quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O CARIRI QUE NOS HABITA

Eliana Ferreira de Castela 


“Só deixo o meu Cariri,
no último pau de arara,
Enquanto a minha vaquinha,
Tiver o couro e o osso,
e puder com o chocalho,
Pendurado no pescoço,
Eu vou ficando por aqui...”

            A música de, José Guimarães, Corumba e Venâncio, que foi cantada por Luiz Gonzaga e Fagner, entre outros grandes cantores da música nordestina, que trago um pequeno trecho, abrindo esse capítulo, faz parte do meu imaginário infantil. A música deu asas ao pensamento, que ficava como dunas, ao sabor do vento, fazendo e desfazendo imagens sobre o Nordeste brasileiro, especialmente o Ceará, antes de eu conhecer aquele pedaço do Brasil.
Assim como a música, os livros, O Quinze, de Raquel de Queiroz e Vidas Secas, de Graciliano Ramos, colaboraram com o sentimento de carinho com aquela região bonita e de sofrimento humano. É a arte e a literatura dando beleza na representação do sofrimento humano. Tais obras, a qualquer leitor, mesmo aquele que nunca tenha pisado o sertão, faz sentir a aridez do ambiente, o sofrimento e apego dos sertanejos ao lugar, bem como, desperta curiosidade de desvendar quais são os motivos que fazem o sertanejo ali permanecer em meio a tanto sofrimento.
            Completando a lista dos escritores que construíram o meu imaginário sobre o sertão nordestino, destaco o poeta cearense, Fernando de Castela, que por muitos dias de nossa infância - minha e de meus irmãos - ilustrou com seus poemas e causos, a vida das famílias, na peleja com a seca, a roça que não vinga e o gado que perece. Assim como as histórias das longas caminhadas pela caatinga, de homens sem esperança, com seus filhos desfigurados pela fome, de mulheres que têm os rostos tão áridos, quanto as gretas de concreção que se formam no chão daquelas terras. É a chuva, um dos motes da poesia matuta, de Fernando de Castela, que nos faz entender um pouquinho daquele lugar:

“…Ta chuvendo em minha terra!
Chove no meu Ceará...
Meus irmão arretirante
qui fugiro do sertão
tão vortando em arvoroço.
Festa de viola e sanfona
dentro dos seus coração.
Tá chuvendo em minha terra,
tá chuvendo no sertão…”

