terça-feira, 12 de agosto de 2014

GOVERNADOR RUY LINO – Um acreano da boa cepa

Regina Amélia D’Alencar Lino


Se vivo fosse, dia 13 de agosto José Ruy da Silveira Lino estaria completando 90 anos de idade.

Nascido no município acreano de Tarauacá, em 1924, Ruy Lino desfrutara  a aurora de sua vida nas brincadeiras infantis, nas peraltices naturais, divididas frequentemente com o amiguinho Geraldo Brasil, curiosamente nascido no mesmo mês, porém em data inversamente grafado à sua (dia 31) e residente na mesma rua, no número 132, defronte sua residência, de número 231. Ao final da primeira infância querida Ruy Lino seguira para Manaus, a fim de iniciar seus primeiros estudos no Colégio Dom Bosco da capital amazonense.

Sentindo despertar a vocação para o trato com a natureza vegetal e grande atração para lidar com a terra, Ruy Lino optara por fazer estudos da agricultura, escolhendo a Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, para desenvolver seu projeto, passando, também, a ter militância na política estudantil, com participação ativa na União Nacional dos Estudantes (UNE).

Concluídos os estudos de nível superior e já ingresso no quadro de funcionários do Ministério da Agricultura, Ruy Lino retornara ao Acre, no início da década de 1950, sendo lotado no setor de Fomento Agrícola Federal, divisão representativa daquele ministério.

Tratava-se de órgão responsável pela gestão das políticas públicas de estímulo à agropecuária, pelo fomento do agronegócio e pela regulação e normatização de serviços vinculados à agricultura. Aos vinte e seis anos de idade Ruy Lino já desempenhava atribuições de relevadas responsabilidades, no âmbito federal.

O que Ruy Lino queria, inicialmente, era a carreira agronômica, seu desejo íntimo... continuar engenheiro agrônomo.

Servir o Acre na república, para Ruy Lino significava voltar à agronomia, ser engenheiro do Ministério da Agricultura, cuidar de sua própria terra e de seus conterrâneos – tudo o que ele mais almejava.

Ruy Lino atendera, enfim, à “paixão humana”, o interesse vivo, palpitante, absorvente, no destino e na condição alheia, sobretudo dos pobres e sem suficientes defensores – o que se poderia dizer dos funcionários do Território do Acre, que recebiam, com contínuos atrasos, iníquas remunerações, como “extranumerários”. A eles passara a dedicar toda a vida, através da política, ajudar a sua terra, prestar ombros à sua época.

Constituindo família aos 27 anos de idade, com os filhos Regina, Beth, Ruy e Ovídio, Ruy Lino tivera na sua esposa zelosa, admirável e encantadora Niní, a primazia da mulher amada, sustentáculo sólido e  ideal para o desenvolvimento de todos os seus sonhos e projetos – idealistas e  racionalistas.

Lançara-se, então, à atividade política, sem prejudicar o tempo empregado à responsabilidade funcional dedicada à burocracia de sua repartição, vindo a filiar-se ao Partido Trabalhista Brasileiro – PTB, em cujo programa destacavam-se algumas reformas sociais, tais como a urbana, a agrária e a da educação.

Assumindo de corpo e alma as lides petebistas no Acre, Ruy Lino não medira esforços para denunciar e opor-se, de viva voz, às ocasionais irregularidades administrativas  que ocorriam  no Território. De salientar um incidente ocorrido com seu sogro, chamado ao gabinete do governador para ouvir, do próprio mandatário na época, a ameaça de espancamento ao seu genro, em praça pública, caso continuasse a levar a efeito os discursos denunciatórios. Sentindo-se profundamente ferido com as palavras ameaçadoras, e super injuriado, o sogro do jovem político, sem nada contestar, retirara-se à sua residência e, de revólver em punho, retornara ao palácio para pôr termo à ameaça sofrida, o que, naturalmente não viera a ocorrer, graças e intervenção de amigos íntimos, ligados a ambos. No dia seguinte, lá estava, em praça pública, Ruy Lino a denunciar, inflamado, de megafone em mão, o insensato destempero do governador e suas irregularidades.

