quarta-feira, 19 de junho de 2013

UMA TEMPORADA NO INFERNO

ALQUIMIA DO VERBO 
 Arthur Rimbaud (1854-1891)

A mim. A história de uma de minhas loucuras.

Há muito tempo que eu me vangloriava de possuir todas as paisagens possíveis, e achava ridículas as celebridades da pintura e da poesia modernas.

Eu amava as pinturas idiotas, estofos de portais, cenários, lonas de saltimbancos, tabuletas, estampas coloridas e populares; a literatura fora de moda, latim de igreja, livros eróticos sem ortografia, romances de nossas avós, contos de fadas, livrinhos infantis, óperas velhas, estribilhos piegas, ritmos ingênuos.

Eu sonhava com cruzadas, viagens de descoberta cujas narrações jamais foram feitas, repúblicas sem histórias, guerras religiosas sufocadas, revoluções de costumes, deslocamentos de raças e de continentes: eu acreditava em todos os encantamentos.

Inventei a cor das vogais! – A negro, E branco, I vermelho, O azul, U verde. – regulei a forma e o movimento de cada consoante e, com ritmos instintivos, nutri a esperança de inventar um verbo poético que seria um dia acessível a todos os sentidos. Eu me reservava sua tradução.

Foi, antes, simples estudo. Eu escrevia silêncios, noites, anotava o inexprimível. Fixava vertigens.

*
*   *

De joelhos na charneca, estava eu bem distante
Dos pássaros, rebanhos e aldeãs. Que bebia
No rio envolto em bosques de aveleiras belas,
E em névoa morna e tíbia após o meio-dia?

Que podia eu beber neste Oise, rio infante,
– Relva sem flores, olmos sem voz, céu nublado –
Longe da tenda, nas cabaças amarelas,
A fonte de suor de algum licor dourado.

Torta placa de albergue eu lembrava, ajoelhado.
– Tempestade no céu! Após escurecer
Na areia pura a água dos bosques se perdia.
Gelo o vento de Deus nos charcos esparzia.

Chorando, eu via o ouro – e não puder beber.

*
*   *

            Quatro da manhã estival.
            O sono de amor permance.
            Nos arbustos desaparece
                        O perfume do festival.

            Ao sol das Hespérides vão
            Os Carpinteiros, na rotina
            Da distante e vasta oficina.
                        Em mangas de camisa estão.

            Calma e rugosa solidão
            É a deles, fazendo os preciosos
                        Lambris, nos quais céus fantasiosos
                        Os citadinos fitarão.

            Deves, Vênus, abandoná-los,
            Os teus coroados Amores,
            Por esses bons trabalhadores,
                        De um rei babilônio vassalos.

                        Banho de mar ao meio-dia
            Vão tomar os trabalhadores.
            Dá-lhes, Rainha dos Pastores,
      Dessa aguardente que alivia.

*
*   *

A poética fora de moda desempenhava um bom papel em minha alquimia do verbo.

Habituei-me à alucinação simples: via realmente uma mesquita no lugar de uma fábrica, uma escola de tambores feita por anjos, carruagens nas estradas do céu, um salão no fundo de um lago; os monstros, os mistérios; um título de comédia musical suscitava terrores diante de mim.

Depois expliquei meus sofismas mágicos com a alucinação das palavras!

Terminei achando sagrada a desordem de meu espírito. Eu era um ocioso, preso de incômoda febre: invejava a felicidade dos animais, – as lagartas, que representam a inocência dos limbos, as toupeiras, o sono da virgindade!

Meu caráter tornava-se azedo. Eu dizia adeus ao mundo, em certos tipos de romances:

CANÇÃO DA TORRE MAIS ALTA

Venha, venha o tempo
Que nos enamora.

De pacientar tanto
Para sempre esqueço.

Temores e dores
Aos céus já se foram.

E a sede malsã
Me obscurece as veias.
Venha, venha o tempo
Que nos enamora.

Assim a campina
Entregue ao olvido,
Extensa, florida,
De incenso e de joios,
Ao zumbir sinistro
Das moscas imundas.

Venha, venha o tempo
Que nos enamora.

Amei o deserto, os pomares abrasados, as lojas decadentes, as bebidas tépidas. Eu me arrastava pelos becos fedorentos e, de olhos fechados, me oferecia ao sol, deus de fogo.

