quarta-feira, 12 de junho de 2013

DOIS SONETOS DE ODIN LIMA

JURUÁ

Odin Lima

Sentado estou, mais uma vez, sobre este monte.
Tardinha é já: o sol matiza o horizonte.
Vejo, em fluir voluptuoso, as tuas águas
Tangendo ao longe e muito longe as minhas mágoas.

            Eu bem o sei! – Foi sempre assim que aconteceu:
            Tu me ouvindo e eu te contando o fado meu.
            Onde está, meu rio amigo, o pescador
            Que ao lusco-fusco, a bem cantar, vertia a sua dor?

Já não o vejo!... E a garça branca, a juriti,
A cobra grande, o jacaré – o tucuxi?!
É, velho amigo, aqui só nós: partiram todos!

            O mundo é mau, e em nossa vida há mil engodos.
            Mas, praza aos céus que ainda possa eu assistir,
            Lá de onde for, eternamente ao teu fluir!

TRISTE SUMAUMEIRA
Odin Lima

Como se fosse ainda pouco o teu crescer,
Nasceste sobre um monte. E agora, altaneira,
Olhas de longe a verde mata, o rio a descer,
O lago ameno e a bela vila alva e rasteira.

            Percebes pouco e muito pouco este viver
            D’aqui debaixo, a diabólica canseira
            Que isto é. Por toda a parte há um frio ranger
            De dentes, e uma viva e rútila fogueira.

Exemplo vivo aos que só veem de cima,
Sofres agora a terrível solidão
De não sentir a massa que fervilha ao chão.

            Tu e quaisquer, cuja grandeza o orgulho mima,
            Sofrereis sempre as duras penas da ilusão
            De serdes tão grandes em meio à multidão.



LIMA, Odin. Araras de Cores: contos acreanos. Belém: CEJUP, 1989. p.11, p.182

Nota
Os dois poemas abrem e fecham, respectivamente, o livro Araras de Cores – contos acreanos, do filho de Cruzeiro do Sul, Odin de Albuquerque Lima. Autodidata, persistente leitor de ficção desde a mais tenra idade, filho de nordestinos, reuniu nesse livro vinte belos contos que melhor representassem épocas, costumes e labores dessa região do médio Juruá.
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