para onde fugir dos bombardeios
israelenses.
Enquanto o Hamas se serve de prédios
particulares e públicos para a entrada de túneis e depósito de armamento, e
Israel bombardeia tais prédios, o pior, em abrigos da ONU, mais de mil pessoas,
crianças e mulheres morrem, outras são feridas, mutiladas. Qual esperança para
esse canto fervilhante do planeta?
Leste da Ucrânia, uma senhora tem o teto de
sua cozinha perfurado pelo cadáver nu de uma mulher! Estilhaços de um míssil
derrubaram um avião civil, choveram cadáveres (298) do céu!
Brasil: pai que mata filho, madrasta que o
enterra; policiais que arrastam o corpo de uma mãe caído do porta malas de uma
viatura, talvez ainda com vida; black blocs com seus coquetéis e uma ação de
protesto contra o capitalismo, bancos, revendedoras de veículos, prédios
públicos, mataram um jornalista.
Examinemos a ação terrorista destes
encapuçados. No comando deles no Rio de Janeiro, uma professora de filosofia,
Camila Jourdan. Jovem, bonita, com artigos sobre Wittgenstein. Enfim, mestre,
quer dizer, habilitada para ensinar o pensamento de filósofos, aqueles amigos
da sabedoria, que ensinam ética, moderação, reflexão, raciocínio, lógica, uso
de conceitos, busca da verdade!
Retire-se de nossa sociedade as indústrias,
as trocas internacionais, a mediação dos bancos, o sistema financeiro,
automóveis, ônibus (que foram incendiados), impeçam a circulação de pessoas,
seria o caos.
É isso que visam os anarquistas do movimento
black blocs?
Cegueira social, teórica e prática! Camila
Jourdan chefia a "Organização Anarquista Terra e Liberdade". Ora, se
é "anarquista", como pode ser ao mesmo tempo "organizada"?!
Alguns os defendem em nome do direito
democrático de protestar; enquanto isso os que foram detidos, se serviram do
sistema judiciário que eles próprios querem destruir. Se fossem consequentes e
coerentes, dispensariam advogados, estes, afinal, pertencem ao sistema...
Diante desse quadro (e ele está incompleto),
a pergunta:
Somos melhores que nossos antepassados?
Democracia? Os gregos a inventaram, talvez a
tenham usado mais e melhor do que nós modernos.
Justiça? Os romanos e povos antes deles
tinham leis, códigos e os aplicavam (prisões lotadas? no Brasil atual ...)
Conhecimento, ciências, progresso
tecnológico? O que dizer da Renascença, de Leonardo da Vinci?
Medicina, antibióticos, mas e o vírus ebola?
Não há vacina...
O que procuramos, nós humanos, o que
conseguimos, e o que fazemos conosco mesmos?
Absurdos, abusos, violência, violação de
direitos, muito sofrimento.
A história nos mostra a vida dos povos, e
nada encontra a não ser guerras e rebeliões para nos relatar; os anos de paz
nos parecem apenas curtas pausas... E de igual maneira a vida do indivíduo é
uma luta contínua... Por toda parte ele encontra opositor, vive em constante
luta, e morre de armas em punho (Schopenhauer).
*Inês Lacerda Araújo - Professora de Filosofia durante 40 anos, na UFPR, e nos últimos anos na
PUCPR. Autora de livros sobre Epistemologia, História da Filosofia e
Teoria do Conhecimento. Atualmente aposentada.
quarta-feira, 30 de julho de 2014
FICAM-ME AS PENAS
Cassiano Ricardo (1895-1974)
O pássaro fugiu, ficam-me as penas
da sua asa, nas mãos desencantadas.
Mas, que é a vida, afinal? Um voo, apenas.
Uma lembrança e outros pequenos nadas.
Passou o vento mau, entre açucenas,
deixou-me só corolas arrancadas...
Despedem-se de mim glórias terrenas.
Fica-me aos pés a poeira das estradas.
A água correu veloz, fica-me a espuma.
Só o tempo não me deixa coisa alguma
até que da própria alma me despoje!
Desfolhados os últimos segredos,
quero agarrar a vida, que me foge,
vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos.
RICARDO, Cassiano. Melhores Poemas. Seleção Luiza Franco Moreira. São Paulo: Global, 2003. p.77
vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos.
