quinta-feira, 1 de setembro de 2016

ACRE: O MASSACRE DOS POVOS INDÍGENAS SEGUNDO O RELATÓRIO DE JOÃO ALBERTO MASÔ APRESENTADO AO MINISTÉRIO DA AGRICULTURA EM 1913

“Delegacia do Ministério da Agricultura no Território do Acre: Relatórios do Delegado, Engenheiro João Alberto Masô, 1910, 1911 e 1912”


Agora é-me oportuno passar às vossas mãos uma página simples da história do aborígene em nosso meio.

Frutos de sacrifícios sazonados pelas observações de três anos nestas florestas virgens, quando pelo amor à natureza amazônica, resignei todo o conforto social, esta página singela da vida desta gente merecerá de V. Ex.ª as atenções e cuidados necessários afim de minorar o sacrifício dessas criaturas desprezadas no seio virgem destas matas, com a firme crença de ser um dia útil à carinhosa pátria brasileira.

E é só por este meio, embrenhando-se no desconhecido dessa região, vendo e ouvindo esses infelizes, vítimas da miséria e da sua própria inconsciência que se pode adquirir conhecimentos precisos para conjurar-lhes os sofrimentos.

Os atos desumanos que adiante descrevo recaem sobre todos os núcleos indígenas do Brasil, parecendo-me que a civilização, perdendo a sua característica moralizadora, quis firmar a catequese pelos meios mais reprováveis.

Capa do relátório de 109 páginas de J. A. Masô.
Principiemos pelo Departamento do Alto Juruá.

Nas cabeceiras dos rios Mineruá e Ipixuna existem índios da grande tribo dos Cachináoas, domesticados alguns e outros completamente selvagens. No Moa vivia a importante tribo dos Náuas, dizimados por moléstias de caráter contagioso.

As cabeceiras deste rio são de rochedos alcantilados, os quais formam o planalto do divortium acquarum dos afluentes do Juruá com os do Ucayale.

No Paraná dos Mouras também existiam indígenas Náuas, mas foram acossados para as cabeceiras com grandes perdas. No rio Chiroán há ainda muitos índios, protegidos pelos seringueiros do brasileiro Contreiras.

Em 1899, perto de 400 índios do rio Gregório e da tribo dos Ajubins foram cruelmente massacrados pelo peruano Carlos Scharff, secundado por um seu conterrâneo Eufrain Ruiz e este, porque fosse censurado por quatro brasileiros, mandou-os meter a ferros na lancha denominada Brasil, de sua propriedade, e lá morreram dos bárbaros castigos infligidos. Desse fato talvez V. Ex.ª se recorde, pois se passou quando o Governo Federal enviou o aviso Juruema, sob o comando do capitão Hess.

Os Corinas, habitantes do Alto Eirú, igualmente sofreram graves injustiças, sendo-lhes, porém, favorável a sorte das armas.

Já em 1905 várias hordas da família dos Capanáhuas surgiram nos seringais Santa Luzia e Pacujá, dispostos à luta pelas armas. Foram, porém, coroados de êxito os esforços pacíficos do benemérito cearense Angelo Ferreira, não somente apaziguando-os, mas também encetando fundas relações de sociabilidade, convidando-os ao trabalho, explorando matas, abrindo varadouros e fazendo grandes cultivados. Angelo Ferreira tornou-se em pouco tempo o chefe supremo dos Ajubins, Cachináuas, Corinas e Catuquinas e com eles abriu a grande estrada que liga Cocamera ao Cruzeiro do Sul, na extensão de 244 quilômetros, trabalho este que o engenheiro Bueno de Andrade aproveitou com pequenas variantes.

Residia esse heroico lutador no lugar chamado Lupuna, entre os rios Gregório e Tarauacá. Mas este chefe audaz e benemérito, apoiado pelas hordas aborígenes que o adoravam, teve a sua morte trágica em um assassinato bárbaro, perpetrado por gente que se dizia civilizada; e assim desapareceu um vulto que se salientou pelos reais benefícios prestados à sua terra.

Também no rio Jaminara viviam milhares de índios da tribo deste nome, os quais foram todos trucidados pelo já falado peruano Carlos Scharff. Igual sorte tiveram os índios do Paraná do Ouro.

Nas cabeceiras do rio Acurana prospera a tribo dos Corinas do protetor Angelo Ferreira.

Os rios Humaitá e Hoyaussú são povoados em todo o seu percurso pelos índios Iboyaussú. São eles os mais originais antropófagos. Por preceito de sua religião comem os parentes que lhes morrem; o cadáver é fervido em uma grande panela de barro e logo o tuxaua preside o banquete; os cadáveres dos inimigos são queimados e os dos demais conservados.

