quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A ERA DOS FESTIVAIS

Luiz Felipe Jardim

Parte II


Durante o desenrolar da segunda Guerra mundial, as grandes divisões da Juventude Hitlerista, crianças e jovens alemães com rígida formação militar, eram utilizadas, nos esforços de guerra das mais variadas formas que iam desde estafetas nas cidades, ao de combatentes no front. Conforme perdiam a guerra, num verdadeiro culto a Thánatos, que era a verdadeira essência do Nazismo, os contingentes de Jovens Hitleristas convocados para substituir os que pereciam nas funções essenciais eram de jovens cada vez mais moços. Quanto mais novos, mais leais aos princípios nazistas.

Enquanto Berlim era cercada pelos exércitos aliados, Hitler fazia sua última aparição pública numa cerimônia em que jovens hitleristas eram condecorados por atacarem tanques inimigos. Entre os condecorados estavam meninos de 12, 13 e 14 anos. Todos obstinados. “Estou convencido de que seremos vitoriosos na luta, acima de tudo por causa da juventude alemã e, em particular, por causa de vocês, meus meninos”. ‘Meus meninos’, foram as duas últimas palavras ditas em público por Hitler. O destino dos últimos milhares da Juventude Hitlerista estava selado: foram designados para fazer a defesa de Berlim. “Para eles a convocação para o ‘sacrifício supremo’ não era uma frase oca... Eles queimaram com desejo de provar que eram soldados... queriam manter as promessas feitas em suas canções”. Queriam manter as promessas feitas em  suas canções. Disse Melita Maschamann membro da Liga das Moças Alemãs, braço feminino da Juventude Hitlerista. Berlim foi, então, ocupada.

Salvador Dali - Study for the Decoration
Lobisomens era um grupo de elite com cerca de 200 Jovens Hitleristas, que fora treinado para atuação em guerrilhas no caso de derrota da Alemanha. Melita Maschmann fazia parte desse grupo que tinha base nos Alpes Bávaros. Certo dia, poucas semanas após a rendição da Alemanha, andando sozinha nas montanhas, ela deparou-se com algumas crianças que brincavam ‘de jogar bola’. Como não tinham bola para brincar e como eram crianças, brincavam de bola ‘jogando nabo’... “Vi-me observando crianças que brincavam nos arredores de uma aldeia. Elas jogavam um nabo umas para as outras como se fosse uma bola e riam às gargalhadas”... De repente a paisagem se alterou, uma janela se abriu e da janela saiu... música, uma melodia de Bach... “uma janela atrás das crianças se abriu e eu escutei, primeiro de leve, o grande ricercar da Oferenda Musical. Absorvendo a música, junto com o perfume dos arbustos em flor e as risadas das crianças, senti como se tivesse despertado de um feitiço ruim, no qual eu estivera atormentada por terríveis fantasmas e demônios infernais”.

“Dê-me oito anos para educar as crianças e elas serão para sempre bolcheviques”, disse Lenin. Hitler seguiu a lição e fez milhões e milhões de, literalmente ‘para sempre’ nazistas.

Melita escapou. O destino é o acaso que acontece, e naquele dia o acaso aconteceu. Apresentou-se como um raio suave que se lança sobre uma janela que se abre e, na forma de música, e para quem a ouve, faz ver. Naquele dia ela ouviu e viu o riso e o rosto de uma alegria natural e humana que desconhecia; ouviu, viu e sentiu o sopro sereno que sopra do lado alegre da vida; respirou o perfume das flores e sorveu novos sentidos no perfume que absorvia. Naquele dia em que a Oferenda Musical soou voando de uma janela que se abria, naquele dia o mundo mudou...

Norman Rockwell - Puppy Love
A janela se abria e mostrava o novo mundo que surgia... Do outro lado da vida...

