sexta-feira, 3 de agosto de 2012

RECEITA PARA “BRABO”

FLORENTINA ESTEVES


Cheiro de roupa suja é um pouco demais. Claro, se o tucupi é fermentado, não exala odor de rosas, e seu cheiro próprio sabe a levedo... Mas roupa suja?

- A cidade toda é só roupa suja, dizia-me o paulista, referindo-se a Belém.

- Belém é uma cidade bordada de mangueiras, sombra digestiva, limpa, clara, bonita, lavada quase todos os dias pela chuva da hora do almoço, tem o rio, e a brisa que dele nos traz o cheiro de água limpa (água limpa tem cheiro, sim senhor!).

- Cheiro de roupa suja? Só muita insensibilidade.

Adiantava meus argumentos? E vinham outros. Então era pôr ponto final naquela discussão estéril: tacacá, só para os iniciados.

É como lhes digo. Pensar em tomar aquela beberagem, branco da goma não se misturando com o tucupi amarelo-urina, concentrado, folhas boiando, e mais camarão seco laureando a composição bizarra, tudo numa cuia que compõe o paladar (iniciado que se preze não toma tacacá em tigela), tome coragem.

O ditado que corre Brasis – “chegou ao Pará, parou; tomou açaí ficou”, devia ser “tomou tacacá, ficou”. Não há meio-termo. Que nem o Brasil da “gloriosa” c de 64: ame-o ou deixe-o. Gostar ou não gostar é ali no primeiro gole – ou cusparada.

Como é, mesmo? Assim: numa cuia (geralmente pintada por fora com motivos regionais, cores fortes) deita-se primeiro o tucupi bem quente, fervendo. Depois a goma (procure abaixo como se prepara). Mais um bom punhado de jambu, bastante camarão seco, e molho de pimenta de cheiro a gosto.

Gosto de quê? Meio ácido o tucupi, gosmenta a goma, um tico adocicada. Jambu, a flor dá um pinicado na língua. Camarão seco dando o toque final.

No Acre se toma tacacá. Aliás, o Norte inteiro. Em cada cidade, nas esquinas ou num canto de calçada, a tacacazeira monta seu ponto: fogareiro a carvão, uma bacia e provisão de água para lavar as cuias, mesa, e sobre toalha limpíssima, as cuias, colheres, sal, e molho de pimenta. Mais um ou dois bancos coletivos. É só se abancar. Os fregueses são assíduos e fiéis à “sua” tacacazeira. Lá pelas duas ou três da tarde começam a chegar: prosa em banho-maria, nenhuma pressa.

Quando estava no Ginásio, dona Lídia era minha tacacazeira preferida. Do pátio à sua banca, bastava atravessar a rua. Última aula antes do recreio, cheiro de tacacá invadindo a sala, correria só, ao toque da sineta. E a meninada, em fila, vamos logo dona Lídia, que o recreio acaba! Eu esperava, paciente. Acho que por isso ela me protegia. E ria quando eu lhe pedia não tem ai um jambu com florzinha? – Viciou, mesmo, não? – é que ela havia lido que a florzinha do jambu – parente próximo da maconha – viciava. Sei não. Só sei que na hora do tacacá vinha aquela vontade que não adiantava pôr em infusão. E toda tarde (fomos morar perto do ponto do tacacá da Donana), o cheiro ia me buscar, depois da sesta. Donana, preta velha, gorda, morava no térreo do “Pombal”. Chão de terra batida, escuro e... fedia. Um dia correu a cidade que Donana punha as calcinhas de molho (ou...) no tucupi, para atrair a freguesia. Fiquei um tempo sem tomar tacacá da Donana. Quem disse que aguentei?

É, cheiro de roupa suja, não, mas...



* FLORENTINA ESTEVES é da Academia Acreana de Letras. A crônica Receita para "brabo" está publicada em ESTEVES, Florentina. Enredos da memória. Rio de Janeiro: Oficina do Livro, 1990.
Postar um comentário