sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A ERA DOS FESTIVAIS / continuação

Luiz Felipe Jardim

Intervalo 

Olá, bem vindos ao bat blog. Como estamos um pouco adiantados à bat hora, antes de entrarmos nas paisagens dos festivais propriamente ditos, iremos a um breve intervalo, a uma suave digressão, um breve equivalente a um necessário... ai, ai, ai e maçante comercial...

Pablo Picasso - Maya com a boneca
A popularização, nos anos 50 e 60, de uma linguagem infanto-juvenil saída do universo das revistas em quadrinhos e da TV, como a que inicia esse texto, faz parte de um importante e demorado processo pelo qual vem passando a humanidade. Grosso modo, trata-se de um processo de ‘infantilização’, do ser humano ao que os especialistas chamam de Neotenia.

A palavra neotenia significa algo como ‘extensão do novo’. Por isso, nas biologias diz-se de espécies em que os indivíduos levam para a vida adulta, para a maturidade sexual, características físicas de sua fase infantil ou larval. Estendem o seu ‘novo’ à vida adulta. Por exemplo: a nossa espécie nasce com 23% do tamanho de um cérebro adulto, e este cérebro só irá parar de crescer depois de 23 anos, ou seja, o nosso cérebro continua a crescer mesmo depois de atingirmos a maturidade sexual, e por mais de dez anos.

Os processos neotênicos fixaram em nossa humanidade a atração pelo novo, pela novidade, a neofilia, característica que é muito forte entre os primatas, que fazem disso motivo para grandes divertimentos e mesmo para alargamento de áreas contínuas de exploração. Mas não vai muito além.

Na espécie humana as coisas ficam bem diferentes. A neofilia, a atração pela novidade, o fascínio pelo novo é muito mais do que simples brincadeira. É uma qualidade sem a qual o homem não teria sobrevivido nas selvas da evolução. O fascínio pelo novo é também responsável por grande parte de nossa curiosidade e dos nossos estímulos exploratórios. Por isso levamos à vida adulta, a curiosidade e o sentido de divertimento e satisfação que esta nos provoca quando crianças. Assim, quando adultos, continuamos curiosos, exploradores e nos divertimos com isso.

O Homem precisa iludir-se para imaginar. Precisa brincar mesmo que responsavelmente, seriamente. O sentido original da palavra, iludir é exatamente esse: recrear, praticar o lúdico. O que é o teatro, ou o cinema, senão uma grande ilusão, um bom divertimento onde uns fingem que são e outros fingem que acreditam? O que é a pesquisa científica senão a curiosidade infantil levada à vida adulta e que, à semelhança do típico voyeur, perscruta as fendas das realidades na busca de paisagens ocultas? O que é o esporte de alto nível senão as velhas brincadeiras - correr, saltar, jogar bola - praticadas em alto nível?

Magritte - The Big Family
Na vida adulta o Homem continua a ‘brincar’ para imaginar e inventar facas de pedras, roupas de couro, anzóis de ossos, e anzóis Pereira em geral. Precisa brincar de ser para ser criativo, para inventar o que não existe na natureza como as letras e os números. Ou seja, para explicar as realidades, para dizer à sua companheira que aquela montanha é uma montanha, o homem inventa coisas que não existem – as letras, as palavras, os números. Com essas coisas que não existem verdadeiramente, ele diz: aquela montanha é uma montanha.  Depois conta histórias sobre a montanha. Canta canções e fala das musas que nela habitam. Pinta quadros que a representam. Poeta sobre suas flores, sobre seus bosques... Enfim, produz coisas que não existem... Até começar a andar de trem a vapor em volta da montanha.  Aí as coisas começam mudar um pouco mais. 

Uma das consequências mais evidentes provocadas pela chamada Revolução Industrial, foi a do imenso crescimento da população de humanos pelo planeta. Há pouco tempo, já nesse século, atingimos a marca dos sete bilhões de habitantes e a população de pessoas que vivem em cidades ultrapassou a das pessoas que vivem em áreas do campo. Isso nunca acontecera em mais de um milhão de anos, é algo absolutamente novo para a humanidade. Há ‘apenas’ dez mil anos, a reunião de mil pessoas em um só lugar era absolutamente improvável.

O desenvolvimento médico sanitário surgido com a Revolução Industrial propiciou um significativo aumento da esperança de vida para o Homem. Em 1500 a expectativa de vida de um europeu era quase a mesma de um nativo americano. Por volta de 40, 35 anos de idade. Hoje o europeu tem esperança de vida de mais de 80 e os brasileiros de mais de 75 anos. Em 500 anos dobramos uma marca que mantínhamos por centenas de milhares de anos.

O aumento da expectativa de vida torna relativamente desnecessário um mecanismo biológico/cultural que nossa espécie tem usado com sucesso todo esse tempo, (e que faz a felicidade dos mais acesos): o do crescei e multiplicai-vos... muito. Precisávamos de filhos. Muitos filhos. A grande maioria morreria antes dos oito anos de idade. As ‘mocinhas’ casavam-se muito cedo com os rapazes que também se casavam muito cedo. Era preciso garantir a reprodução da nossa espécie que sempre foi rara em quase todos os momentos da pré-história. Casávamo-nos muito cedo e começávamos a ‘povoar o mundo’ muito cedo para garantir a continuidade dos gens/clãs/espécie. Feito isso, morreríamos muito cedo também. Trouxemos conosco essa herança e agora nos deparamos com um dilema: o que fazer quando a natureza, aí pela curva dos nossos 12, 13 anos se põe a pulsar e a gritar insistentemente nos nossos ouvidos inconscientes: ‘me refaça, me refaça, ME REFAÇA’, e eu já não preciso de tantos filhos, já não preciso ‘refazer’ e ‘repor’ a natureza tão urgentemente?

