quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

COMO A TRAIÇÃO CHEGOU À RÚSSIA

Rainer Maria Rilke é um dos poetas mais importantes de língua alemã do século XX. Quando contava 22 anos Rilke fez duas viagens que marcaram a sua juventude e a sua obra: a primeira, à Itália e a outra, à Rússia. Nessas duas viagens, em suas leituras, estudos e conversas o poeta colecionou histórias, que depois reuniu num livro belíssimo, “Histórias do Bom Deus”, em que deixa transparecer um sentido poético e livre de Deus e da religiosidade. Do livro, seleciono um excerto do conto “Como a traição chegou à Rússia”, uma das mais belas histórias do livro, a revelar a genialidade de Rilke.

*

(...) Enconstei na janela, e o paralítico fechou os olhos, como lhe agradava fazer quando uma história começava.

“O czar Ivan, o terrível, queria impor um tributo aos príncipes vizinhos, ameaçando uma grande guerra caso não mandassem ouro para Moscou, para a cidade branca. Os príncipes, depois que se aconselharam, responderam como uma única pessoa: ‘Nós lhe propomos três enigmas. Venha ao Oriente no dia em que tivermos determinado, até a Pedra Branca onde estaremos reunidos, e nos diga as três soluções. Se estiverem certas, entregaremos os doze tonéis de ouro que exige de nós’. A princípio, o czar Ivan Vassiljevitch parou para refletir, mas era pertubado pelos muitos sinos de Moscou, sua cidade branca. Então convocou os seus doutores e conselheiros, ordenando que levassem para a Praça Vermelha (exatamente o lugar onde construíram a igreja para Vassilij, o Nu) cada um que não fosse capaz de responder as perguntas, e que os decapitassem. Nesta atividade o tepo passou tão depressa que, de repente, ele se achou em viagem para o Oriente, até a Pedra Branca, onde os príncipes aguardavam. Não sabia a resposta para nenhuma das três perguntas, mas a cavalgada era longa, havendo sempre a possibilidade de encontrar um sábio; pois naquela época muitos sábios estavam e fuga, na estrada, já que todos os reis tinham o hábito de mandar cortar-lhes a cabeça quando não pareciam suficientemente sábios. De todo modo, nenhum desses homens mostrou o rosto, mas numa manhã o czar viu um velho camponês barbudo trabalhando na construção de uma igreja. Já conseguira chegar ao telhado, onde encaixava as pequenas ripas de madeira. Porém, causava estranhamento o fato de o velho camponês descer toda vez do alto da igreja para apanhar uma única pequena ripa, entre as que se encontravam lá embaixo cortadas, em vez de carregar várias juntas em seu longo cafetã. Assim, precisava subir e descer a escada o tempo todo, sendo impossível sequer imaginar que um dia chegasse a levar desta maneira todas as centenas de ripas para seus lugares. Por isso o czar ficou impaciente: ‘Cabeça dura’, gritou (muitas vezes chamam assim os camponeses na Rússia), você deveria carregar logo um monte da sua madeira e então ir agachado até a igreja, isso seria muito mais simples’. O camponês, que naquele momento se encontrva no chão, permaneceu parado, pôs a mão sobre os olhos e respondeu: ‘Deixe comigo, czar Ivan Vassiljevitch, cada um entende melhor do seu ofício; contudo, como você já está passando por aqui, queria dizer-lhe a solução dos três enigmas que vai precisar saber na Pedra Branca, no Oriente, não muito longe’. E inculcou-lhe as três respostas em sequência. O czar quase não pôde se restabelecer da surpresa para agradecer. ‘O que devo dar como recompensa?’, perguntou afinal. ‘Nada’, fez o camponês, pegando uma ripa e querendo subir a escada. ‘Pare’, ordenou o czar, ‘não pode ser assim, tem que desejar algo’. ‘Então, paizinho, já que você ordena, dê um dos doze tonéis de ouro que vai receber dos príncipes no Oriente’. ‘Bem’, concordou o czar. ‘Dou um tonel de ouro’. Então cavalgou com pressa dali, para não esquecer as soluções.

Mais tarde, quando o czar tinha chegado do Oriente com os doze tonéis, fechou-se em Moscou, no seu palácio, no meio do Hremlin de cinco portões, e despejou um tonel após o outro sobre o pavimento brilhante do salão, de modo que se formou uma verdadeira montanha de ouro, projetando uma grande sombra negra sobre o chão. Por esquecimento, o czar esvaziou também o décimo segundo tonel. Quis enchê-lo novamente, mas dava-lhe pena precisa retirar tanto ouro do magnífico monte. De noite ele desceu para o pátio, preencheu três quartos do tonel com areia fina, retornou silenciosamente para o palácio, pôs ouro sobre a areia e, na manhã seguinte, enviou o tonel por um mensageiro para a região da vasta Rússia onde o velho camponês construía sua igreja. Quando este viu o mensageiro chegar, desceu do telhado, que ainda estava longe de ficar pronto, e exclamou: ‘Você não precisa se aproximar mais, meu amigo, viaje de volta com o seu tonel que contém três quarto de areia e uma escassa quarta parte de ouro; não tenho necessidade dele. Diga ao seu senhor que até agora não tinha havido nenhuma traição na Rússia. Porém, ele próprio será o culpado quando notar que não pode confiar em ninguém; pois agora mostrou como se trai, e de século em século o seu exemplo encontrará muitos imitadores na Rússia. Não preciso o ouro, posso viver sem ouro. Não esperava ouro, mas verdade e justiça. Contudo ele me enganou. Diga isso ao seu senhor, ao terrível czar Ivan Vassiljevitch, que se senta na sua cidade branca de moscou com sua má consciência e uma vestimenta dourada’.

Após um momento de cavalgada, o mensageiro voltou-se novamente: camponês e sua igreja tinham desaparecidos. E as ripas empilhadas também já não estavam lá, era tudo campo vazio e plano. Então o homem precipitou-se, assustado, para Moscou, pôs-se diante do czar, sem fôlego, e contou-lhe, de maneira bastante incompreensível, o que ocorrera, e que o pretenso camponês não era ninguém menos do que o próprio Deus.”