RICARDO, Cassiano. Melhores Poemas. Seleção Luiza Franco Moreira. São Paulo: Global, 2003. p.77
terça-feira, 29 de julho de 2014
IMAGENS ÍNDIOS ISOLADOS - 1º contato no Acre
Isaac Melo
Não venha, oh índio
buscar refúgio em nossa civilização
nós é que invejamos o teu refúgio
e olhamos para ti, estupefatos,
porque há muito nos perdemos
e olhamos para vós com nostalgia
por aquilo que nunca fomos
e jamais seremos
e, no entanto, somos
não tens a perfeição
tens a pureza bruta, selvagem
cinco graus acima
de nossa melhor imagem
não és mais digno
nem menos digno
tu levas a missão de resistir
não com armas, políticas e filosofias
resistes existindo
e existindo provas a verdadeira
imbecilidade de nossa civilização
erguida sobre a ebriez da razão
cujos representantes são grandes
e barulhentos, mas vazios
como o vão de uma sapopemba a outra
a humanidade ora resiste
porque tu existe
acenderam-se a luzes da civilização
e o último homem foi embora...Veja aqui a reportagem completa no Blog do Altino
segunda-feira, 28 de julho de 2014
domingo, 27 de julho de 2014
TRIBUTO A SUASSUNA
a vida
tem dessas coisas
ora esconde o sol
ora traz a bruma
agora
procriam os coelho’s
escasseiam os suassuna’s
sexta-feira, 25 de julho de 2014
quinta-feira, 24 de julho de 2014
ARIANO SUASSUNA, O CAVALEIRO DA CULTURA BRASILEIRA
Morreu um dos últimos brasileiros, que viveu
e dedicou-se a seu país e sua gente! A melhor maneira de homenageá-lo é
conhecer a sua obra. Obrigado, Ariano. O nosso coração se entristece, mas está
engrandecido e agradecido pela generosidade humana de tua pena, fruto de um
homem coerente com seus ideais. OBRIGADO!!!
quarta-feira, 23 de julho de 2014
FILÓSOFOS METAFÍSICOS E FILÓSOFOS PÓS-METAFÍSICOS
Inês Lacerda Araújo
A filosofia nasceu com filósofos metafísicos,
como os gregos clássicos. A busca desses filósofos, principalmente Platão e
Aristóteles, se dirigiu aos princípios primeiros de todas as coisas, às causas
iniciais e às causas finais, quer dizer, a que se destinam os seres, quais são
suas características essenciais, as propriedades principais que conduzem tudo o
que existe a certo fim. Assim, o ser humano para Aristóteles, por exemplo,
dirige sua conduta por valores éticos e políticos de realização plena. Como?
Por meio do equilíbrio, da justa medida em termos éticos, individuais, e como
cidadão na polis.
Até Kant, a filosofia com raras exceções,
entre elas os filósofos céticos (Hume é um deles), pautou-se pela indagação
"o que é o ser em geral?" e deu a essa indagação uma resposta com
pretensão a ser a verdade final. Tomemos Descartes: o ser é o cognoscível, Deus
inclusive, é nossa inteligência que conclui sobre a existência de um ser
perfeito, e, sendo perfeito, logicamente deve existir. A razão passou a
comandar a metafísica.
Kant desbancou a metafísica desse altar da
razão, não há como saber se nosso conhecimento chega até os seres neles mesmos,
isto é, independentemente do conhecedor. Nosso conhecimento depende de
processos e procedimentos (as categorias), sem eles impossível saber algo do
mundo que nos cerca.
Os ideais Deus, destino final da alma, e a
razão de ser do mundo, questões essencialmente metafísicas, recebem resposta
moral. No recôndito da alma humana há uma relação do homem consigo mesmo
permeada pela consciência do dever moral. Kant eleva o homem à dignidade
máxima, à liberdade máxima que permite decidir desapegadamente, a única e nobre
finalidade é a realização de ações que refletem o que é bom para todos
igualmente.
Pois bem, os filósofos pós-metafísicos vão em
outra direção.