No estojo de curativos da humanidade está a matusalênica novidade: a neotenia. Na caixa neotênica está o antigo bálsamo: a neofilia, o velho fascínio pelo novo. 

 “Tudo é ilusão, sonhar é sabê-lo”, dizia Fernando Pessoa. Aí, o Homem sonha mais uma vez e ilude sua natureza de maneira realmente fantástica: prolonga artificialmente sua infância. É um verdadeiro ovo de Colombo (que, aliás, parece que estava em moda naquelas épocas): se não preciso de tantos filhos, aumento o tempo em que os filhos que já tenho ficarão comigo. Ou seja: tenho menos filhos, mas, em compensação, eles ficam mais tempo junto a mim, em família, se preparando para a vida adulta. Prolongo, assim, o tempo de sua ‘infância’.

Em 1762, Rousseau, em seu livro Emilio, dizia “o intervalo entre infância e vida adulta deveria ser prolongado... O período em que a educação em geral terminou é exatamente a hora de começar”.

A percepção de Rousseau era realmente genial. Quando do franco aparecimento das sociedades de massa em meados do séc. XIX, os principais países da Europa e EUA, desenhavam políticas públicas voltadas para a juventude. A humanidade percebia que a idade adulta não vem imediatamente após a infância.

Van Gogh - Noite Estrelada
Cem anos após Rousseau e o início da Revolução Industrial, na segunda metade do séc. XIX e começos do séc. XX, as grandes cidades do mundo tinham suas paisagens físicas, sociais e culturais completamente alteradas. As sociedades de massa nasciam e cresciam vertiginosamente. Nos EUA, entre 1880 e 1910, o total da população urbana triplicou de 14 para 43 milhões de pessoas. Grande parte constituída de crianças e jovens que ‘entravam num mundo’ que nem mesmo seus pais conheciam, já que grande parte era de origem rural, nacional ou estrangeira. A reação natural era a experimentação. O velho apego à novidade.
Um grande salto rumo à inovação.

As artes penetravam no mercado de massas que começava a existir. A criação artística se viu em terreno fértil e prosperou enormemente em vasta área do mundo ocidental atingindo níveis de internacionalização nunca antes alcançados. A fotografia ganhou movimento com o cinema. O Jazz nascia e já começava a invadir o mundo. Entre 1870 e 1890 o número de casas para teatro triplicou e saltou de 200 para 600 só na Alemanha. As condições para impressão de jornais e revistas tinham alcançado excelentes níveis, e os jornais alcançaram tiragens que totalizavam um milhão de exemplares nos EUA. As histórias em quadrinhos, as célebres tiras, quase todas cômicas, ganharam publicação diária nos jornais. Por volta de 1910, cerca de 26 milhões de pessoas iam ao cinema toda semana nos EUA, em 1915, esse público chegaria a quase a 50 milhões. Em Milão, havia 40 salas para cinema, e 500 em toda a Itália. Um dado interessante, é que 75% do público de cinema eram de homens adultos. De quebra, como o cinema até a década de 1920 não era ‘falado’, abriu espaço para dezenas de milhares de músicos pelo mundo que tocavam durante a exibição dos filmes. No Brasil, muitos bons músicos como Ernesto Nazareth, tocaram em cinemas. A educação de massas ganhava impulso, entre 1875 e 1914, o número de professores de primeiro grau aumentou em sete vezes na Inglaterra, e treze vezes na Finlândia. As artes populares estavam prestes a explodir no mundo. Mas a explosão que aconteceu foi bem diferente.

Aquele era um período de intensa militarização. A Alemanha, unificada e super industrializada, reclamava por seu ‘espaço vital’ no mundo, desestabilizando a velha ordem européia. De quebra inaugurou o ‘moderno’ recrutamento militar obrigatório, enquanto promovia com as demais nações frenética corrida armamentista.

Os argumentos e as justificativas usadas para seduzir e obrigar os jovens ao serviço militar soavam verdadeiramente apavorantes. Baseados, em certa medida, nas teses do tenente-coronel Von der Goltz (que já tinha mais de quarenta anos quando as fez) diziam que “a fase dos 18 aos 24 anos é a mais indicada para o serviço militar... o corpo está então com vigor suficiente para suportar dificuldades, e o soldado ainda está livre e sem grilhões... Eles escalam montanhas sem perceber a descida abrupta do precipício que há do outro lado. O seu amor pela aventura excita a sua ansiedade pela batalha... Só os jovens despedem-se da vida sem angústia...” Você se sentiria bem recebido, bem protegido por quem lhe acolhesse com essas idéias e... intenções?

Rapidamente todos os grandes países adotaram o recrutamento militar obrigatório, impondo a seus jovens um rigoroso processo de doutrinação militar que, prescindindo do desenvolvimento intelectual, realçava a coragem, a ferocidade, a valentia que o corpo poderia proporcionar. O jovem que não correspondesse às novas expectativas deveria ser considerado fraco, inferior, desprovido de força moral. Aqueles que criticavam a militarização da sociedade e a visível corrida pela produção e estocagem de armas passaram a ser taxados de ‘selvagens subumanos’ degenerados. Qualquer contra-argumentação ao militarismo triunfante deveria, portanto, ser execrada.

O resultado não poderia ser outro: três guerras mundiais.

