domingo, 11 de setembro de 2016

O GAIOLA

Leandro Tocantins (1919-2004)
Andarilho qualificado dos rios. O fruto principal do rio. O senhor absoluto do rio. A chegada do gaiola à cidadezinha dispersa a neblina da distância e do isolamento. Surgem as formas de um ser metálico, navegador de padrão ao pé de cada rio, na linha precisa do rastro da civilização. Belém do Pará e Manaus, as cidades dançam nas imaginações locais, clareiam desejos e esperanças, sabem nos cercar de oferendas e de atrativos. Os gaiolas são naus das cidades, corpo e leme a guiar a alma de Belém e Manaus através de ínvios rios e de cidadezinhas como a nossa, adormecidas no verde.

O gaiola apita antes de chegar. Ainda ninguém o vê, a volta do rio cinge-lhe o vulto, há o barulho das máquinas, decomposto no ar. Súbito, ele aparece, o rio está cheio, a silhueta brota acima das margens. Logo se identifica, o logotipo da empresa pintado na chaminé. Uma estrela, uma cruz, uma letra, um círculo, uma cor específica. Da janela, em lateral do barracão, vejo-o atracar no barranco da cidadezinha. Rolos de fumaça galgam a chaminé e atingem rampas de nuvens baixas. Acredito, pio, o que me dizem, as fumaças vão para o céu, viram nuvens, elas se purificam em flocos de algodão, os santos enxugam com elas as lágrimas de ver tantos pecados na Terra.

Ter-se um gaiola no porto, estar-se próximo ao espírito civilizado, ao corpo das relíquias materiais. Todos consomem um ambiente de promessas, de renovação, que o gaiola é seu pastor, a flauta de sons maviosos. Traz o sortido de coisas para agradar sonhos e necessidades. Artigos de uso e de consumo. Imprevisíveis, belos, sofisticados. Abarrotam as lojas da ponte.

Visto o gaiola, na companhia de meu Pai. Aquilo que vejo e ouço é sopro do meu grande anseio de conhecer Manaus e Belém do Pará. Enquanto meu Pai trata de negócios, escapo, através dos conveses. Peregrinação de alvoroços, o espírito exultante, olhos feitos para captar e fixar. O dispenseiro de bordo me oferece biscoitos e bombons da Fábrica Palmeira, de Belém do Pará, matéria e cor de vida que aclamo com o delicioso sabor do fruto interdito.

O deslumbramento das engrenagens complexas do navio, o maquinista me apontando a caldeira enorme, de entranhas vermelhas, a dança diabólica do fogo que a lenha alimenta, as máquinas de propulsão das duas hélices, os clarões brancos do vapor misturado com pingos d’água fervente, a desomposição em cheiro indefinível, um assobio monótono, monocórdio. A retórica dos engenhos parados, na minha frente, sobrepõe-se à razão. Só o motor da luz elétrica, matraqueando sem espalhafatos um falar mecânico, ininterrupto, abafado. O espaço conciso do gaiola torna-se, para mim, o centro de gravidade do mundo. Ele não cumpre a dinâmica dos espaços, não demarca as cidades que ardo em desejo de conhecer? O gaiola implanta-me horizontes oferecidos, tácitas experiências, repousa sobre a imaginação justaposta ao maravilhoso.

Havia, ainda, outro refúgio dourado para atear flama a minha alma. A mala remetida pela nossa família, em Belém do Pará. Minha Mãe, de tempos em tempos, fazia encomendas a minha avó de roupas e de objetos de uso especial. A mala de Belém, uma arca de tesouro. Queria adivinhá-la, que roupas, que presentes me serão reservados? A contagem regressiva dos dias, para a vinda do gaiola, a frequência da fantasia. Afinal, aberta a mala, o primeiro sopro de cheiro do Pará, fina exalação dos substratos, ainda desconhecidos. Pouco a pouco, descobriam-se as cores, as formas, os destinatários das peças arrumadas na mala. Uma cerimônia assistida pela família, com exclamações e comentários. Ritual exclusivo de minha Mãe, abrir a mala, desvendar os segredos daquela carga suave. A graça, o prazer alegórico, o permanente odor do cheiro de papel, especialidade da alquimia florística paraense, transcendiam o momento. Liturgia, acenos, fragrâncias que se ligaram, para sempre, à mala trazida pelo gaiola.
Quando o navio parte, vislumbro-o nas lentas manobras, até que a proa, antes postada para cima, torneie o rumo, encontre o posicionamento certo, domínio de rio que lhe rasga o caminho de volta às cidades, os porões cheios de borracha. Formidável vulto. A chaminé despoja-se de fumos escuros da caldeira de chamas voláteis. Os apitos de despedida, longos de saudade, abrem os ares com vapor branco. O mesmo vapor assistindo a rotação das hélices, mandíbulas corroedoras de água para a energia e a ação do movimento. Faz-se um grande vazio. Na paisagem e dentro de mim.

TOCANTINS, Leandro. Os olhos inocentes. Rio de Janeiro: Philobiblion, 1984. p.126-128
- Imagens:  "Álbum do Rio Acre: 1906-1907", de Emílio Falcão.
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