quinta-feira, 16 de junho de 2016

O OCASO

Geraldo Brasil


Ao seringueiro do Acre,
herói e pária, jamais reconhecido.


Quando o seringal
era o caminho do Acre
e os homens do Sul
depredadores da selva
não pensavam no Oeste
e na estrada do Pacífico,
o patrão era o rei,
a patroa a rainha,
e o seringueiro o glutão
de latas de sardinha.

Será que dormia?
será que sonhava?
media solidão
na escuridez da mata?
Acaso temia
estrupício de onça?
A que horas amava
o seringueiro do Acre?

Seu tempo era o tempo
que a gente não sabe
a noite, na “estrada”
de aroma e ironia,
sozinho seguia
esfaqueando as árvores
de que recolhia
o leite manhoso
que enchia de orgulho
alguém que sonhava.

Aranhas e cobras
e insetos ruins,
esturros de onça
chamanças afins
jamais abalavam
a sua rotina
sem pressa, sem praça,
mulher ou esquina.

Varadouros, varadouros,
teus cipós não vão fazer
com que o nosso seringueiro
deixe o leite de colher.
Corta, corta “afilhadinha”,
nunca deixes de cortar.
Enche, enche tijelinha
que eu vou te coagular.

Macambúsio, ele vai indo
com seringa no seu pé,
só não se conformaria
se lhe faltasse o café.
Que as pragas da noite escura,
solertes e perigosas
lhe cobrissem todo o corpo
das chagas mais dolorosas.
Que tudo enfim lhe faltasse,
tudo – a indiferença até –,
mas não lhe negassem nunca
seu bocado de café.

Mas depois de voltar
à barraca de palha,
o seringueiro, só,
sorria e defumava,
e a fumaça nos olhos
em horas perdidas
avermelhava as vistas
daqueles artistas
que fabricavam bolas
de leite no banho,
esquecidos do mundo
em seu mundo estranho.

Para, para, seringueiro,
está na hora de parar,
senão os teus olhos baços
vão chorando até secar.
E o seringueiro prossegue
teimoso, como ele é,
entretecendo fumaça
com seus goles de café.

São anos, anos, mais anos
que ele até já se esqueceu
do dia, do mês e do ano
em que ele mesmo nasceu.

Mas uns fios largados
de suas memórias
lhe trazem segredos
de algumas estórias
vividas outrora
por cá e por lá...
nas terras ingratas
do seu Ceará.

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Antigamente, antes da Revolução,
patrões havia que queriam tudo.
O seringueiro que falasse em saldo
ficava mudo...
Pálido e mudo, não se rebelava
contra a selva sem fim.
Para ele, o patrão representava
a força da mata, enfim
tudo o que de poder ali se concentrava.
Era melhor calar, e o seringueiro calava.
O patrão exportava e importava também
das praças transversais de Manaus e Belém.
E o ciclo que esmagava o Acre e o seringueiro
engordava as empresas ricas do estrangeiro.

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O tempo desfiou... o seringueiro é velho.
Insiste, mas a insistência inválida tropeça
como as vontades duras amolecidas no relho.

– Defumação (que tantas pelas concebeu)
   que deste ao seringueiro migrante, plebeu?
   Honrarias, fortuna, dinheiro, morada?

– Dei-lhe em forma de chagas rubras e canseira
   o dom de vaguear como vespa largada
   pelo espaço sem cores de sua cegueira. 


BRASIL, Geraldo. O rosto do povo: poemas. São Paulo: Editora Moraes, 1988. p.24-27
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GERALDO Freire BRASIL nasceu em Tarauacá – AC, onde iniciou seus estudos que foram concluídos no Colégio Dom Bosco, localizado na cidade de Manaus. Graduado em Ciências Humanas, em Belo Horizonte – MG, exerceu a profissão de jornalista em várias cidades da região Norte, com destaque para Porto Velho, Belém e Rio Branco. Criador da revista “Observador Amazônico” (1980), que priorizava os problemas que caracterizavam a Amazônia nos aspectos sócio-ambientais, históricos, culturais, geográficos e turísticos. Membro da Academia Acreana de Letras, na cadeira de nº 7; e membro da Associação Paraense de Escritores. Exerceu cargos administrativos diversos, dentre os quais ressaltamos: funcionário do Território Federal do Acre e Chefe de Polícia. Em Minas Gerais, integrou o grupo que fundou o Clube do Cinema e foi um dos fundadores da Sociedade Musical “Claude Debussy”, responsável pela ida a Belo Horizonte de Heitor Villa-Lobos, em 1947.
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