Nietzsche desmonta o edifício moral kantiano,
o imperativo categórico manda que se obedeça a sistemas morais, o que não passa
de uma tirania; não há sequer porque considerar o ser em si, pressuposto dos
metafísicos. "O que chamamos de mundo é o resultado de uma multidão de
erros", e "a coisa em si digna de um riso homérico, ... vazia, vazia
de sentido". Isso porque noções como as de ser, causa final, bem supremo,
noções morais, estéticas, religiosas são todas obra do intelecto humano, da
ação humana, e cabe ao filósofo fazer a história da proveniência desses
valores, todos eles humanos.
No século passado a filosofia se viu diante
de novas questões, como a lógica da ciência para o positivismo lógico, questões
sociais e políticas, a pergunta sobre a liberdade e sobre a existência que se
"historicizou", por assim dizer. As perguntas que mais interessam à
filosofia dizem respeito à compreensão do que fazemos, de nossa história, das
transformações que sofremos, e do que podemos almejar com as condições criadas
por nós. Antes, no século 19, Marx considerou que essas condições são as da
produção material, transformações econômicas respondem à questão "o que
somos, de onde viemos e para onde vamos?".
Ainda na vertente da filosofia alemã, a escola
de Frankfurt atualizou o pensamento da esquerda e foi além da proposta de uma
revolução que devolvesse os meios de produção ao trabalho e não ao capital.
Habermas reafirmou seu pertencimento à
filosofia pós-metafísica. Para ele, sem a linguagem, sem a comunicação não há
ordem social, o pensamento depende da linguagem, e a crise com a questão do ser
em si (qual é a essência fundamental de todas as coisas), é recolocada:
trata-se de um jogo de linguagem. Ou, mais precisamente, um ato de fala, uma
pergunta feita por filósofos interessados na origem de tudo.
Então, tudo se enraíza na linguagem? Sim, mas
evidentemente o mundo não é feito de linguagem e sim de coisas e suas
interações. E como pensaríamos a respeito disso tudo sem a linguagem?
Impossível para a filosofia pós-metafísica.
segunda-feira, 21 de julho de 2014
AS TRÊS COROAS
Guilherme de Almeida (1890-1969)
[...] o seu dono era
rei e era santo [...]
Álvaro Moreyra
Na sala do museu,
as três coroas conversavam. Uma,
a que era de ouro, disse às outras: – “Eu
fui de um rei. E curvei meu rei como uma
pluma
ao peso bom das minhas joias tutelares.
Tive um reino a meus pés, com soldados e
teares,
e torres brancas e altas como luas,
e searas mais maduras,
mais loiras do que o sol, e navios enormes
como os templos de Deus e os palácios dos
homens...
Fui tudo: rica, poderosa, bela...
Tive um rei a meus pés e um céu sobre nós
dois...
Depois,
Pesei demais para a cabeça velha
do meu rei – e Caí.
E puseram-me aqui!”
A segunda coroa,
a de louros, falou: – “Eu nasci na Grécia.
Eu fui o gesto verde que abençoa!
E, inatingível como uma promessa,
gesticulei na ponta
viva do meu loureiro,
chamando os poetas e os heróis do mundo
inteiro.
Junto a mim, sob a copa alta e redonda,
eles cantaram e lutaram,
estenderam-me os braços – e passaram!
O amor passou também com frautas e com danças.
com uvas nos chavelhos,
ou com rosas nas tranças,
oferecendo a boca e abrindo os joelhos,
ou tatuando na pele do meu tronco
a data de um encontro,
a data de um adeus...
E o amor ergueu também seus braços para os
meus!
Nem sei qual foi a mão
que me colheu, porque logo murchei...”
Então,
a terceira coroa, a coroa de espinhos,
disse às outras: – “Eu fui uma urze dos
caminhos.
Vivi só, sempre só,
escondendo venenos sob o pó.
Mas, um dia, enrolaram-me à cabeça
de um homem que era branco como um louco,
e belo, e bom como a tristeza,
e puro como o fogo...
E sofrendo, e sofrendo,
ele morreu comigo. Então fiquei sabendo
que eu valia tesouros e tesouros,
mais que as coroas de ouro e as coroas de
louros:
– porque eu coroei os reis e os heróis, eu
coroei
todos os homens... E ainda não murchei!”
ALMEIDA, Guilherme de. Encantamento, Acaso, Você: seguidos dos haicais
completos. Campinas: Unicamp, 2002. p.112-113
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