 As pessoas resistem à espera da chuva, enganam-se com o desejo de uma nova aurora, partem, mas afirmam que retornarão para casa se a chuva cair... Quimeras, apenas quimeras. Elas não deixam o seu cantinho, enquanto há um fio de esperança. Mas por que é assim? Essa intrigante pergunta que muitos devem fazer e que eu me fiz sempre, foi encontrando respostas ao longo da vida e de forma mais aprofundada, quando visitei o Cariri. Mas nem tudo tem resposta e outras perguntas surgem.
Aquele lugar árido, que a plantação não vinga, que a criação morre, que as crianças choram de fome, tem o mesmo encanto, riqueza e beleza, para o sertanejo, assim como tem para as pessoas que nasceram e vivem, num lugar de fartura. A nossa aldeia, seja no Cariri, seja na Amazônia ou no litoral do Ceará, é o lugar que alimenta os sonhos e que convida os filhos a ficarem. Para quem é do Cariri, é lá que se adquire o sentido de pertencimento e de identidade com aquele todo, seja o prazer ou a dor. São estes alguns dos fatores, não determinantes, mas hierarquicamente superiores, para a decisão de não partir.
Ao longo da viagem, outros momentos e questionamentos fortaleceram a compreensão de pertencimentos, como aconteceu quando alguém me perguntou - o que tem de interessante no Acre para se visitar? Qual é o atrativo turístico que convida os visitantes? Parei por um instante, depois de pensar na família e nas pessoas amigas, rapidamente o meu pensamento percorreu florestas, que tantas vezes admirei e que me inspiraram a escrever poemas, igarapés que me refrescaram nas horas de lazer, de tantos fins de semanas, o rio da minha aldeia, hoje assoreado e poluído, mas foi dele, antes de tanta poluição, que emergiram ideias, para o trabalho e para o lazer.
Continuei listando mentalmente, as incontáveis horas de banhos no rio, alheia à preocupação da minha mãe e dos riscos prováveis, movida pela ânsia de brincar, juntamente com outras crianças, as trocas, pois as brincadeiras das crianças dão sentido ao rio. As praias do centro da cidade, hoje não são mais apropriadas ao banho, mas foi nelas que eu brinquei, antes de serem descoloridas pelos esgotos. Quando olho para as praias hoje, vejo o passado e idealizo o futuro.
A infinidade de sentidos vai além do rio, está também nas comidas, nas praças, ruas… Tudo do lugar, é a referência e parâmetro, até mesmo para me sentir em casa, em qualquer outro lugar do mundo, o que pode parecer contraditório. É por isso, que o nordestino só deixa o seu “Cariri no último pau de arara”.
A região do Cariri, assim como muitas outras por onde passamos, tem denominação de origem indígena. O povo Kariri ou Quiriri, embora tenha resistido e lutado contra os invasores, foi escravizado, roubado e morto. Seus territórios foram ocupados pelas cidades, atualmente com várias denominações indígenas.  
A região do Cariri abriga um importante sítio arqueológico, onde se encontra soterrada, grande parte da história dos Kariri, juntamente com a cerâmica e outros de seus utensílios. Muitas dessas peças de cerâmica, extraídas do sítio arqueológico estão expostas nos centros culturais, constituindo importante atrativo turístico. Quanta contradição!
O Cariri foi o sítio por nós escolhido para sentir um pouco da vida do sertão do Ceará. Mas a região abrange também, alguns municípios de Pernambuco, Paraíba e Piauí. Dos nove municípios do Ceará que integram a Região Metropolitana do Cariri, visitamos apenas quatro cidades. O Crato foi o local escolhido para pouso, face à centralidade, em relação às demais cidades visitadas - Juazeiro do Norte, Nova Olinda e Santana do Cariri - onde fatos interessantes ilustraram nossos dias, justificando o registro.
Figura 16 - Mapa da Região do Cariri, Ceará
   Fonte: Pesquisa Imagens Google, 2016
Para andar no rastro dos antepassados, que vieram do Ceará para o Acre, foi como se eu tivesse ido à “escavação arqueológica” sem instrumentos adequados, por não dispor de referências, na procura de vestígios que identificassem minhas ligações com eles, foi algo quixotesco.  Não elaborei nenhum projeto de pesquisa, nem sequer um roteiro para isso, tudo foi feito no campo das elucubrações. O instrumento investigativo, que considerei uma brincadeira, foi a percepção, os sentidos aguçados, para perceber qualquer coisa que remetesse ao que ouvi quando criança. Comecei então, a estabelecer uma relação das frutas com as pessoas e os fatos.
O meu pai dizia que no quintal da sua casa, quando ele era criança tinha frutas que ele só poderia comer se “roubasse” e citava as frutas. Já a minha mãe contava que ela e os seus irmãos brincavam com as melancias, na praia do rio Iaco, jogando uma contra outra para parti-la, comer e até desperdiçar. Minha mãe viveu em grande fartura alimentar, sempre deu destaque a isso, diferente da vida do meu pai, que sempre deu destaque a fome.
Seriguela, sapoti, umbu, umbu-cajá, tamarindo… É como se eu quisesse ao comer a fruta, fazer uma viagem ao passado através do paladar, desvendar os mistérios e destruir os hiatos deixados pelo tempo, revelando histórias não contadas. Tudo ao sabor das frutas, como as beberagens e o rapé dos pajés, trazer à luz, o que é preciso saber para a vida.
Mas para que isso tudo?  Talvez porque a busca pela ancestralidade seja a tentativa de conhecer a nós próprios. Porém o caminho da busca ancestral, às vezes é temeroso de ser inútil, de continuar incompreendido, de poder nos levar a um passado mais profundo, no momento que não encontramos as respostas. O melhor é desfazer às dúvidas, o caminho do conhecimento é hipotético. As reflexões surgiram quando cheguei ao Ceará, mas eu apenas segui, elas foram aprofundadas ao escrever.


Leiam aqui as crônicas anteriores:
- Primeira: O início é no Cai N’Água
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