***

RILKE, Rainer Maria. Histórias do Bom Deus. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998. (p.27-30)

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

IR À FONTE

Entardecer seringal Pacujá - Rio Tarauacá
Estou a fazer seis anos fora do Acre. A cada ano que volto minha alma se renova. Ela então renasce das barrancas como a fênix das cinzas. Sou menino de seringal aprendendo a olhar o mundo, vasto mundo, como diria Drummond, mas não sirvo para rima. Remar é o que sabe um filho dos rios. Remar para viver. Viver para amar. Pois afinal, amar é como um rio, raso, profundo, belo, atraente, porém, a esconder mistérios, perigos. Os rios me fizeram o que sou. Pariu meus pais. Construiu uma história. Fez um povo.

E do alto, quando o pássaro metálico atravessa os céus, o que se ver são os rios, abrindo caminho por entre o tapete verde, serpenteando, a encenar, no anfiteatro amazônico, o balé cósmico dos seres.

Pois bem, cheguei a Rio Branco dia 08 de Dezembro, num voo de BH, com escala em Porto Velho. Nossa capital está uma cidade bonita. É verdade que se tem muito a fazer, a melhorar. Mas são visíveis os seus avanços, a estética tem sido um diferencial. Como não se encantar com o centro histórico, as bibliotecas, o Calçadão da Gameleira...

Às margens do Rio Acre
um aperto sentir em meu peito
e, por um momento, juro que vi,
os navios gaiolas a atracar
uma multidão a acenar
outras a chorar...
vi balsas de borracha
vi seringueiros,
vi os catraieiros pra lá e pra cá...
Levantei,
suspirei,
e comecei a chorar...

Invisto boas horas nas bibliotecas, estas, além de belas, têm um acervo razoável. A Biblioteca da Floresta é coisa linda, moderna. Pena que o acervo ainda é pequeno. Ao contrário da Biblioteca Pública Estadual, que além de concentrar beleza e modernidade, possui um bom acervo, sobretudo, na minha área de paixão, as letras acreanas. Lá saboreei versos de Robélia Souza, as crônicas de Florentina Esteves... e passeei pelos nossos poetas, romancistas... numa viagem encantadora.
Biblioteca da Floresta Ministra Marina Silva - Rio Branco
Biblioteca Pública Estadual - Rio Branco
Museu da Borracha
Rio Branco
No Museu da Borracha, passei um dia inteiro debruçado sobre os jornais antigos de Tarauacá: O Departamento, Jornal Official, O Estado. Quanta coisa, meu Deus!, e tão pouco tempo. Tinha impressão que estava tocando a história, conversando com um amigo mais velho. Aquelas páginas estavam impregnadas de nostalgia. E de lá sai, amando ainda mais a história tarauacaense.

Para chegar a Tarauacá tomei um voo com destino a Cruzeiro do Sul, e depois um ônibus. Tarauacá deveria está uma das mais belas cidades do Acre. Porém, sofre, administrativamente, nesses últimos tempos. Mesmo assim, continua a terra de meu coração, a terra da esperança, a terra de gente forte. Estive no seringal Pacujá, no Rio Tarauacá, onde meus pais possuem uma pequena propriedade. Bons dias regalados a ingá de metro, pupunha, manga, graviola, pamonha. Sem contar as pescarias e outras cositas más.
Biblioteca Pública Estadual - Tarauacá
Fui à Biblioteca Pública. Haviam finalmente realizada uma reforma. Já que na última vez em que estive visitando-a estava em condições precárias (vede post). Possui um acervo razoável para a cidade. É verdade que boa parte da população, infelizmente, ainda não possui o hábito da leitura. Estive umas três horas seguidas e não vi entrar uma pessoa, sequer para empréstimo, pesquisa ou devolução. Era um período de férias, vou entender como justificativa.

Dia 27 de Janeiro retornei a BH. E comigo trouxe os versos do prof. Freitas em seus “Brados de Vida”, e o comentado romance do episódio do Tauari, “O Santo de Deus”, do mais novo imortal da Academia Acreana, Moisés Diniz. Porém, ainda espero receber do Moisés essa obra autografada. Estou a aguardar. Meu amigo Accioly me presenteou com o magnífico CD “Visões” de Rogério Craveiro. Um trabalho belíssimo e de alta qualidade, de um dos mais respeitados músicos tarauacaenses.

Assim vivi esses dias, na certeza de que a distância separa, mas o coração une. Volto fortalecido, renovado. Sou bendito! Deus me deu uma alma acreana...

Não quero ouro nem prata
me basta ser útil a humanidade
e saber servir
e saber amar
e saber perdoar...
Deus já recompensou
este filho da raça humana
dando-me uma alma acreana!

domingo, 30 de janeiro de 2011

FÁBULA JURUAENSE

JAIRO NOLASCO*

Fonte: http://www.viafanzine.jor.br/
Conta a lenda que outrora, um dito cidadão respeitável que não ganha quatro mil cruzeiros por mês, morador da zona rural de nossa cidadela do interior acreano, sentiu-se mal. Ele é um desses bravos, que não dão moleza ao corpo e não deixam o roçado à mercê da sorte por qualquer febrezinha de 40 graus, não senhor! Nunca capinou sentado e na sombra. Não tinha nada de Macunaíma, o nosso personagem.

Nunca antes achou necessária a consulta a um médico. Para quê, se na mata tinha todo tipo de remédio que precisava? Sua nêga companheira fazia cada chazinho milagroso e escalda-pés capaz de espantar todo tipo de brunhuras, tanto do corpo quanto da alma. "_ O nosso dotô, aqui veste verde, sêo moço", gabava-se aos conhecidos.

Porém, dessa feita por mais que tomasse o chá do Cajiru, o desconforto não passava. Resolveu depois de meses de xêpas que deveria finalmente recorrer à medicina alternativa. Deveria, por fim, encarar a Cidade dos Homens. Mundo-ético de gostos finos e duvidosos que lhe causava ojeriza. Como não sabia dizer essa palavra, dizia que "tinha era nojo". Não das pessoas e da higiene delas, mas dos trejeitos afrescalhados e das meias palavras ditas sem valor algum.

Resolveu, para encurtar caminho, ouvir conselho do seu primo que já havia se consultado antes na cidade e detinha, portanto, certa experiência no assunto. Ouviu em tom solene "que por lei deveria primeiro procurar a porta de entrada do Sistema Único de Saúde".

- E que diabo de porta é essa hômi?, interrompeu.

- É um posto de saúde, primo.