Pablo Picasso - Esboço para o 14 de Julho
Os jovens sofreram violentamente o impacto das guerras. Exatamente no momento de entrar no mundo fora de casa cheio de novidades como eletricidade, automóveis, aviões, vacinas, cinema, etc. eles percebem que o mundo estava explodindo e que eles eram o alvo preferido nos três fronts que existiam: o do desenrolar dos combates; o‘doméstico‘, cidades vilas; e o ‘interno’, onde não havia batalhas diretas, mas estavam imersos no conflito que se desenvolvia com o novo conceito de “guerra total”, onde toda a população era envolvida nos esforços de guerra. Só na primeira guerra, morriam, em média, 5600 pessoas a cada dia. Cerca de 9 milhões de pessoas foram mortas, sendo 3 milhões de jovens de 14 a 24 anos. Na segunda guerra para cada combatente no front, havia 18 de apoio logístico. A guerra brutalizava a nova sociedade de massa da juventude.

Tanto ao fim da primeira como da segunda guerra, os americanos chegaram à Europa nada menos do que como ‘salvadores’. Um oficial francês assim falou: “todos tivemos a mesma impressão de que estávamos para ver uma maravilhosa transfusão de sangue”. Nos dois momentos, a entrada americana na Europa foi seguida de uma proliferação de novas idéias, de práticas e costumes diferentes, que transformaram a vida das pessoas seriamente afetadas pelos combates.

Warhol - Dollar Signs
O Velho Mundo estava destruído e o Novo ocupava a cena rapidamente. Sua força industrial, com quase dois terços da produção industrial do mundo, seu vigor cultural, atravessaram o Atlântico e o mundo passou a dançar uma nova música enquanto a Terceira Guerra tinha início. Era uma guerra diferente, silenciosa quase, sub-reptícia, fria, mas nem por isso menos danosa. Era uma guerra estranha, de uma arma só. Aliás, duas. Uma de cada lado da bipolaridade que se estabelecera. Não era a Guerra de Botões, o filme de 1962, mas podia terminar - já que havia começado - com um singelo apertar de botões. Era uma guerra diferente, que ao invés de começar com tiros, um único tiro seria suficiente para exterminá-la. E de quebra, tudo o mais.

A ‘Era dos Festivais’ surge nesse período. Com a Guerra Fria. Esse era também o momento em que, nas transformações ‘biológicas da humanidade’, a juventude ‘atingia sua maturidade’. O jovem se tornara definitivamente um segmento demográfico particular, com identidades definidas, com anseios próprios. Tinha novamente um mundo novo à sua frente, meio baleado, meio zonzo, é verdade, mas, enfim, um mundo novo onde poderia viver mais livremente seus ‘processos neotênicos e neofílicos’. A juventude não poderia, em sintonia com as tendências evolutivas da espécie, e com a consciência espiritual da humanidade, escapar esta oportunidade para o Homem.  As novidades surgidas quando do surgimento das sociedades de massa, como o cinema, a fotografia, a história em quadrinhos, o jazz, com suas novas formas ou misturado a outros ritmos como o rock, o jornal escrito, e agora falado e televisivo, eram agora instrumentos poderosos para as transformações que deveriam acontecer.

Magritte - O  Bom Presságio
As artes populares estavam prestes a explodir no mundo. E dessa vez aconteceriam realmente. A humanidade não só percebia que a vida adulta não vem logo após a infância, mas começava a compreender e a viver essa realidade. Mais ainda, começava a desconfiar que ela própria, a antiga  Humanidade, poderia estar saindo agora de sua velha... infância.

A reação natural era a experimentação. O velho apego à novidade.  Um grande salto rumo à inovação... E por falar nisso, você já viu o resultado do futebol de hoje? Já assistiu à novela? Já fez sua corrida? Já jogou vídeo game? Já assistiu ao filme? Lembre-se que, na atualidade, essas são atividades imprescindíveis na vida de todo... adulto. Mas não se sinta tão isolado, tão distante do mundo infantil por isso, essas são atividades imprescindíveis no dia-a-dia do mundo das crianças também. Ainda bem.


* Luiz Felipe Jardim – Professor de História 

Cenas do próximo capítulo

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

HELENA KOLODY


Das boas recordações do Paraná ficou Helena Kolody (1912-2004). Agora que retorno à terra das araucárias e da elegante gralha azul volto a me aproximar da poesia de Kolody. Poeta cujos versos são como estrelas a romper o denso véu da noite, e mesmo como as águas frescas e cristalinas de um córrego a fecundar o chão por onde passam.



Para quem viaja ao encontro do sol,
é sempre madrugada.

No poema
e nas nuvens,
cada qual descobre
o que deseja ver.

Não é o tempo que voa.
Sou eu que vou devagar.

Palavras são pássaros.
Voaram!
Não nos pertencem mais.

O poeta nasce no poema,
inventa-se em palavras.

No silêncio luminoso da tarde,
as árvores desfolham-se em pardais.

O homem esposou a máquina
e gerou um híbrido estranho:
um cronômetro no peito
e um dínamo no crânio.

Captar os seres
em seu fugitivo instante de beleza.

Não quero ser o grande rio caudaloso
que figura nos mapas.
Quero ser o cristalino fio d'água
que canta e murmura na mata silenciosa.

O brilho da lâmpada,
no interior da morada,
empalidece as estrelas.


KOLODY, Helena. Sinfonia da vida. Curitiba: Editora Letraviva, 1997.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Noviço Isaac no viço! [1]

Putz!