Nas décadas de 1950 e de 1960, algo assim acontecia por tudo o mundo. Setores sociais secularmente oprimidos e marginalizados emergiam em importância na vida social, graças às possibilidades conquistadas e ou vislumbradas nas janelas e nas brechas do sistema capitalista. O mundo se transformava, entre outras coisas, pela força das forças sociais que se acreditavam na busca de novos valores e comportamentos, na busca de novas concepções de vida, de outras explicações do mundo e mesmo da felicidade. Resolvendo velhos problemas e acrescentando novos à vida social, o mundo se transformava realçando novos detalhes, que realçavam suas velhas feições. Um novo mundo surgia realçando velhos detalhes que realçavam suas novas fisionomias.

Nesse quadro de intensas mudanças, as classes populares e sua juventude cresciam em importância na construção das paisagens da vida social. O rádio ampliara sua voz, os jornais as suas falas, a TV e o cinema mostravam seus rostos, as revistas se nutriam com sua vitalidade. Vitalidade adquirida com o poder de consumo que a economia consumista gerava para dele se alimentar. Mas nem só da lógica do mercado vive a expansão do mercado, esse poder era conquista também. Conquista das classes trabalhadoras que, nas suas lutas, contraditoriamente, ampliavam o mercado capitalista.

Salvador Dali - Aurora depois de Michelangelo
Conforme ocupavam seus novos espaços físicos e imateriais, juventude e classes populares revolviam todo e qualquer solo onde pusesse seus pés, mãos, olhos ou espíritos. Tudo o que compreendiam e não compreendiam deveria passar pelo crivo de tribunais interiores, populares ou anônimos, inconscientes, apaixonados, radicais. Tudo deveria ser repensado, questionado, e uma nova seleção de valores, políticos, éticos e estéticos, deveria garantir mais felicidade a todos. A validade de todos os consensos estava sob fogo serrado.

Nesse quadro de novidades constantes, uma novidade se apresenta: grande parte do ‘novo’ era apresentado nas manifestações artístico-culturais e em outras atividades dos movimentos de juventude. Os festivais de música, como os de San Remo, Monterrey Pop e os Festivais de Música no Brasil dos anos 60, refletiam e simbolizam a existência desses fóruns interiores e coletivos, esses tribunais inconscientes, apaixonados e radicais, que repensavam, questionavam, selecionavam novos valores políticos, estéticos. Por isso eram palco para grandes disputas não só musicais, mas de tendências sociais que expressavam diferentes ideologias, diferentes concepções de mundo, e envolviam as sociedades em muito mais do que uma simples manifestação de gosto musical.

Isso era bom para todos. Havia boa música para ouvir, ou para vaiar; havia bons espaços e motivos para grandes reuniões de gente que ‘brigava em paz’; havia largo espaço na mídia; havia trabalho para grande número de artistas e para atividades de apoio. Havia grandes oportunidades para negócios, enfim, que, em última instância, davam vida material aos festivais.

Uma maior integração entre as mídias, além de crescente sofisticação das indústrias de entretenimento, permitia que as tendências sociais fossem melhor observadas e analisadas. Os estilos jovens eram focados, reproduzidos e depois propagados por todo o mundo, em revistas, anúncios, programas de rádio, filmes ou pela indústria musical. Por exemplo: Os testes nucleares feitos pelos EUA no Atol de Bikini no Pacífico de 46 a 58 resultaram no nome do traje de banho feminino, surgido em fins dos anos 40. O criador do traje, em claro jogo de marketing, pôs esse nome por achar que ele “provocaria reações explosivas como as aconteciam em Bikini”. Naturalmente que houve muita explosão e celeuma em torno da nova peça, aliás, das duas peças. Em muitos lugares ela foi radicalmente proibida. Foi proibida de ser usada no concurso de Miss Universo de 51. Nos EUA demorou mais de dez anos para ser aceita.