Dito e feito, ao chegar à cidade procurou a tal porta. Algumas estavam fechadas, outras estavam aberta mas faltava "o dotor". Até que finalmente, depois de andar léguas, achou uma porta aberta com o "dotor" dentro. Como não havia mais vaga para consulta naquele dia, foi convencido a voltar no dia seguinte. No outro dia, esperou por mais de três horas na fila. Agora chegara a sua vez.

O "dotor", muito atencioso, sem lhe olhar na cara pergunta o que ele sente. Responde : "_ sinto uma dorzinha aqui", aponta para a região do púbis. Sem continuar olhando para sua cara, o médico deduz que seja verme e lhe receita umas pílulas para dor de cabeça.

Como a sua dor, obviamente, não passava, retorna depois de uma semana ao mesmo posto. O médico lhe receita agora remédio para verme, para curar a dor de cabeça que ele sente na região escrotal. Desconfiado, ele procura o diretor do posto. O gerente - humanizado - confessa que ali, ele não teria solução :

_ O senhor deve procurar um especialista.Vá imediatamente ao Hospital e lá o senhor vai conseguir. Vou lhe dá o nome de uma pessoa nossa lá que consegue uma consulta mais rápida para o senhor, sem que entre na fila. Só não esqueça na próxima eleição quem está lhe ajudando, viu?

Chegando ao hospital, viu ser esse bonito, grande, imponente e bem limpo. Concluiu que ali estava a solução para o seu mal. E foi procurar o nome indicado pelo gerente do posto. E se sentiu importante, visto que desta feita, não enfrentou fila. Pelo contrário, viu-se superior àqueles coitados que avistou na sala de triagem, sofrendo, a espera do atendimento. Já sabia até o nome do santo milagroso para votar no dia 03 de outubro.

No consultório, o médico o olhou de cima a baixo e perguntou o que ele sentia. Começou a contar sua sina e foi logo percebendo que o médico começou a ficar impaciente, a olhar para o relógio. Repentinamente foi interrompido. O médico lhe receitou pílulas para dor de cabeça e vermes. Disse-lho que não podia ajudar e que ele deveria procurar um especialista na área. Explicou que só entendia de pulmão. Ou seja, ele não entendia nada sobre doenças nos escrotos, ou doenças nos bagos, dito no popular. "_ Daqui a três meses teremos um especialista, volte para se consultar. Até lá tome essas pílulas".

Triste, o homem resolveu procurar o seu sindicato. O dirigente sindicalista, muito prestativo, achou aquilo um acinte. "_ Nós vamos lhe ajudar meu bom homem. Vamos processar todo mundo". Tirou de uma gaveta um cartão de visita e deu ao nosso personagem. "_ Esse é o doutor Marcio, vou lhe levar lá agora para o senhor contar a ele o seu problema!"

Foi levado ao escritório do advogado. Foram apresentados. Notou logo que o "dotor" ali era diferente dos demais. Ele não usava aquela roupa branca, vestia paletó e gravata e lhe olhava nos olhos. Deduziu que enfim estava diante de um especialista: "_ em que posso ajudá-lo senhor?", perguntou o advogado.

Não perdeu tempo. Foi logo baixando as calças e dizendo:

_ Dotor eu sinto uma dor horrível aqui no meu ovo esquerdo, me ajude por favor !

O advogado, assustado, disse que não podia fazer nada sobre aquilo.

_ Ué, o senhor não é um dotor especialista?

_ Sim meu amigo, mas o meu negócio é Direito, o senhor me ouviu? Sou especialista em D-I-R-E-I-T-O ! Aí, o homem foi à loucura: "_ Vai ter especialista assim lá na casa do cacête !!!


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Moral da história: Se tens problema no ovo esquerdo, continue a tomar chá de Cajiru. Se tiveres dinheiro vai se tratar na medicina particular, fora do país.

***
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* JAIRO NOLASCO vive em Cruzeiro do Sul - AC. Dono de uma ironia-sarcástica requintada, que nos faz pensar num Machado de Assis, é impossível findar um texto seu sem aquele sentimento de incômodo e/ou deslumbramento. Fugindo da crítica fácil e medíocre, tão comum nessa nova onda blogueira acreana, Jairo Nolasco se diferencia de tudo o mais que se tem escrito  no Acre, pelo seu estilo próprio de contar-denunciar, em escrachar o verbo de forma poética, literária, profunda. Jurubeba é planta que amarga, cheia de espinhos... incomoda. Não é por acaso que seu blog se chama JURUBEBA JURUAENSIS.

sábado, 29 de janeiro de 2011

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

INSONDÁVEIS MISTÉRIOS

Profª. Inês Lacerda Araújo*


O título acima é um pleonasmo, todo mistério é insondável ou não seria mistério. O adjetivo "insondável" acentua o traço essencial de tudo o que é misterioso: a impenetrabilidade. A filosofia indaga sobre a origem de todos os seres, as respostas dos filósofos servem para satisfazer em parte nosso desejo por verdade, por sentido, pela vontade de imprimir a nossos atos e nossa vida de modo geral, algo de mais estável, que preencha vazios, que alente nosso cotidiano e que inspire prosseguir, sem esmorecer.

Alguns conseguem essa plenitude, o mistério é por eles absorvido pela fé em Deus, pela resolução de problemas da matemática, pela reflexão filosófica, pelo empenho em realizar um projeto social, pela busca interior de um tipo de ajuste entre seus desejos, prazeres, emoções, frustrações e perdas.

Um empresário se ocupa de seus negócios, tem uma responsabilidade enorme em suas mãos. Um médico se preparou para uma missão, cuidar da vida. Um motorista de ônibus precisa de habilidade (e sorte) para conduzir vidas até seu destino. Mas pensem em uma manicure! Ela lida com algo aparentemente banal e superficial, mas também ela tem uma habilidade, e como em tudo na vida, precisa que séries de variáveis contribuam para o bom resultado de seu trabalho - desde os produtos que ela usa, até chegar todo dia no emprego e para isso depender de horário, de transporte, de disposição, de planejamento, etc., etc.

Todos precisamos lidar com o dia a dia e para todos há uma espécie de busca de sentido. O matemático acima referido, que resolve intrincados cálculos, e o povo de uma tribo que precisa contar dias e noites, suas colheitas, o número dos animais que possui, em que eles diferem?

O empresário e a manicure, em que eles diferem?

O médico e o motorista, em que eles diferem?

Ou seria preciso buscar os pontos pelos quais todos nos assemelhamos?