Clodomir Monteiro


Vamos perder sacerdote?
melhor não ganhar zelote
quem vai não fica no lucro
pior virar burro xucro

mas noviciado é bom
garante boa instrução
e a Mãe Roma bom! bom!
bondosa de coração

e por falar noviciado
quem vai e torna um padre
não chegará se viciado
jamais será um covarde

conheceu certo o errado
não enganou o Prior
e viverá leigo amado
um respeitável escritor

agora sei me despeço
conheço sua bondade
mais que irmão eu lhe peço
faça poesia inverdade

poesia não de almanaque
que pensa que está ali
melhor noviço de fraque
diz vi o santo vivi

santo não vive na igreja
poesia no coração
ache poema que andeja
por baixo de emoção

é uma vontade de nada
de não ser nada que é
poesia anda calada
onde a criança põe fé

o bom pastor é assim
não guia vela ou promessa
poeta um vai sem mim
mundo amor atravessa

venha quase sacerdote
pois leigo bom e poeta
você não é um zelote
nem será falso profeta


[1] Escrito após receber notícia email do Isaac que regressaria de Roma para o Brasil 01/07/2012.
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NOTA
Com este poema de Clodomir Monteiro torno público, depois de um processo responsável e doloroso, minha decisão de desligamento dos Padres Maristas, aonde dediquei mais de seis anos de minha vida. Sou grato a todos, principalmente aos amigos pelo apoio neste momento de um novo caminhar, e a meus então confrades religiosos, dos quais fica a boa amizade.

sábado, 4 de agosto de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO - XI

José Augusto de Castro e Costa



As denúncias propagadas em folhetos, por José Carvalho e periódicos amazonenses, atreladas à prepotência, autoritarismo e desrespeito procedidos pelo Ministro José Paravicini no rio Acre, teria repercussão desastrosa para a Bolívia, em Manaus, Belém e no Rio de Janeiro – Distrito Federal.

A propagação referia-se ao decreto expedido pelo autoridário boliviano, como delegado de seu governo, abrindo os rios brasileiros à navegação dos países amigos da Bolívia, em detrimento do Brasil, incitando navios estrangeiros a violarem a soberania territorial brasileira.

Funcionários brasileiros, como o Chanceler Olinto de Magalhães, posicionaram-se contra as medidas bolivianas, argumentando que o Brasil jamais permitiria que navios estrangeiros navegassem pelas suas águas para Puerto Alonso.

Os precedentes relacionados à história acreana são recheados de perplexidades, com fatos ligados e entrelaçados como teias de aranhas.

Enquanto os ânimos nortistas manifestavam-se em pública e notória ebulição, eis que surge, no Cais de Belém, como num passe de mágica, sem ninguém esperar, uma canhoneira americana, denominada “Wilmington”.  Até aí corre tudo com certa naturalidade de aparente visita turística.

Em Manaus, porém, transgredindo normas, o comandante da canhoneira tomara a decisão de, sem autorização do governo brasileiro, partir do cais a noite, de maneira evasiva, com os faróis apagados e dirigir-se ao rio Solimões, subindo até ao município amazonense de Tabatinga e, posteriormente, a Iquitos, no Perú.

Ao retornar, o comandante da canhoneira teria sido alvo de severas críticas relativas à sua conduta, provocando comícios públicos e condenação geral pelo atrevido procedimento.

Única fotografia conservada de
Luis Galvez antes de 1900.
Encontrara-se em Belém, quando da chegada da belonave americana ao porto paraense, um “freelance” espanhol, interessado em produzir reportagens acerca da instalação da alfândega em Puerto Alonso. Trata-se de Dom Luiz Galvez Rodrigues de Aria.

Nascido em Cádiz, Espanha, a 20 de fevereiro de 1859, filho do Almirante da Marinha Real, Fernando Luiz Galvez Concepcion de Aria e de Rosaura Rodrigues de Aria, de prendas domésticas, Dom Luiz Galvez, talvez seduzido pela imensidão da baía de Cádiz, vista do mirante de sua residência, cedo começara a viajar pelo mundo.

Aos vinte anos de idade fazia o curso de Ciências Jurídicas e Sociais  e complementava os estudos  aprendendo conversação em inglês, francês e português, o que viria dominar com desenvoltura e imperceptível sotaque.  Passou a juventude boêmia, andando com os guitarristas pelas bodegas do Alcazar, uma mocidade de modo tradicional, entre vinhos, mulheres, feiras, danças flamengas, porém  sem descuidar-se dos estudos.

Em 1889 estava servindo na diplomacia espanhola em Roma, seguindo daí, três anos depois, para Paris, a cidade Luz, que encontrara-se sacudida por atentados anarquistas. Posteriormente fora designado para servir em Buenos Aires, onde, em 1896, viria envolver-se em um assassinato, quando, por questão passional, fora  levado  a um duelo, ocasião em que tirara a vida do duelista adversário, que por sinal seria  irmão de sua namorada.

Demitido do corpo diplomático espanhol, Dom Luiz Galvez fora obrigado a abandonar a Argentina em quarenta e oito horas.  Em 1897 chegara a Belém, onde permanecera até 1898.  A passagem de ano de 1898 para 1899 fora comemorada num vapor, em frente à cidade de Parintins, no Amazonas, depois de Dom Luiz Galvez envolver-se em flagrante   com uma freira, numa  efetiva  copulação, quando viajava como  clandestino, em um barco fretado por religiosos, fazendo o mesmo trajeto Pará-Amazonas.  Escandalizados, os superiores sacerdotais desembarcaram os dois em Santarém, de onde prosseguiriam em outro vapor para Manaus.

O retorno de Dom Luiz Galvez a Belém prendia-se, em princípio, em obter uma entrevista substanciosa com Dom José Paravicini, que ainda encontrara-se na capital paraense com destino ao Rio de Janeiro, sobre suas atividades em Puerto Alonso e a consequente instalação do posto alfandegário para fiscalizar e cobrar tributos nos rios brasileiros.

As repercussões da questão do Acre condimentadas com a afronta  gerada pelo comandante da canhoneira americana, “Wilmington”, já constituíam ótimos ingredientes para aguçar o espírito agitado  e de  controvérsias, bem ao agrado do aventureiro.

