quinta-feira, 7 de agosto de 2014

NÃO SE ACEITAM TROCAS

Theodor W. Adorno (1903-1969)


As pessoas estão desaprendendo a dar presentes. Na violação do princípio de troca, há algo de absurdo e implausível; muitas vezes, até mesmo as crianças examinam com desconfiança quem dá algo, como se o presente fosse apenas um truque para vender-lhes uma escova ou um sabonete. Em compensação, pratica-se a charity, a beneficência administrada que, como um adesivo, tapa planejadamente as feridas expostas da sociedade. Dentro dessa empresa tão organizada já não há mais lugar para a emoção humana, a doação está necessariamente vinculada à humilhação pelo ato de repartir, de avaliar exatamente, em suma, pelo fato de tratar como um objeto aquele que é presenteado. Até o ato privado de dar presentes foi rebaixado ao nível de uma função social que se efetua com uma racionalidade contrariada, com base no cumprimento cuidado de um budget estipulado, numa avaliação céptica acerca do outro e com o menor esforço possível. O verdadeiro ato de presentear encontrava sua felicidade na imaginação da felicidade do recebedor. E isso quer dizer: escolher, dedicar tempo, desviar-se de suas ocupações, pensar no outro como sujeito: o contrário da negligência. Eis aí algo de que quase ninguém mais é capaz. Na melhor das hipóteses, as pessoas presenteiam aquilo que desejariam para si próprias, apenas um pouco piores sob alguns aspectos. A decadência do costume de dar presentes reflete-se na embaraçosa invenção dos artigos para presente, que se baseiam na pressuposição de que as pessoas não sabem o que presentear porque, no fundo, não querem fazê-lo. Essas mercadorias são desprovidas de toda relação com os seus compradores. Já eram artigos de encalhe desde o primeiro dia. Algo semelhante ocorre com a ressalva relacionada com a troca de artigos, que para o presenteado significa: – Aqui está sua tralha, faça com ela o que quiser; se isto não lhe agradar, para mim é indiferente; troque por outra. Ademais, em face do embaraço envolvido nos presentes habituais, sua substitutibilidade exibe até um aspecto mais humano, porque aos menos permite ao presenteado da algum presente a si mesmo, o que, porém, implica ao mesmo tempo a absoluta contradição do ato de presentear.

Em vista da enorme abundância de bens acessíveis até aos mais pobres, a decadência do costume de dar presentes poderia parecer indiferente e sua consideração algo sentimental. Entretanto, mesmo que na abundância isso fosse supérfluo – e isto é uma mentira, tanto privada quanto socialmente, pois hoje não há ninguém para quem um pouco de fantasia não possa encontrar exatamente algo que o alegre por completo – restariam como carentes de presentear aqueles que não presenteiam mais. Neles se atrofiam aquelas faculdades insubstituíveis que não podem prosperar no isolamento da pura interioridade, mas apenas em contacto com o calor das coisas. A frieza apodera-se de tudo o que fazem, da palavra amistosa que permanece impronunciada, da consideração que não é praticada. Essa frieza acaba repercutindo naqueles que emana. Toda relação não deformada, talvez até mesmo aquilo que é conciliador na vida orgânica, é um dom. Quem se torna incapaz disso por força da lógica da coerência faz de si uma coisa e deixa-se congelar.


ADORNO, Theodor W. Minima Moralia: reflexões a partir da vida danificada. Tradução Luiz Eduardo Bicca. São Paulo: Ática, 1993. p.35-36
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