Somos alma cujas ideias estão aprisionadas a um corpo (Platão); animais racionais, animais políticos (Aristóteles); somos capazes de uma luz, de uma iluminação interior (Sto Agostinho); porque pensamos, existimos (Descartes); alçamos à condição de livre decisão (Kant); nossa vida é dor e sofrimento (Schopenhauer); a existência humana é sem razão, ainda assim somos condenados às livres decisões (Sartre); em cada ato nosso, há a marca de uma cega pulsão (Freud). Quem somos e o que fazemos de nós, esses "caniços pensantes" (Pascal)?

Para todos, em toda a parte, nasce o sol, o dia começa, e mistério dos mistérios, quer se resolvam ou não grandes ou pequenos problemas, ninguém sabe ao certo se e como esse dia terminará.

Sequer se sabe com certeza se o sol nascerá, diria Hume. Então, para que tanto corre corre?

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* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e doutora em Estudos Linguísticos.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

PEQUENO ENGANO - Leila Jalul*

A Iza era linda e gostosona.   De pequeno, só o nome.  Pai do céu, sua dentadura parecia ter o dobro de dentes! Gargalhava alto, praticamente o dia inteiro. Levava a vida na base da gandaia.
E a bunda? A bunda de Iza deveria ser considerada patrimônio da  humanidade. Um fenômeno! Não estou a brincar. É verdade!
Baiana de Itapetinga, mulher de militar transferido, gabava-se ao dizer que morava na Vila dos Oficiais. O endereço era motivo de orgulho. Afinal, numa cidade pequena, pobre, sem esgoto, sem asfalto, a vila da Iza era a própria Av.  Atlântica, no Rio, ou a Av. Paulista, em São Paulo (claro!).
Uma vez, invocada com essa mania de tanto falar bem da Vila dos Oficiais, ousei perguntar:
- Ô Iza, essa vila tem ruas ladrilhadas com pedrinhas de brilhantes?
- Não, minha filha, mas tem cada homão!!! Ia eu sair da  Bahia, da minha Itapetinga, para morar em qualquer lugar?
- Sim, mas o teu marido também é um homão! Precisas de mais?
- Lá  são muitos, baby,  numa vilinha de nada.  A cidade inteira não tem nem a metade. É um deslumbre, minha filha, é um deslumbre!
- Entendi.
-  Já visse os olhos do Comandante Agenor? Visse, negona?
- Realmente, tens muita razão, são verdes e lindos.
Do que sempre soube, Iza e seu "benzin" viviam em plena felicidade. O capitão tinha lá suas durezas e seriedades próprias da farda, mas,  Iza,   sem meninos para atazanar, dedicava-se a zelar os  jardins da vila para se ocupar com alguma coisa. Tarefa amena e colorida.
Nesse cotidiano agradável, cercada de homão por todos os lados, absorvendo flores por todos os sentidos, que motivos poderia ter para ser triste?
Certo dia fui procurada por Iza. Queria uns conselhos. Estava meio sem graça, capionga e um tanto enfarruscada.
- Olhe, amiga, aconteceu um negócio chato e meu "benzin" tá até falando em separação. É que a pia lá de casa entupiu e pedi pra ele tentar resolver a situação.
- Hum,  e o que há de errado nisso?
- É que deixei ele tentando arrumar os canos e saí para ver o jardim da Flávia. Plantei um pé de cajado de São José e tava doidinha pra  ver se tinha pegado.
- Então, o homem ficou aborrecido por teres ido bater pernas na costeira?
- Não, escuta. Deixa pra fazer perguntas só no final. Pois bem, quando voltei pra casa, ainda estava lá, olhando pra debaixo da pia,   de bunda pra cima e , para fazer uma gracinha com meu bem, vim devagarinho, meti a mão nos ovos dele, garrei com cuidado  e perguntei: cadê os coquinhos de mainha?
- Porra, mulher, o homem deve ter tomado um susto danado!
- Espera, foi isso não! Não era o benzin. Tu sabes que aquele povo anda tudo de camiseta branca e calção azul e eu pensei que fosse ele.
Lembrando da situação, caiu na gargalhada, mas logo voltou a ficar séria.
- E quem era, criatura?
- Mulher, nem te conto. Era o comandante Agenor.  Quase eu morro! Minhas Santas Almas Vaqueiras!  O homem olhou para minha cara, queria rir mas não queria, sabe como é?  Depois, só pra não perder a moral, falou que ia contar para o "benzin". Eu tenho culpa, mulher, se pelas  costas eles serem tão parecidos? quase iguais? Tenho?
- Claro que não! E o que você disse?
- Pedi desculpas, mas ficou o clima ruim. Quando contei pro filhinho, a princípio ele não se mostrou com raiva, e explicou o sucedido. Agenor tinha se prontificado a ajudar no desentupimento daquela joça e  ele, meu mozinho,  saiu para comprar uma conexão de não sei o quê, de meia polegada,  essas coisas de encanação, sabes?
- Iza, qual a razão do teu marido ter ficado aborrecido, mesmo sabendo que foi um engano?
- Imagina, só porque eu disse que os coquinhos  de mainha do comandante eram maiores e mais durinhos!!! Imagina, santinha,  não é uma besteira?
- É...  claro que é... É?
Tempos atrás encontrei Iza e seu "benzin" passeando na praça, tomando sorvete de bacaba. Fiz festa. Demonstrei satisfação em vê-los juntos.  Enquanto ele foi comprar  mais um gelado, lembrei dos coquinhos de mainha e aconselhei a doida a  não mais mexer com os brios do capitão. Me diz a safada, toda reboculosa:
- Mexo mais não.  Agora, minha deusa,  que os de Agenor  eram maiores e mais durinhos, eram sim!  Acho que os coquinhos de painho sempre foram  desunerados...
A gargalhada escandalosa ecoou na praça, atraindo olhares. Hora de sair de fininho.
- Tchau, Capitão. Tchau, Iza.  Tchau.
- Tchau! 

***

* Leila Jalul - procuradora aposentada da Universidade Federal do Acre. Autora de Suindara (Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora LTDA, 2007) e Absinto Maior (2007). Leila é atualmente uma das maiores vozes femininas das letras acreanas, juntamente com Florentina e Robélia.

** Crônica publicada originalmente no site de Lima Coelho.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

TEMPO E TEMPORALIDADE

Profª. Inês Lacerda Araújo*
Filosofia de Todo Dia 


A maioria dos filósofos se debruçou sobre esse intrigante e essencial problema: o que é o tempo?