Envolvido nos dois assuntos, que por sinal eram os que propalavam-se nos quatro cantos das duas capitais amazônicas, a vida de Dom Luiz Galvez era  bem ao seu gosto, de cabarés a refinados  salões, de humildes cafés a  requintados banquetes.

Colhendo informações, umas aqui outras ali, o irrequieto espanhol vai exercendo sua atividade de “freelance”, sempre relacionando seus contatos aos seus objetivos. Entre seus interlocutores, Dom Luiz Galvez cultivara maior aproximação a um patrício seu que prestava serviços ao Consulado boliviano.  Trata-se de Guilherme Uhtholf, que exercera a função de Comandante-Geral da fronteira em Puerto Alonso, e acompanhante do Ministro Paravicini.

Dom Luiz Galvez, além de atuar como “freelance” para jornais paraenses também logrou espaço para prestar assessoria no Consulado da Bolivia, graças ao seu preparo intelectual e a irmandade do idioma. Dada a intimidade dos dois espanhóis, Dom Galvez ficou sabendo que o Ministro José Paravicini estaria tratando, secretamente, de celebrar um acordo com os Estados Unidos, tendo encarregado a Guilherme Uhthoff de estabelecer as bases e apresentá-las ao cônsul americano. Tal documento deveria seguir para Washington pela canhoneira “Wilmington”, ancorada no porto de Belém, de regresso de sua clandestina e acintosa viagem por águas brasileiras até a fronteira com o Perú, sem permissão do governo brasileiro.

Em Manaus haviam-se iniciado as manifestações de rua, levadas a efeito por estudantes e populares, refletindo um sentimento generalizado de defesa do patrimônio ameaçado por bolivianos intrusos, usurpadores, considerados nocivos e perigosos para a integridade nacional.

O governo do Amazonas fez chegar às mãos do Presidente Campos Sales uma longa exposição dos fatos que se passavam no Acre, assim como as visíveis consequências da perda da região para a Bolívia. No citado documento enviado ao Presidente da República, o governo amazonense insinuara a possibilidade de eclodir, a qualquer instante, um movimento armado.

O Presidente Campos Sales não tomou a mínima providência, muito menos deu conhecimento a seu “staf” do conteúdo do documento.

Já introduzido no mundo social e jornalístico de Belém, inclusive participando da assessoria do consulado boliviano, Dom Luiz Galvez interessara-se em obter acesso ao teor do plano, cujas bases consistiriam em que os Estados Unidos auxiliariam a Bolívia para conservar sua soberania ao longo dos rios Purus, Acre e Iaco, mediante concessões aduaneiras e territoriais, com o agravante do fiel compromisso americano em fornecer  amparo financeiro e pesado armamento como precaução, à vista eclodir uma guerra entre Brasil e  Bolívia.

Na qualidade de detentor de fluente conhecimento da língua inglesa, Dom Luiz Galvez oferecera-se para preparar a devida versão do aludido documento para o inglês, no que foi aceito.

Durante o transcurso da versão o espanhol percebeu que estava diante de um assunto que contrariava bastante os interesses brasileiros. Denunciar aos quatro cantos um trágico plano, digno de uma condenação pública é, de certa forma compreensível. Entretanto, assumir atitudes ao ponto de trair seus atuais patrões, detentores de seus próprios princípios, inclusive a fraternidade da língua e postar-se, não só na defesa de uma pátria que acabara de conhecer, mas promover e comandar a expulsão dos invasores, é um procedimento de difícil compreensão. Pois ocorrera desta forma: Dom Luiz Galvez exonerara-se da assessoria ao consulado da Bolívia e regressara a Manaus, onde publicara reportagens sobre a ocupação intempestiva dos bolivianos, enquanto era revisto e estudado, para uma perfeita interpretação o texto do Tratado de Ayacucho. Adicionara às denúncias, o caso da canhoneira americana e, sobretudo, o plano da intervenção diplomática e armada americana ao longo dos rios acreanos, em favor da Bolívia.

A fronteira não estava ainda determinada e somente em 1895 os governos do Brasil e da Bolivia deram início à negociação neste sentido. Há quase trinta anos os brasileiros ocupavam, de maneira efetiva, os rios Purus, Alto Acre e Iaco. Fundado nesta ocupação, possuía o Brasil, independente de qualquer outro título, o ‘UTI POSSIDETIS’, um princípio do Direito Internacional.

Seria esse princípio jurídico internacional o argumento a justificar o posicionamento de um espanhol, residente há apenas dois anos, de  defender a soberania  de um país totalmente estranho, no que concerne  às estações climáticas, aos costumes, à língua e gírias diversificadas, a tudo afinal?    Quando da apressada fuga de Buenos Aires, o espanhol pensara em seguir para a India, estabelecer-se em Macau ou viver na Indonésia. No Rio de Janeiro, porém, um compatriota seu, de Bilbao, convencera Dom Luiz Galvez a vir para a Amazônia, pois houvera ficado milionário no Amazonas.


Leia aqui a série


* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Mora em Brasília e escreve o Blog FELICIDACRE.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

RECEITA PARA “BRABO”

FLORENTINA ESTEVES


Cheiro de roupa suja é um pouco demais. Claro, se o tucupi é fermentado, não exala odor de rosas, e seu cheiro próprio sabe a levedo... Mas roupa suja?

- A cidade toda é só roupa suja, dizia-me o paulista, referindo-se a Belém.

- Belém é uma cidade bordada de mangueiras, sombra digestiva, limpa, clara, bonita, lavada quase todos os dias pela chuva da hora do almoço, tem o rio, e a brisa que dele nos traz o cheiro de água limpa (água limpa tem cheiro, sim senhor!).

