domingo, 25 de setembro de 2016

MANHAS E MANIAS DE NHANHÃ

Leila Jalul


Leila Jalul
Tudo em volta de mim são quinquilharias. Plantas, bibelôs, toalhinhas de ‘tricots’ e ‘crochets’ por mim tecidas e espalhadas pelas mesinhas e bancadas. Velhos retratos, xícaras chinesas, bules de chá indianos e outros enfeites mais. Gostaria, ainda é meu sonho, ter bonecas e bichos de pelúcia, mesmo que não andassem e nem falassem como aqueles que se encontram aos borbotões em Cobija, capital do Pando, na Bolívia.

Essas eram as manhas e manias da velha Nhanhã. No seu sobrado da avenida aterrada para embelezar e facilitar o trânsito da cidade ficava ela apenas na parte superior, com as janelas abertas para ver o movimento de pedestres, do velho Cupa (ônibus) do Sr. Ribeiro que subia e descia a Av. Getúlio Vargas, sujeito a gracejos tipo o cupa sobe, o cupa desce, alguns jeeps e camionetas rurais Willys 4x4 (tração nas quatro rodas), além das carroças de bois e dos trotadores de cavalos.

Os degenerados filhos de Eva, trombadinhas dos antigamente, fosse dia, fosse noite, ali não passavam sem antes recolher pedras para jogar no teto de zinco quente do casarão da gata Nhanhã. Por maldade, puta maldade!

Ela nem se importava. Importava-se, sim, ter a casa arrumada, os bibelôs lustrados e as toalhinhas engomadas. Importava-se, isso sim, em ‘ponhar’ a mesa do café, almoço e jantar para ela e seu falecido esposo já com a ossada branca e triturada. Eram preciosas as horas das refeições para que a conversa rolasse solta. A louça não era de porcelana. Vinha de Alcobaça, das terras do além mar. Legítima faiança, da que craquela com o passar dos anos. Portuguesa, ora, ora, pois, pois! Os bonecos e bonecas eram de pano. Alguns nem cabeça tinham. Mas eras bonecos e bonecas. É o que valia!

Nhanhã não era esquisita. Nhanhã era exótica! Não comia carne vermelha. Nem ela e nem seu querido e falecido esposo. As proteínas, vitaminas e sais minerais vinham das galinhas, ovos, frutas e verduras do seu quintal. Tinha mão boa para plantas e criação. Os ovos das galinhas de Nhanhã tinham duas gemas, carajo!

No quintal da Nhanhã os sabiás se ‘atrepavam’, gozavam e cantavam nos cajueiros de cajus brancos, amarelos e vermelhos. As ingás de metro tinham dois metros.

A velha mina d’água atijolada lhe trazia renda adicional. Nhanhã era rica e nunca negou acesso ao Edmundo do Papoco e ao Moacir Pescocinho, que, de cambões nos ombros, abasteciam as casas dos barões da borracha e as dos coronéis de barranco. Dinheiro não paga a boa água.

Estou quase chegando a ser Nhanhã. Elvira era seu nome. Quero estar e ser tal qual ela. À exceção de ‘ponhar’ a mesa para os meus esposos. É que meus mortos não falam. 

Estou quase exótica! Absorvendo as manhas e manias de Nhanhã! Um dia chego lá. Ou não!
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