Passagem, movimento, eterno, infinito, retorno, progresso, mudança são conceitos que acompanham o de tempo e ajudam a entender melhor o que é, como é o tempo.

Aristóteles o define como "medida do movimento segundo o antes e o depois", quer dizer, um movimento qualquer de um corpo no espaço se inicia, pode ser observado e calculado, e depois cessa. Essa possibilidade de medir o movimento, é o tempo. Prático, sem dúvida, mas não responde a alguns nossos anseios, digamos, metafísicos.

Para Sto Agostinho há apenas o presente, o passado já não conta (pois passou) e o futuro ainda não chegou. Mas como o presente se esvai, os momentos são todos passageiros, o que resta?

Ciclos de evolução de todas as coisas e a mudança levam a discussão para a história. História do universo, sem começo e sem fim, infinito, em expansão constante (será?); história do planeta Terra, que antropólogos e biólogos pesquisam e que se inscreve nas evidências arqueológicas; história dos feitos da humanidade, escrita em documentos, transmitida nas diversas culturas, linguagens, hábitos e mitos; e tempo existencial, o do nascimento, vida e morte.

A vivência no tempo, é também a vivência do tempo.

Explico: "Estou sem tempo", "Se apresse", "Ainda há tempo", "É cedo", "Tarde demais", "Tempo esgotado","Chegou a hora", estamos imersos e dependentes do tempo, tempo como sucessão cronológica, medida pelo relógio e pelo calendário. Mal nasce e a criança é mergulhada em escalas, e de adapta aos ciclos de fome e sede, dia e noite, cedo, tarde, agora, nunca. Além disso, nossas vidas se estendem na temporalidade, no tempo existencial, aquele que não é medido. Fugir do tempo em uma suposta eternidade, é impossível.

Daí a conclusão de Heidegger, filósofo alemão cuja obra mais conhecida é "Ser e Tempo" (1927): o ser humano é ser no tempo, isso define nossa essência. Os filósofos antigos pensavam o tempo como exterior ao homem, Heidegger pensa o tempo como integrante da existência. O dom dos homens é o de se dar como presença. Traduzindo: podemos "agarrar" nosso ser exatamente no momento em nos percebemos como dádiva da temporalidade.

Não há férias do tempo, ele só pode parar, em certo sentido, pela repetição, pela memória, e mesmo quando se preserva o passado, ele se desgasta. REviver o passado, só se o fizermos no presente. Transitamos pelo caminho deixado pela memória e dependemos de nossos pro-jetos para o futuro. Talvez por isso a perda da memória seja o mesmo que a perda de nosso ser humano, ser no tempo. Talvez por isso DESesperar seja perder a capacidade de esperar, de confiar. 

Sujeitados ao tempo, ele revela nossa fragilidade. 

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* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e doutora em Estudos Linguísticos.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O ACRE MAQUIADO - Isaac Melo


Quem chega a Rio Branco depara-se, em diversos pontos da cidade, com inúmeros outdoors com os seguintes dizeres: “Acre: o melhor lugar para se viver”. E mostra gente sorridente, policiais bem fardados, estradas asfaltadas, crianças em frente a computadores... E de fato percebe-se mudanças, enxerga-se melhorias. Todavia, estas estão muito distantes do Acre tal como ele é.

O Acre ultimamente está como uma mulher toda perfumada e bem maquiada que sai para uma festa. Dança a vontade. Só que antes de terminar a festa, o perfume já venceu e a maquiagem está borrada. A linda carruagem virou jerimum.

O governo acreano nesses últimos doze anos obteve significativas mudanças, e para melhor. Porém precisa parar com essa prepotência de achar que o Acre se tornou Acre a partir de suas gestões, e de criar protótipos de pseudo-políticas que parecem ser insuperáveis e inquestionáveis. Ora, o atual jogo de marketing do governo quer passar uma imagem, ao generalizar, a partir de algumas melhorias e, por cima, de pontos isolados, de que todo o Acre tornou-se um canteiro de obras só. Mas quem não vive sob as rédeas ou das benesses do governo ou é capaz de ir além dos próprios interesses sabe dos reais e sérios problemas que o Estado vive. Mesmo que estes estejam maquiados e camuflados em pseudo-progressos.

Contraditoriamente, por exemplo, viajar internamente no melhor lugar para se viver não é apenas um grande desafio, mas um serviço de alto custo e de regular qualidade, sobretudo, no que diz respeito aos táxi-aéreos e o abusivo custo das passagens. As estradas ainda são um sonho que duram pouco mais de três meses. O sistema público de saúde está mais doente do que os doentes. As técnicas agrícolas do Acre são as mesmas de cem anos atrás, o incentivo aos pequenos agricultores é praticamente nulo. Universidades são escassas, incapaz de atender a demanda de alunos, quando não, de regular qualidade...

O governo acreano faria mais se em vez de ficar enfeitando a história, encarasse a situação sem idealizações e romantizações. Falar sim dos progressos que obteve, das conquistas que alcançou, mas sem precisar recorrer a esses discursos ideológicos sensacionalistas e a esses chavões deprimentes.

Sou acreano e não me sinto inferior a nenhum outro brasileiro, seja de onde for e porque qual razão for. A leitura atual que faço do Acre, longe de ser menosprezo, é antes sinal de amor e do meu orgulho por ser acreano. Só não posso concordar com governos que querem a todo custo vender a imagem de um Acre idealizado, causando, de certa forma, neutralidade ou negligência a certos problemas que urgem soluções imediatas. Vivemos sim numa terra bonita por natureza, de povo tenaz, de história marcante, porém, de governos aloprados.

A bem da verdade o Acre, a meu ver, continua ainda a ser um dos piores lugares para se viver, (em termos de infraestrutura e serviços) embora tenhamos uma Sherazade, com suas mil e uma histórias, a nos ludibriar a cada noite...

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O DESEJO POR IMORTALIDADE

Profª. Inês Lacerda Araújo*
FILOSOFIA DE TODO DIA 


Desde tempos imemoriais, quando os homens se descobriram mortais, negar a morte, prolongar a vida, preservar corpos, cultuar os mortos por meio de túmulos, pirâmides, monumentos, oferecer sacrifícios, enfim, tentar de alguma forma ser imortal - esse tem sido o desejo maior das pobres e mortais criaturas... 