- Cheiro de roupa suja? Só muita insensibilidade.

Adiantava meus argumentos? E vinham outros. Então era pôr ponto final naquela discussão estéril: tacacá, só para os iniciados.

É como lhes digo. Pensar em tomar aquela beberagem, branco da goma não se misturando com o tucupi amarelo-urina, concentrado, folhas boiando, e mais camarão seco laureando a composição bizarra, tudo numa cuia que compõe o paladar (iniciado que se preze não toma tacacá em tigela), tome coragem.

O ditado que corre Brasis – “chegou ao Pará, parou; tomou açaí ficou”, devia ser “tomou tacacá, ficou”. Não há meio-termo. Que nem o Brasil da “gloriosa” c de 64: ame-o ou deixe-o. Gostar ou não gostar é ali no primeiro gole – ou cusparada.

Como é, mesmo? Assim: numa cuia (geralmente pintada por fora com motivos regionais, cores fortes) deita-se primeiro o tucupi bem quente, fervendo. Depois a goma (procure abaixo como se prepara). Mais um bom punhado de jambu, bastante camarão seco, e molho de pimenta de cheiro a gosto.

Gosto de quê? Meio ácido o tucupi, gosmenta a goma, um tico adocicada. Jambu, a flor dá um pinicado na língua. Camarão seco dando o toque final.

No Acre se toma tacacá. Aliás, o Norte inteiro. Em cada cidade, nas esquinas ou num canto de calçada, a tacacazeira monta seu ponto: fogareiro a carvão, uma bacia e provisão de água para lavar as cuias, mesa, e sobre toalha limpíssima, as cuias, colheres, sal, e molho de pimenta. Mais um ou dois bancos coletivos. É só se abancar. Os fregueses são assíduos e fiéis à “sua” tacacazeira. Lá pelas duas ou três da tarde começam a chegar: prosa em banho-maria, nenhuma pressa.

Quando estava no Ginásio, dona Lídia era minha tacacazeira preferida. Do pátio à sua banca, bastava atravessar a rua. Última aula antes do recreio, cheiro de tacacá invadindo a sala, correria só, ao toque da sineta. E a meninada, em fila, vamos logo dona Lídia, que o recreio acaba! Eu esperava, paciente. Acho que por isso ela me protegia. E ria quando eu lhe pedia não tem ai um jambu com florzinha? – Viciou, mesmo, não? – é que ela havia lido que a florzinha do jambu – parente próximo da maconha – viciava. Sei não. Só sei que na hora do tacacá vinha aquela vontade que não adiantava pôr em infusão. E toda tarde (fomos morar perto do ponto do tacacá da Donana), o cheiro ia me buscar, depois da sesta. Donana, preta velha, gorda, morava no térreo do “Pombal”. Chão de terra batida, escuro e... fedia. Um dia correu a cidade que Donana punha as calcinhas de molho (ou...) no tucupi, para atrair a freguesia. Fiquei um tempo sem tomar tacacá da Donana. Quem disse que aguentei?

É, cheiro de roupa suja, não, mas...



* FLORENTINA ESTEVES é da Academia Acreana de Letras. A crônica Receita para "brabo" está publicada em ESTEVES, Florentina. Enredos da memória. Rio de Janeiro: Oficina do Livro, 1990.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A ERA DOS FESTIVAIS

Luiz Felipe Jardim

Primeira parte


Norman Rockwell - Puppy Love
Logo após a Segunda Guerra Mundial, em 1946, Amilcare Rambaldi, floricultor da cidade de San Remo do norte da Itália que tinha sua economia baseada na produção de flores, propôs a realização de um festival de canções. Uma competição entre artistas do universo musical italiano que promoveria, além do conteúdo artístico propriamente dito, a integração nacional dentre outras coisas.  A idéia foi realizada em 1951 com o primeiro Festival de San Remo, oficialmente Festival da Canção Italiana. Ali estava, simbolicamente, inaugurada uma era de festivais de canções que aconteceriam em vários lugares do planeta e que apresentaria nas vitrines do universo musical, parte significativa do que viria a ser a trilha sonora da vida cotidiana dos anos 50 e 60 de todo o mundo.

E por falar no nosso novo velho mundo, o mundo daquele pós-guerra estava muito mudado. Mais que isso, mudava muito a cada dia. Mais que isso ainda, multiplicava e acelerava suas mudanças.  A insistente convocação de jovens para a guerra, tanto na Europa como nas Américas, afetou seriamente todos os mercados. As mulheres foram para as fábricas, e lá estavam trabalhando. Usavam calças compridas, muitas fumavam em público. Muitos laços que atavam antigos costumes sociais, e normas sociais em geral, afrouxavam-se e novas referências eram estabelecidas. Havia grande mobilidade social.

O recrutamento para a guerra – com suas óbvias consequências - de músicos e de profissionais de segmentos importantes da indústria fonográfica também havia afetado significativamente o mercado musical. As grandes orquestras sofreram um baque irrecuperável. As Big Bands européias praticamente desapareceram e nas Américas perto de 80% deixaram de existir.

Nesse novo cenário o músico solista, acompanhado de pequeno grupo musical, passou a ganhar destaque. Claro, isso era ótimo para o solista que, além de importância, ganhava mobilidade, mais possibilidades para ir até “onde o povo está”. Isso também era ótimo para as gravadoras. Os custos com as gravações foram reduzidos a tal ponto, que os lucros obtidos, em alguns casos, foram dois mil vezes maior do que seriam se utilizada a estrutura necessária para gravar as mesmas músicas com uma big band.

