quinta-feira, 23 de junho de 2016

SONETOS DE LEVY SAAVEDRA

PEQUENA BIOGRAFIA DO PROFESSOR LEVY CERVANTES SAAVEDRA
                  
                                          TARAUACÁ – ACRE

Levy Cervantes Saavedra
Década de 1900: Luiz Francisco de Melo conseguira criar no alto Tarauacá um dos maiores impérios de terras da região, sendo proprietários de vários seringais. O irmão dele José Felício de Melo tinha também, uma sociedade com o peruano ‘Barnabé Saavedra’, ambos eram proprietários do seringal Duas Nações em Foz do Jordão, o mais cobiçado por todos, com imensas e ricas áreas de terras, onde era produzida a melhor borracha além de Castanha, amendoim, peles, pesca e madeira.

Com a morte de José Felício de Melo em 1912, depois de conflitos de interesses judiciais (disputas pela herança entre os herdeiros), posteriormente de um litígio na Justiça de Tarauacá, o seringal passou para Barnabé e Manuela Cervantes Saavedra (esposa), de nacionalidade espanhola, declarados como únicos proprietários das terras.

O casal seringalista tinham dois filhos: Soila, e Levy que, concluído o Liceu em Belém, segue para o Rio de Janeiro para estudar Direito.

Na capital brasileira, o jovem idealista Levy Cervantes Saavedra que queria ser Diplomata, entra para a Faculdade no Catete, no curso de Graduação em Direito e ingressa nas fileiras do Exército Brasileiro, para cumprir o tempo dele como Reservista.

O jovem soldado Levy, se apaixona pela caserna e resolve fazer carreira militar nas Forças Armadas Brasileiras; sai como cabo do Exército e logo depois se inscreve para as provas de Sargentos.

Antes dos exames, ele toma conhecimento de uma nota de falecimento, vinda do Acre, da morte do pai, Barnabé Saavedra, que solicita o retorno dele ao seringal em Foz do Jordão.

Com a infausta notícia, o jovem militar e estudante, Levy Saavedra, pede o cancelamento dele no Concurso para Sargento do Exército, no Batalhão de Andaraí na Tijuca, Rio de Janeiro e aguarda o desligamento (baixa) das Forças Armadas.
Era o ano de 1923, período da Primeira Grande Guerra Mundial. O Brasil não participou diretamente nesse primeiro conflito mundial.

                                        RETORNO AO ACRE

Depois de uma longa viagem, toda realizada pela costa marítima brasileira, e depois (fluviais) pelos rios da Amazônia, finalmente chega ao Acre e fica ciente da situação das terras.

                                        CONVITE DE TRABALHO

Ainda em Tarauacá, recebe uma boa notícia: um convite de trabalho do piauiense Juiz de Direito Matias Olímpio, que acabara de ser eleito Governador do Piauí e mais tarde, Senador.

                                        NOVO DESTINO: NORDESTE

1925: Levy Saavedra deixa o Acre, em companhia de Matias Olímpio de Melo, novo Governador do Piauí (1924/28), que lhe entrega o Cartório de Piracuruca, Piauí, onde passa a exercer o cargo de Tabelião; torna-se uma pessoa pública e mais tarde (longo tempo) torna-se Prefeito Municipal do Município de Batalha.

Muito tempo depois, por motivo de força maior, Levy Saavedra abandona tudo no Piauí e retorna ao (Tarauacá) Acre, no ano de 1941 e assume o seringal em Foz do Jordão.

No meado da década de 1950, o seringal é vendido ao governo do Acre na gestão do Coronel Fontenele de Castro, onde na parte de cima das vastas terras do seringal estava localizada Vila Foz do Jordão e hoje Município de Jordão.

Sua vida no Acre sempre foi de muita luta e trabalho, em tempos difíceis do Ex-Território Federal do Acre, época em que tudo faltava, mas buscava sempre algo (honesto) para poder sobreviver com sua família.

Não quis ser político no Acre; não admitia perseguições. Sempre aproveitaram seus bons conhecimentos culturais e educacionais para algumas médias funções: Delegado no interior; Escrivão; Juiz de Paz; Administrador do Hospital de Clínicas; Diretor-Bibliotecário da Biblioteca Pública de Rio Branco; Diretor e Professor de Escolas Públicas em Sena Madureira, Feijó, Tarauacá e em Rio Branco na escola Normal Lourenço Filho, como professor substituto. Lecionava: Geografia, Português, História, OSPB, Matemática, Filosofia, Francês, além, do Espanhol. Encerrou sua carreira de Professor de Nível Médio da União, na Lourenço Filho, mas continuou trabalhando como advogado em Tarauacá até 1971, transferindo-se para Manaus com a família e depois para o Rio de Janeiro. Faleceu em Manaus em 1977.