A literatura e a filosofia, entretanto, com seu poder de abstração, de reflexão e de imaginação, ensaiam como seria a realização desse desejo em personagens e obras. 

Simone de Beauvoir Em Todos os Homens são Mortais (1946), descreve o drama de um personagem imortal, que, pasmem, é infeliz com essa condição. O efeito mais drástico, é o da solidão.

Jorge Luis Borges no conto O Imortal, relata a vida de um soldado da época de Diocleciano, que ouvira falar do Rio da Imortalidade e sai em busca desse rio. Para essa empreitada recruta soldados e mercenários, que, uns após os outros, morrem. Após dias de busca solitária, e de uma noite de pesadelo, acorda com sede e bebe de um arroio. Ele chegara a um país estranho, de trogloditas que moravam em cavernas. Ao fundo há uma cidade abandonada. Penetra em um palácio cuja "arquitetura carecia de fim", escadas que levam a lugar algum, sem simetria, sem serventia.

Acontece que os trogloditas eram imortais, e aquela cidade foi sua última obra, depois a vida deles se tansformou numa espécie de letargia, de volta sem fim, de ensimesmamento. Nada faz sentido, nada tem valor. Sofrer sede e fome, e nem assim precisar de alívio. A imortalidade os condenou à indiferença, não há mérito, não há vício nem virtude. O que não significa estarem eles para além de bem e mal, nem poderiam ser confundidos com ascetas do deserto, pois viver absorvidos em seu pensamento, era seu único consolo.

O soldado vai embora da cidade, sai em busca de um rio que lhe devolva a mortalidade, a humanidade, o desejo, o prazer, a dor. Séculos depois, sabe que os encontrou quando se percebe ferido, sangra, sente dor.

Morrerá...

E hoje? Cirurgia plástica para rejuvenecer, botox, academia, vitaminas, bailes de terceira idade, namorar, pílulas azuis -, são recursos alardeados por governos e pela indústria da saúde. É preciso a todo custo buscar a juventude, negar a morte, sob o pretexto de ser saudável. Amar se transformou em vitalidade sexual. O prazer de uma caminhada se transformou em passos medidos e avaliados pela eficácia. O que faz mal, o que faz bem: a vida transposta para essas duas colunas do que fazer (para não morrer!?).

Cultivar o sossego, a paz de espírito, o despreendimento, a sabedoria dos que se sabem mortais, aceitam essa condição, e dela usufruem, agora é visto como esquisitice.

Interessante essa "evolução" que passou da preservação de cadáveres, múmias com direito à vida eterna, às quase múmias plastificadas nos centros de estética. Incrível que estética tenha também sofrido uma mutação, passou de busca do belo, à busca de beleza à custa de bisturi, agulhas e picadas.

Quase ia esquecendo: a moda dos vampiros, glamorização e tragédia se juntam em mais um espetáculo sobre a vida eterna, que, aliás, vende muito bem! 

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* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e doutora em Estudos Linguísticos. 

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

PARA VERDES CAVALEIROS - Clodomir Monteiro


Cavaleiro galopa letra amansa
de verdes ver atol da esperança
ao ver brilhar no céu planeta vênus
madruga e dança belo Peter Pança

vai galopando a palavra vesgo
na noite circulando sonho alcança
jamais denota esmos em si mesmos
amadurece a sazão da infância

coração trota esperando o mote
que escreveu e conviveu com simpleces
o seu chicote acalma Don Quixote
ao ler Machado pega sua acha

mas conta o conto do cavalo obeso
por ter comido e soletrado os príncipes
e a gulodice deixou ventre preso
ficou rodando de cabeça baixa

agora trota ao largo do meu passo
cavalga coração não quer cabresto
é como é, e não aperto o laço,
não se perde nem eu enfarto o texto

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* Clodomir Monteiro é um dos maiores nomes da poesia acreana. Atualmente presidente da Academia Acreana de Letras.
** Poesia publicada originalmente em O QUARTO LADO DA VIDA, do próprio poeta.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

SOBRE ETs E BACTÉRIAS GULOSAS

Profª. Inês Lacerda Araújo


Semana passada foi noticiado amplamente e com certo estardalhaço, que cientistas da Nasa fizeram uma descoberta extraordinária. Um tipo de bactéria retirada de um lago supersalgado, o lago Mono, situado na California, quando "alimentada", digamos assim, por arsênico, elemento próximo do fósforo e letal, ao invés de morrer, sobreviveu.

Talvez não fosse uma bactéria com tendências suicidas!

Ironia à parte, esse experimento levou a uma conclusão no mínimo curiosa. A de que a vida pode sobreviver em condições que nunca antes foram observadas. Apenas certos elementos químicos são responsáveis pela vida, tal como a conhecemos: oxigênio, hidrogênio, carbono, fósforo, enxofre, nitrogênio. O arsênico, substituindo o fósforo na composição química daquela bactéria, fez pensar que há vida tal como não a conhecemos.

Há duas premissas no raciocínio, que são corretas:

- Vida se compõe de 6 elementos químicos, invariavelmente.

- Ora, uma bactéria sobreviveu com um elemento químico diverso, arsênico.

Mas a conclusão não se depreende dessas premissas:

- Logo, há outras formas de vida no universo.

E essa conclusão foi proclamada como prova de que há vida, de que há sim ETs!

Mas atenção, vida como nós a conhecemos não significa que vida como não a conhecemos seja a prova da existência de seres extraterrestres.

Apenas amplia as possibilidades de formas elementares de seres vivos deste planeta, a Terra.

Condições para haver vida em outros planetas, na infinidade e na misteriosa expansão do universo, pode-se tanto apostar que sim, como que não!

Em geral quem defende a hipótese de vida fora da Terra, entende que se trata da vida inteligente, o que é, no mínimo uma extrapolação, uma projeção, a meu ver absurda, de nossas formas de vida.

A diferença estaria na cor, esverdeada; nas orelhas, pontudas; nos dedos, finos e compridos; nas cabeças, cônicas, etc. Mas pensam e falam!

É sempre uma projeção esquisita de nossas espécies, em particular a humana, mas também de alguns animais, como leões, formigas, cães e gatos... Não me lembro de nenhum filme de ficção que em que a criatura de outro planeta seja semelhante a hipopótamo, acho que eles são já estranhos demais para nós mesmos.