O crescimento do número de estações de rádio em todo o mundo ampliava em muito as possibilidades de divulgação dos produtos da indústria fonográfica, ao mesmo tempo em que levava o músico aos lugares mais imprevistos e insólitos, até onde ele jamais chegaria não fossem os discos e o rádio. O aparecimento do transistor em fins dos anos quarenta e o consequente barateamento dos preços dos rádios receptores popularizaram ainda mais as estações de rádio difusão. As pesquisas pela qualidade da reprodução das músicas gravadas resultaram no surgimento do Long Play, LP, com a tecnologia High Fidelity, e em rápido aperfeiçoamento dos toca discos em geral.

O aperfeiçoamento da eletrônica permitiria o surgimento e popularização de instrumentos musicais como a guitarra elétrica já em fins dos anos 40; do contrabaixo elétrico nos anos 50 e do órgão elétrico também nos anos 50. Amplificadores elétricos e microfones, surgidos nos anos vinte, foram significativamente aperfeiçoados, dando aos pequenos grupos musicais possibilidades de extensão, para sua sonoridade, pouco antes impensáveis.  Por exemplo: dá para pensar em um bom João Gilberto sem um bom microfone?

E por falar em Bossa Nova, num mundo que havia mudado tanto e que mudava tanto e tão rapidamente a cada dia, as experimentações, a busca de soluções para as questões que as novidades do dia-a-dia apresentavam refletiam-se também nas tendências e rumos do mundo da música. Fusões rítmicas densas e ricas estavam acontecendo por todo o planeta e resultariam no surgimento de movimentos musicais, no aparecimento de novidades rítmicas como Be bop, Cool jazz, Rock ‘n roll, Hully Gully, Bossa nova, Twist, etc. Todos fortemente marcados pela sua universalidade e pela importância do solista seja instrumentista ou cantor.

Warhol - James Dean
Na segunda metade dos anos cinqüenta acontece a explosão do rock ‘n ‘roll em todo o mundo. As novidades que o novo ritmo apresentava e, ou, sugeria, impulsionam atitudes, comportamentos, tanto em consonância como em desacordo com suas proposições. Embates acalorados ultrapassam os limites puramente musicais e estendem-se às diversas instâncias da vida coletiva. “O que me pegou foi tudo, não só a música. Foi todo o comportamento rock. Porque antes a garotada não era garotada, seguia o padrão do adulto, aquela imitação do homenzinho sem identidade. Mas quando Bill Haley chegou com Rock around the clock, foi uma loucura para mim. A gente quebrou o cinema todo, era uma coisa mais livre, era minha porta de saída, era minha vez de falar, de dizer ‘eu estou aqui’. Eu senti que ia ser uma revolução incrível. Na época eu pensava que os jovens iam conquistar o mundo”, disse Raul Seixas (Raul Seixas por ele mesmo – Martin Claret 1990).  “Trata-se, Excelência, desta famigerada inovação dos nossos tradicionais princípios de moralidade pública por uma importação infeliz de película e discos do novo ritmo norte-americano denominado rock and roll... O rock, por motivos que um psiquiatra melhor desvendaria, provoca verdadeira explosão libidinosa, contagiante ao extremo... O clima é de insegurança nessa época pré-carnavalesca e para assegurar a tranqüilidade da família paulista peço que determine à polícia providências enérgicas de molde a coibir tanta desordem e tamanha afronta aos princípios que todos nós seguimos”. Assim solicitava um juiz de menores ao governador de São Paulo em 1957. Jânio Quadros, o governador, assim respondeu: “Suspender, imediatamente, os bailes em que for tocada a música, nos festejos de carnaval. Avisar todos os empresários e responsáveis, e transmitir as mais rigorosas instruções à polícia. Nenhuma contemplação”. E assim São Paulo ficou sem rock ‘n’ roll nos salões de carnaval de 57. E não foi só SP, O Rio de Janeiro, capital do Brasil, seguiu a mesma orientação e també ficou sem rock no carnaval. Nos Inícios dos anos 60, o Papa João XXlll irá condenar publicamente o Twist um subgênero do rock and roll.

Warhol - Volkswagen Tp
Mas, o mundo estava bem mais ágil e colorido, e voava bem mais alto. É que se vestia e se movimentava de maneiras bem diferentes. Além das calças compridas femininas, blusões de couro, camisas coloridas, brim coringa, calças rancheiras coloriam os espaços onde as pessoas desfilavam seu dia-a-dia. Nas ruas bem menos congestionadas, conviviam caríssimos Cadillacs com os muito mais baratos Volkswagens, além das motocicletas e lambretas. Nos céus, os aviões a jato faziam a festa. O Boeing 707 já transportava seus passageiros de lá para cá e vice versa, mas Yuri Gagarin iria bem mais longe e foi o primeiro homem a ir ao espaço. A bordo da nave Vostok I, fazia seu vôo orbital de 48 minutos, em 1961, quando anunciou: “a Terra é Azul”. O azul da Terra e do céu atraiu às mulheres, e Valentina Tereshkova foi à órbita em 1963, de quebra deu 46 voltas ao redor da Terra.  Por fim, Armstrong chegaria à Lua em 69 naquilo a que se viria a chamar de ‘um grande salto para a humanidade’.

Pisando em terra firme, a Televisão apresentava sua boa imagem ao mundo.  Baby face, sedutora irresistível, bem recebida e desejada, em dez anos estava disseminada nas principais cidades países de todos os continentes. Não só refletirá imagens, mas as produzirá junto com as imagens que fará surgir nas paisagens da vida social.