O professor Levy Cervantes Saavedra era Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Acre, onde se graduou na primeira turma de advogados na década de 1960.  

p.s. Biografia elaborada por Gilberto A. Saavedra, filho de Levy Cervantes Saavedra.


***

CONFISSÃO
Levy Saavedra

Ela estava ajoelhada, casta e pura,
No seu confessionário ao pé de um frade
E, toda candidez, numa postura
Humilde, semelhava a humildade.

Rezou. E o confessor, o bom cura
Disse: – Filha do mundo, se a bondade
Queres ganhar dos altos céus das altura
Conta os pecados teus, que em tua idade

Tens tu por certo. E a virgem tão singela
Lembrar-se das suas culpas quis!... mas ela
Não as achou, que no terrestre dó

Nem pecara uma vez! – Por vida minha
Juro... que diria pois se não tinha
Nem um pecado apenas, nem um só?!...

Jornal A Reforma, 18 de agosto de 1918, Ano I, N.º 15.


NO CEMITÉRIO
Levy Saavedra

Levado por um quer que seja um dia
Ao pés do túm’lo teu, eis-me querida.
Em negro véu já quase era envolvida
Do cemitério a vastidão sombria.

Saudades, dor, tudo de mim fugia!...
E em misteriosa prece retraída,
Minh’alma alheia às coisas desta vida
Falar contigo ali só parecia.

Um sonho apenas, um engano enfim!...
E da ilusão feliz então saindo
Eu parti em prantos exclamando assim –

Essa sorte, Senhor, que vós lhe destes,
Dai-m’a q’eu quero estar com ela ouvindo
Esse gemer profundo dos ciprestes...

Jornal A Reforma, 1 de dezembro de 1919, Ano I, N.º 30

A VIDA
Levy Saavedra
A Francisco Pereira

Misto de treva e luz de escurida e estrelas!
Hinos que sobem aos céus, gemidos e lamentos
A praguejar na voz dos furibundos ventos
Ou no grito infernal de rábidas procelas!

Aqui, sedosa flor de pétalas singelas,
– Imagem do descanso, em paz e sem tormentos;
Alli o mar a rugir em arremessos cruentos,
Levantando no dorso as enfunadas velas!

Cidade a brilhar e cidades em ruínas,
Rio turvo e feroz com frêmitos nas águas:
Lago tranquilo e azul de vagas cristalinas.

A vida é mesmo assim – um contraste perfeito:
Uns, sorrisos na face, a esconder duras mágoas,
Outros, mágoas no olhar e sorrisos no peito!

Jornal A Reforma, 13 de Fevereiro de 1921, Ano IV N.º 42.


CORAÇÃO PRISIONEIRO
Levy Saavedra
Ao Marques Sobrinho

Sozinho aqui sentado horas inteiras vejo
A grandeza sem par deste valente oceano,
E sinto dentro em mim, assim como um desejo,
De ter aquela força, aquele arrojo insano!

Viver-se como eu vivo, um dia, um mês, um ano,
E dois e três e sempre, sofrendo o motejo
Destas fraquezas vis que nenhum ser humano
Ocultaria em si, sem asco, nojo e pejo?

Faz mesmo desejar das vagas sempre bravas
Este arrojo brutal, intrépido, altaneiro,
Pois que as águas do mar não sabem ser escravas!

Mas, como conquistar? Minha alma em vão labora,
Sentindo repulsão contra este cativeiro
E sem poder jamais seu jugo atirar fora.

Jornal A Reforma, 3 de abril de 1921, Ano IV, N.º 149


NA SOLEDADE 
Levy Saavedra
Ao dr. Sansão Gomes

Perdidas afeições que tinha sobre a terra
E vivo sem carinho, ao frio, à chuva, ao vento;
Em vez duma amizade – alívio ao sofrimento –
Encontro a ingratidão que morde e me faz guerra.

Às vezes minha voz, que vai de serra em serra,
Lamenta-se da dor e solta um vão lamento;
Porém a hipocrisia agrava o meu tormento
Com a vil adulação que só veneno encerra.

Em volta não encontro um porto bem seguro
Que abrigue a minha mágoa e a minha dor sem par,
Que possa garantir-me um nítido futuro.

Só vejo minha noiva, ao longe, além mar,
– Excelso coração que é cofre de amor puro –
Pedindo-me que volte ao venturoso lar. 

Muru 

Jornal A Reforma, 10 de julho de 1921, Ano IV, N.º161.
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