Enfim, o que a ciência pode demonstrar depende de pesquisa, de teorias, de hipóteses. Nossa atual teoria é a darwiniana, da evolução. Para haver evolução várias condições concorreram, muitas aleatórias, gerações surgiram, outras desapareceram, o ambiente foi ora hostil, ora propício.

De modo que dificilmente essas mesmas condições se dariam fora de nosso planeta a ponto de surgir vida, mesmo a da bactéria "gulosa", como a do lago salgado.

Além disso, há nosso modo único, humano, de criar, de se comunicar, de usar um vocabulário e conceitos, de haver um tipo de cultura investigadora, como é a cultura ocidental, desde há alguns séculos. Exemplo, a própria Química, com suas descobertas, leis, teorias, experimentos.

É tudo humano. É humana também essa noção de expandir a curiosidade para outros mundos, de imaginar que há seres inteligentes, mas inteligência é mais um desses modos pelos quais caracterizamos e atribuimos, a nós mesmos, certas capacidades.

Essa é uma posição cética, dirão alguns. Melhor assim... Mas se alguém quiser apostar em crenças ingênuas, até mesmo muito divertidas, o melhor mesmo é o Et de Varginha...

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

ACRE - Daniella Paula Oliveira


Fui sentindo o seu perfume ainda no céu
Percebendo o tempo se modificando
A vida em contraponto
O vento úmido, a argila fresca.
Esperei o dia clarear para ver a sua cor
Marrom e verde. Furta cor.
Longe dali, os mandarins e as suas redes.
Longe do seu significado áspero
Lá estava um Acre mágico.
Pequeno, sutil, singelo, delicado e forte...
Como convém aos do Norte.

Sob a sua pele, as digitais feridas
Da guerra para ser brasileiro
Das suas diversas vidas.
Seu rio se escalda castanho
Banhando em águas amarelas
Suas molduras pitorescas, seus cantos e janelas.
Sua floresta o come noite e dia
E o alimenta de melodia silenciosa
Por causa dela, o Acre é silêncio.
Motim só no relento, quando o pranto dos noturnos se faz atento.

Tem flores de lótus no ar
E nos permite um ébrio sagrado, que só lá pode causar.
Suas praças lhanas, seu remelexo meio havana.
Sua singularidade nesse mundo descompassado e análogo
Se o tempo é imediato, lá é a vertigem do tempo.
É lá onde os deuses buscam seus passatempos

O Acre tem o sono da Jurema
A gargalhada do caboclo
Os segredos das matas
Os cabelos desarrumados dos rios
O sangue branco das árvores
As almas pintadas de urucum
Índio, seringueiro, brasileiro, todos e nenhum.

Nas suas veias fulvas correm a boa utopia
Em seu povo a regalia de te pertencer
Em sua coragem a predestinação em vencer.
Na sua modernidade, a sustentabilidade
Na sua fé a ayahuaska, a conceição, a rainha, o xamã, a miração.
No seu som os maracás, tambores, choros de bichos, brigas de folhas, cantos de amores, acordes de violão.

Acre de igarapés e pajés
Tacacás e maracás
Oxóssis, oxuns e nanãs...
Escuridão e claras manhãs.
Garoas frívolas e chuvas torrenciais
Tribos e matagais
Kaxinawás, Ashaninkas, Yawanawás; Amazônia, tapajós.*
Também quero a minha coroa de cipós.
Meu Rio, Branco – Meu Verde, Floresta
Viço de ervas, canto e seresta.

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P.S. Poema originalmente publicado em MANDALAS DA FLORESTA, da artista plástica Simone Bichara.
* Foto: Sérgio Vale

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O SUOR E A LÁGRIMA

Carlos Heitor Cony


Fazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa, quase 41. No dia seguinte, os jornais diriam que fora o mais quente deste verão que inaugura o século e o milênio. Cheguei ao Santos Dumont, o vôo estava atrasado, decidi engraxar os sapatos. Pelo menos aqui no Rio, são raros esses engraxates, só existem nos aeroportos e em poucos lugares avulsos.

Sentei-me naquela espécie de cadeira canônica, de coro de abadia pobre, que também pode parecer o trono de um rei desolado de um reino desolante.

O engraxate era gordo e estava com calor — o que me pareceu óbvio. Elogiou meus sapatos, cromo italiano, fabricante ilustre, os Rosseti. Uso-o pouco, em parte para poupá-lo, em parte porque quando posso estou sempre de tênis.

Ofereceu-me o jornal que eu já havia lido e começou seu ofício. Meio careca, o suor encharcou-lhe a testa e a calva. Pegou aquele paninho que dá brilho final nos sapatos e com ele enxugou o próprio suor, que era abundante.

Com o mesmo pano, executou com maestria aqueles movimentos rápidos em torno da biqueira, mas a todo instante o usava para enxugar-se — caso contrário, o suor inundaria o meu cromo italiano.

E foi assim que a testa e a calva do valente filho do povo ficaram manchadas de graxa e o meu sapato adquiriu um brilho de espelho à custa do suor alheio. Nunca tive sapatos tão brilhantes, tão dignamente suados.

Na hora de pagar, alegando não ter nota menor, deixei-lhe um troco generoso. Ele me olhou espantado, retribuiu a gorjeta me desejando em dobro tudo o que eu viesse a precisar nos restos dos meus dias.

Saí daquela cadeira com um baita sentimento de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão sujos assim, por míseros tostões, fizera um filho do povo suar para ganhar seu pão. Olhei meus sapatos e tive vergonha daquele brilho humano, salgado como lágrima.


* O texto acima foi publicado no jornal “Folha de São Paulo”, edição de 19/02/2001, e faz parte do livro “Figuras do Brasil – 80 autores em 80 anos de Folha”, Publifolhas – São Paulo, 2001, pág. 319, organização de Arthur Nestrovski.
** Crônica retirada do site RELEITURAS.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A BAHIA EM MIM

“Um dia faz muito tempo, muito tempo – achei que era imperativo fazer um poema sobre a Bahia, mãe de nós todos, amante crespa de nós todos. Mas eu nunca tinha visto, sentido, pisado, dormido, amado a Bahia”. Agora posso fazer meu poema, como sugere os versos de Drummond, já que por quase um ano vi, sentir, pisei, dormir e amei a Bahia.