Poucos anos depois, mais precisamente em 1961, estando o PTB na presidência da República, Ruy Lino fora nomeado governador do Território do Acre. Por essa época, encontrava-se aguardando a sanção do presidente, a Lei que elevaria o Acre à categoria de Estado, cujo projeto já tramitava há quatro anos – no período de governo do PSD. Surgira a chance daquele acreano minorar o sofrimento de seu povo – seu anseio.

Porém, faz-se mister algumas gotas de reflexão, no tocante às correntes políticas acreanas, na época, e a emancipação do Território à categoria de Estado. Sendo o PTB oposicionista, seria razoável o presidente Jango postergar a esperada sanção da lei acreana.

A União Democrática Nacional – UDN, na realidade, apresentara contestação, porém em termos.

Referira-se aos elementos sociais, aos grupos políticos, aos elementos administrativos e aos inexpressivos elementos econômicos. Parodiando a filosofia antiga, para alguns, Acre não possuía  terra, ar, água e fogo, isto é, para tornar-se estado, o Território seria desprovido das substâncias consideradas como força da natureza estatal.

Talvez não por ironia do destino, mas propositadamente, a citada Lei, sob o nº 4.070, fora assinada oito meses após a posse de Ruy Lino que, conforme verifica-se  em sua larga   entrevista ao Correio da  Manhã, do Rio de Janeiro, também ele apoiava a referida emancipação, categoricamente.
Durante o período que passara à frente do governo do Território do Acre, Ruy Lino, ao persuadir o presidente João Goulart, concretizara o anseio de todo o funcionalismo acreano, efetivando-os no Quadro Permanente, vinculado ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores, medida que visara tanto o desenvolvimento da unidade federativa, como o bem-estar social.

Quanto à transformação do Acre em Estado a própria contestação da União Democrática Nacional – UDN, elaborada pelo competente advogado Aluízio Macedo Maia, não apenas sugerira, como ratificara o fato de todos os acreanos serem autonomistas.

De fato, as respectivas ilustrações a que se tem acesso, fornecem comprovação que sugere buscas de entendimentos, entre os políticos, pois afinal todos  são acreanos.

Na certeza de que Jango sancionaria a Lei acreana, Ruy Lino pedira exoneração onze dias antes, desincompatibilizando-se do cargo de governador, para candidatar-se a deputado federal pelo Estado do Acre.

Eleito para sucessivas legislaturas com significativas margens de votação, Ruy Lino sempre procurou honrar e corresponder os sufrágios que seus conterrâneos depositavam nas urnas.

Há mais de meio século, até mesmo muitos adversários, ainda hoje, reconhecem a eficácia do esforçado feito do Deputado Ruy Lino, no que concerne ao Enquadramento de milhares de servidores.  E compreendem também que foi como político ou parlamentar que ele se imortalizou na história da política acreana, registrando-se, ainda, que Ruy Lino foi o primeiro, último e único acreano nomeado Governador do Território do Acre – Delegado da União.

Ruy Lino fora, enfim, um gigante em bondade, grandeza de atitudes, solidariedade, amizade, lealdade, convicções, exemplo de boas lutas e desprendimento.
A foto acima registra o principal escalão do último governo do então Território do Acre. Sentados, da esquerda para a direita: Alfredo Sanches Mubárac, governador José Ruy da Silveira Lino e Dr. José Tomaz Nabuco de Oliveira. Em pé, na mesma ordem: Dr. Pojucan Ribeiro, Abrahin Isper Jr, Prof. Geraldo Gurgel de Mesquita (Secretário Geral), Milton Matos Rocha, Cap. Manuel Ramos e Dr. Garibaldi Carneiro Brasil.


*Regina Amélia D’Alencar Lino é socióloga, e filha de Ruy Lino. Ex-vereadora, ex-deputada federal, e ex-vice-prefeita de Rio Branco – AC.
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