No rio Gregório e seu afluente Javari, têm havido contra os índios sangrentos ataques que não ficaram sem represália e sem desforra.

Todas as cabeceiras dos principais rios e de seus afluentes neste Departamento, são habitadas por índios, uns mansos e outros bravos, em número aproximado de 20.000.

Passemos agora ao Departamento do Alto Purus, onde também se fizeram sentir as perseguições e o massacre dos infelizes aborígenes. Nas margens do rio Yaco, entre os seringais Guanabara e Tabatinga, viviam diversas famílias de índios pertencentes à grande tribo dos Catianas. Nas imediações das malocas dessa gente, moravam além de outros, os brasileiros Vicente Ferreira, Martins Ferreira, Joaquim Jorge, Liberato, Francisco Luiz, José de Paiva, e Alcibiades, os quais, chefiados por João Alves Vieira, organizaram uma batida contra os ditos Catianas. De fato, de Agosto para Setembro de 1901, consumaram este crime, deixando espalhados nas margens do Yaco dezenas de cadáveres.

Algumas mulheres que lograram salvar-se pela fuga, encontrei-as em 1907, no interior do seringal Tabatinga, onde vivem sob o amparo de um velho cearense chamado Carvalho; com essas infelizes, Carvalho conseguiu formar um belo cultivado, tão raro naquelas paragens.

Em 1902 o mesmo João Alves Vieira, perseguiu outra tribo dos Canamaris, também moradores na margem direita do rio Yaco.

João Alves Vieira mora atualmente no seu seringal Olinda, no rio Yaco, perto do teatro destes acontecimentos; é coronel da Guarda Nacional.

Eufrain Ruiz vive nas cabeceiras do rio Acre, no lugar denominado Porto Ancon, já em território peruano, perto da linha divisória ultimamente convencionada pelo Peru e Bolívia.

Os fatos revoltantes que se deram no rio Purus no ano de 1903, entre os peruanos e brasileiros, perto da foz do Chandless, não os recordei aqui por constituírem uma página negra da história desta terra. No entanto não deixarei de citar mais uma vez o nome de Carlos Scharff, como um dos protagonistas criminosos desta tragédia.

O coronel peruano Buenany, da Comissão Mista, ao chegar ao lugar chamado Funil, juntou a ossada de seus patrícios caídos em combate, colocou sobre a sepultura uma folha de zinco com a seguinte inscrição: “Aqui reposan peruanos fusilados y quemados por bandoleiros brasileiros”.

Euclides da Cunha, indignado, mandou inutilizar o epitáfio. Mais tarde Carlos Scharff demandou as cabeceiras do Madre de Dios, afim de catequisar os índios de Las Piedras, onde foi por estes trucidado, bem como os membros da sua família.

Neste Departamento ainda se encontram malocas habitadas por índios Jamamadis, Canamaris, Catianas e Inamares.

No Departamento do Alto Acre, não constam atos vergonhosos desta ordem; ali o índio tem evoluído pacificamente sem o menor constrangimento.

Lá pelas cabeceiras do rio Acre encontrei os Guarayos, os Maritanaris e os Catianas.

Além destes fatos repugnantes ao grau de civilização em que nos achamos, outros há em idênticas circunstâncias, que se vão desenrolando alternativamente. Já se vê que as vítimas não têm sido somente os explorados e infelizes índios, mas igualmente os retirantes e os mestiços regionais.

É bem certo que nem sempre a ação do Governo se pode exercer plenamente, pois as medidas de lá emanadas, onde se pensa que a justiça e o direito são praticados em todos os recantos do solo pátrio, não têm cumprimento, como a experiência têm demonstrado.

Tenho a certeza que a minha descrição, franca e sem receios, me acarretará ódios, mas nada temo, porque falo a verdade e cumpro o meu dever. A exemplo disto, lembro a V. Ex.ª as medidas a tal respeito determinadas no nosso ofício sobre a proteção aos índios e retirantes, que as tenho no posto em execução; mas não deixo de temer que elas sejam enfraquecidas pela política local. 


MASÔ, João Alberto. Delegacia do Ministério da Agricultura no Território do Acre: Relatórios do Delegado, Engenheiro João Alberto Masô, 1910, 1911 e 1912. Rio de Janeiro: sem editora, 1913. p.7-10

NOTA: A parte do relatório de Masô sobre os povos indígenas se intitula “Aborígenes”. O texto foi atualizado de acordo com a grafia atual, permanecendo ipsis litteris os nomes próprios. Todavia, não houve qualquer alteração no corpo do texto.

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