À Bahia havia chegado dia 03 de fevereiro e aos 29 de novembro a deixava. Esse tempo passei na tranquila e bela Palmas de Monte Alto, cidade com pouco mais de 21 mil habitantes, aos pés da serra de mesmo nome, em pleno sertão, a sudoeste do Estado, próximo à divisa com Minas. Não fui cumprir apenas uma etapa da minha formação para o sacerdócio católico, mas porque sentia sede de está com o povo e do seu olhar, pois os olhos humanos revelam a beleza do coração e a pureza da fé.
JUVENTUDE: Estive em muitos momentos com a juventude, em diversas cidades e em variadas atividades. Assessorei tanto a juventude de Palmas de Monte Alto, quanto o Zonal 09 composto pela juventude das cidades de Malhada, Sebastião Laranjeiras e Iuiu, que integram a Diocese de Caetité.
PASTORAL DA JUVENTUDE: Na Diocese de Caetité, pude participar dos principais momentos da Pastoral da Juventude, como os encontros de formação e planejamento, e o Dia Nacional da Juventude, em fins de outubro em Caetité. Sou muito grato aos inúmeros amigo/as que aí fiz!
JUVENTUDE DO SERTÃO: Percorri inúmeras comunidades rurais e me encontrei com muitos jovens, para encontro de formação e partilha de saberes. Ora conscientizando-os, ora eles a me conscientizar.
O que vi e encontrei foi uma juventude motivada, procurando se organizar para melhor ocupar seu lugar na sociedade.
“Fica sempre um pouco de perfume nas mãos de quem oferece rosas”, é a impressão com que fico dos meus amigos jovens da Bahia.
A equipe com quem pude contar durante todo o ano: Leo, Vanessa, Sandro, Núbia, Ercília, Gilmar e esposa Vanessa, José aparecido (Cidinho) e Aline.
ESCOLAS: Também fui às escolas, aqui na Alarico Fraga.
COMUNIDADES RURAIS: estive em mais de 36 comunidades rurais, conhecendo e partilhando saberes. Ora a pé ou de moto, ora de charrete ou de carro. Tenho um fascínio e uma admiração tremenda pelos nossos líderes e animadore/as. Gente de profunda fé e muita sabedoria.
Aqui na casa do seu Élson, em uma das missões em que estive, em Caraíbas do Romão.
As famílias sempre me receberam com muita alegria. Gente simples, de um coração generoso e hospitaleiro.
Dona Anália e seu Francisco. Estive dois dias maravilhosos na casa deles em Lagoa de Canudo. Dona Anália é uma mulher de fibra, de profunda fé, uma santa dos nossos dias. Alguém que estará sempre presente em minha memória.
As mulheres estão à frente de nossas principais comunidades, animando e evangelizando.
Daria um livro, creio, fosse narrar meus dias na Bahia, as tantas pessoas que encontrei, os diversos amigo/as que fiz, as inúmeras cidades por onde passei, enfim... Minhas palavras são de gratidão por tudo o que os baianos me proporcionaram. Uma experiência bela, porque inesquecível. Inesquecível, porque verdadeira! Fica meu abraço e meu amor ao povo baiano. E faço das palavras de Drummond as minhas:
A Bahia ficou sendo para mim
poema natural
respirável
bebível
comível
sem necessidade de fonemas.

sábado, 4 de dezembro de 2010

HINO A PALMAS DE MONTE ALTO - BA


HINO A PALMAS DE MONTE ALTO
Gildete Alcântara Rocha


Em Palmas de Monte Alto
Cidade linda e hospitaleira
Vive um povo patriota
Glória da nação brasileira.

Exaltando o teu nome
Num momento de inspiração
Oh, Palmas de Monte Alto!
Eu te dou meu coração.

As palmas dos teus coqueiros
São lindas mãos em oração
A bravura da ventania
É a graça do sertão.

Os filhos desta cidade
São dotados de boa voz
São gentis e caprichosos
Grandes, fortes como heróis.

Espiritualizando
Os esforços dos teus filhos
Lá do alto da colina
Maria abençoa os teus filhos.

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P.S. Por enquanto essa é a minha homenagem ao povo baiano de Palmas de Monte Alto, que me acolheu nesse ano de 2010. Obrigado povo lindo, povo maravilhoso! Espero, um dia, voltar novamente a morar nesse chão sagrado do sertão!
Isaac Melo
Belo Horizonte - MG

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

VAMOS ACABAR COM ESTA FOLGA

Stanislaw Ponte Preta


O negócio aconteceu num café. Tinha uma porção de sujeitos, sentados nesse café, tomando umas e outras. Havia brasileiros, portugueses, franceses, argelinos, alemães, o diabo.

De repente, um alemão forte pra cachorro levantou e gritou que não via homem pra ele ali dentro. Houve a surpresa inicial, motivada pela provocação, e logo um turco, tão forte como o alemão, levantou-se de lá e perguntou:

– Isso é comigo?

– Pode ser com você também – respondeu o alemão.

Aí então o turco avançou para o alemão e levou uma traulitada tão segura que caiu no chão. Vai daí o alemão repetiu que não havia homem ali dentro pra ele. Queimou-se então um português que era maior ainda do que o turco. Queimou-se e não conversou. Partiu para cima do alemão e não teve outra sorte. Levou um murro debaixo dos queixos e caiu sem sentidos.

O alemão limpou as mãos, deu mais um gole no chope e fez ver os presentes que o que dizia era certo. Não havia homem para ele ali naquele café. Levantou-se então um inglês troncudo pra cachorro e também entrou bem. E depois do inglês foi a vez do francês, depois um norueguês etc. etc. Até que, lá do canto do café, levantou-se um brasileiro magrinho, cheio de picardia, para perguntar, como os outros:

– Isso é comigo?

O alemão voltou a dizer que podia ser. Então o brasileiro deu um sorriso cheio de bossa e veio vindo gingando assim pro lado do alemão. Parou perto, balançou o corpo e... PIMBA! O alemão deu-lhe uma porrada na cabeça com tanta força que quase desmonta o brasileiro.

Como, minha senhora? Qual o fim da história? Pois a história termina aí, madame. Termina aí que é pros brasileiros perderem essa mania de pisar macio e pensar que são mais malandros do que os outros.


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Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo literário de Sérgio Porto (1923-1968), foi um dos melhores cronistas brasileiros. Talentoso e irreverente, compôs, através de seus textos, um painel crítico e bem humorado da realidade brasileira.
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PRETA, Stanislaw Ponte. Dois amigos e um chato. São Paulo: Ed. Moderna, 1986.