Esse cenário de novidades apresentava excelentes oportunidades para a economia européia devastada pela guerra recente. A inversão de capitais na área cultural foi de fundamental importância para a recuperação econômica da Europa, assim como para o nascimento de novas realidades culturais que resultariam, por exemplo, no aparecimento dos grupos musicais como os que promoverão a “Invasão Britânica”, a invasão do rock britânico aos EUA, berço original do rock ‘n’ roll.

A força de expansão desses movimentos atingirá fortemente lugares longínquos como as cidades da Amazônia, onde, em Rio Branco, um dos filmes mais assistidos e pretendidos pela população em meados e fins dos anos 60 era ‘a fita’ Dio come ti amo, com a cantora Gigliola Cinquetti que apresentava, entre outras, a música vencedora do Festival de San Remo de 1966 e que dá título ao filme, e a vencedora de San Remo e do Eurovision de 1964, No ho l’e tà. Rio Branco não tinha TV, por isso bebia no cinema e nas revistas as imagens referentes a parcela dos sons que ouvia no seu dia-a-dia. Via na tela, e impressa em cores, as imagens representativas dos sons que ouvia nos rádios e vitrolas, todos os dias. Como as imagens não estavam tão facilmente disponíveis, fazia filas imensas para, no cinema, assistir a Gigliolla, Gianni Morandi, Roberto Carlos, todos vencedores em San Remo e participantes de outros festivais internacionais e nacionais.

Esses são aspectos do quadro onde aconteciam os primeiros festivais. O primeiro deles, o de San Remo como já disse, aconteceu em 1951, sendo transmitido pelo rádio. E a partir daí em todos os anos. Em todos os primeiros anos o Festival teve significativo crescimento e passou a ser transmitido também pela TV em 1955, ano da inauguração da RAI.  A importância da TV para o festival supera a do rádio. A imagem televisiva passa a focar e a definir a imagem da nova era.

No ano de 1956, acontece o primeiro Festival Eurovisão da Canção. Transmitido pela TV e por rádio para vários países da Europa, teve a participação de sete países, seis deles envolvidos diretamente na segunda guerra mundial. Até hoje, quando ainda acontece anualmente, já participaram do Festival mais de quarenta países e a estrutura para cobertura de TV e rádio atinge uma área onde habitam mais de um bilhão de pessoas.

Mas ainda estamos em 1956, e a população de toda a Terra ainda beirava os três bilhões de habitantes. A grandiosa maioria crianças e jovens. Crianças e jovens inseridos num caldeirão de consumo crescente onde a economia se nutre de novidades. Jovens + novidades = lucros. Muitos lucros. Lucros até demais. A sociedade de consumo se afirmava e trazia com ela a cultura Pop que se afirmaria no cenário popular da cultura mundial por muito mais tempo do que os meros 15 segundos de fama dos seus atores.

Warhol - Marilyn
Pela primeira vez na história da humanidade recente, o jovem assumiria um papel tão importante na produção e na composição de tantas paisagens sociais positivas. Seja no teatro, seja na música, seja na pesquisa industrial, seja com as novas posturas acadêmicas e científicas que resultaram, por exemplo, nas soluções de gravíssimos problemas de poluição ambiental na cidade de Londres no início dos anos 60, os jovens ganhavam cada vez mais importância como segmento etário próprio, particular, com características e vontades próprias. O crescimento dessa importância dava à juventude a possibilidade de ampliar a consciência de si própria; de desenvolver e fixar suas linguagens particulares, seu repertório comportamental; de universalizar suas reivindicações.  Dentre elas, e que efetivamente foi conquistada, estava o direito de ser jovem por mais tempo. De poder viver por mais tempo e com menos pressão essa fase especial e especialmente criativa da moderna vida humana. Em 1960, 70% das mulheres entre 20 e 24 anos eram casadas. Em 2000, somente 23% dessa mesma faixa havia casado. Como dizia Raul Seixas logo ali acima “antes a garotada não era garotada, seguia o padrão do adulto, aquela imitação do homenzinho sem identidade”.

O Garoto e o Fantoche 
Douanier Rousseau
É claro que as grandes corporações econômicas lucravam muito com tudo isso, e ainda usavam os jovens, via recrutamento militar obrigatório, como produtos indispensáveis, matéria prima viva e insubstituível para as atrocidades e matanças das guerras, como as da Coréia e Vietnã, que ainda aconteciam e aconteceriam naquela atmosfera de permanente guerra fria que pairava sobre o mundo.

Mas a juventude havia chegado com nova fisionomia ao novo mundo. Parcela considerável desses jovens não mais aceitaria passivamente a autoridade de uma geração educada por rígidos conceitos de disciplina, de rigorosos princípios de autoridade, de hierarquia, ordem e progresso que os levara ao fascismo, ao nazismo, à guerra e logo os levaria às ditaduras militares. Afirmando seu irremediável comprometimento com o futuro, os jovens indagavam e respondiam a perguntas sobre coisas como as que mostram esse excerto da letra de uma canção de 1960:


Dali - Meditative Rose
Flores...  A ‘Era dos Festivais’, nasceu numa cidade que as cultivava. Suas cores reais e simbólicas tingirão as cores interiores das veias da humanidade. O rubro, mais vivo que aí fluirá, atingirá as revoluções que aconteciam, dando a elas a tonalidade e o volume do som de uma trilha sonora fantástica jamais vista ou ouvida em todos os tempos. Na verdade, um verdadeiro arco-íris sonoro que agora pairava sobre os horizontes da humanidade.

E para não dizer que não falei das flores...  bem, isso é assunto para o próximo capítulo, não percam, aguardem. Até breve, neste mesmo bat blog, nesta mesma bat web, neste mesmo bat canal...


* LUIZ FELIPE JARDIM é historiador e músico acreano.