“General, se ainda há um velho canhão nos teus baluartes destroçados, bombardeia-nos com blocos de terra seca. Investe contra as vitrinas das lojas resplandecentes! contra os salões! Faze com que a cidade coma sua própria poeira. Enferruja as torneiras. Enche os toucadores de ardente poeira de rubis...”

Oh! a mosca embriagada no mictório da taverna, apaixonada pela borragem, e dissolvida por um raio de sol!

FOME

Só me agrada almoçar
Comendo pedra e chão.
Apetecem-me o ar,
Rocha, ferro, carvão.

Voltai, minhas fomes. Pastai
            No prado dos sons.
Atraí o alegre
            Veneno das campânulas.

Comei os seixos quebradiços,
As velhas pedras das ermidas;
Os calhaus dos velhos dilúvios,
Pães vindos dos vales escuros.

*
*   *

Uiva o lobo nas folhagens
Cuspindo belas plumagens.
De aves fora seu repasto:
Tal como ele, assim me gasto.

Os legumes, as frutas,
Esperam só a colheita,
E a aranha do tapume
Só come violetas.

É preciso que eu durma e ferva
Nos altares de salomão.
Corre a fervura na ferrugem,
E se mistura ao rio Cedrão.

Enfim, ó felicidade, ó razão, eu separava do céu o azul, que é negro, e vivi, dourada centelha de luz natural. Cheio de alegria, eu assumia uma expressão tão burlesca e alucinada quanto possível:

            Ela, a Eternidade,
            Foi reencontrada.
            É o mar misturado
                        Ao sol.

            Cumpre tua jura,
            Alma, eternamente
            Viva, seja o ardente
            Dia ou a noite pura.

            Ficas livre, então,
            De humanos apoios,
            Entusiasmos vãos!
            E voas segundo...

            Jamais a esperança
            E jamais orietur.
            Ciência e paciência,
            O suplício é certo.

            Nem dia seguinte,
            Brasas de cetim,
            Que vossa paixão
            É obrigação.

                        Foi reencontrada!
            – Que? – a Eternidade.
            É o mar misturado
                        Ao sol.

*
*   *

Tornei-me uma ópera fabulosa: vi que todas as criaturas têm uma fatalidade de felicidade: a ação não é a vida, mas uma maneira de dissipar alguma força, um depauperamento. A moral é a fraqueza do cérebro.

Parecia-me ter direito a várias outras vidas, em cada criatura. Este cavalheiro não sabe o que está fazendo: é um anjo. Esta família é uma ninhada de cães. Diante de vários homens, durante um momento conversei em voz alta com uma de suas outras vidas. – Assim, amei um porco.

Nenhum dos sofismas da loucura, – a loucura que leva ao hospício, – ficou esquecido por mim: eu poderia repeti-los todos, tenho o sistema.

Minha saúde ficou ameaçada. Surgia o terror. Passava dormindo vários dias e, acordado, continuava os mais tristes sonhos. Estava maduro para a morte, e por um caminho de perigos minha fraqueza me levava aos confins do mundo e da Ciméria, pátria da sombra e dos turbilhões.

Tive de viajar, para distrair os encantamentos reunidos no cérebro. Sobre o mar, que amava como se fosse consoladora. Eu tinha amaldiçoado pelo arco-íris. A Felicidade era minha fatalidade, meu remorso, meu verme; minha vida seria sempre demasiadamente imensa para ser dedicada à força e à beleza.

A Felicidade! Seu dente, doce à morte, advertia-me ao canto do galo – ad matutinum, no Christus venit, – nas mais sombrias cidades:

                        Ó castelos, ó tempos!
                        Qual a alma sem defeitos?

            Eu fiz o mágico estudo
            Da iniludível ventura.

            Saudemo-la, toda vez
            Que cante o galo gaulês.

            Ah! não terei mais desejos:
            Pus em suas mãos minha vida.

            Tomou esse encanto alma e corpo
            E os esforços dispersou.

                        Ó castelos, ó tempos!

            Quando se for, ai de mim!
            Será a hora de meu fim.

                        Ó castelos, ó tempos!

*
*   *

Isto passou. Sei hoje saudar a beleza.

RIMBAUD, Arthur. Uma temporada no inferno & Iluminações. Tradução Lêdo Ivo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982. p.63-69
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