Em 1960, um jovem cantor de 16 anos, Brian Ryland, nos EUA, lançou a música Itsy Bitsy Teenie Weenie Yellow Polka Dot Bikini feita por Paul Vance para sua filha pré adolescente que era muito tímida para usar biquíni. A música rapidamente foi sucesso mundial e foi gravada em vários idiomas. O enredo da canção é bem simples: 1 na praia, a jovem tem medo de sair do armário onde vestiu seu biquíni; 2 ela vai para a areia, mas fica sentada enrolada em um cobertor; 3 ela finalmente entrou no mar, mas com medo de sair, fica na água apesar de estar "ficando azul ". Essas três versões da mesma canção nos dão uma idéia de como a música foi percebida e divulgada em todo o mundo. Uma da França, de 60, outra da Finlândia, de 61, e outra dos EUA, de 90.

Pouco depois, em 1962 a banda de rock Beach Boys já atraia as atenções do mundo para as praias da Califórnia, recheadas de meninas que usavam biquíni. O biquíni só tendeu a diminuir e nunca aumentou de tamanho, só de preço.

Imagine uma adolescente trabalhadora que ouviu, no rádio, essa música pela primeira vez. Achou a letra divertida, o ritmo interessante, não mais. No fim de semana ela assiste a um filme em que essa música é tema central numa história de amor entre adolescentes. Ela se ‘emociona’ com o filme e compra o disco que contém a música que continua a tocar insistentemente no rádio. Na semana seguinte ela compra uma saia no estilo da saia que a artista adolescente do filme usava. Também percebe que suas amigas usam algumas palavras novas, gírias, que são usadas pelas meninas no filme e que são comentadas nas revistas e até mesmo usadas em publicidades. A cada momento, a música de pouco mais de dois minutos, vai ganhando diferentes e diversos significados. De algo interessante, passou a algo ‘emocionante’, depois foi inspiração para que comprasse o disco, enfim, aos conteúdos psíquicos que a música inicialmente lhe despertara, foram-se acrescentando outros conforme ela tomava contato com outras dimensões, com novas esferas da canção ou de seus derivados. Quase todos estimulando impulsos de consumo, como a ‘entrada’ do cinema, o vestido, o disco, o aparelho para reproduzir o disco, a revista, etc. Ou seja, há muito mais do que música no mundo sonoro da imaginação, há ‘investimento subjetivo’, invisível, mas atuante e prático. Há nova e eficiente engenharia social. Nova e sofisticada engenharia mental. Tudo isso cabendo numa canção de pouco mais de dois minutos.

Bens e serviços antes exclusivos de pequenas parcelas da população mundial eram agora produzidos em massa e distribuídos nas extensas redes da sociedade de consumo por todo o globo. As multinacionais (termo surgido em 1960), atraídas por governos que lhes ofereciam estabilidade política, mão de obra barata e bons mercados consumidores, cruzavam as estradas e punham seus automóveis em marcha pelo planeta. Com a energia a preço de banana, (proporcionada pelo preço do petróleo a menos de dois dólares o barril), o automóvel era um dos carros-chefes propulsores da economia. Junto à indústria automobilística neste comando, e se beneficiando do barato da energia, estava a indústria de produtos eletrônicos, largamente consumidos pelos jovens. A relativa ‘paz’ desse período garantiria ao sistema capitalista, e ao ‘socialista’ de então, cerca de trinta anos (1945 a 1975) de prosperidade sem crises econômicas significativas que lhe sustassem o ‘desenvolvimento’. A produção mundial de produtos manufaturados cresceu quatro vezes e o comércio de manufaturados aumentou dez vezes.

O sucesso de Roberto Carlos em 1965 com a canção O Calhambeque, uma versão de Road Hog, ilustra a importância que a indústria automobilística e a de produtos eletrônicos passam a ter para a economia do Brasil, assim como aspectos das representações simbólicas que o carro passa a ter para parcela dos jovens brasileiros.

Salvador Dali - Hercules
Os altos níveis de produção e consumo criam profundo abismo entre as novas gerações e as anteriores. As mais antigas estavam marcadas pela recessão, guerra, racionamentos, sacrifícios. As mais novas cresciam num mundo consumista, de abundância, como raramente aconteceu na história. Numa certa medida, os mais antigos achavam que as atuais bonanças eram fruto de seus esforços, e sacrifícios no passado, o que contribuía para o aumento de tensões entre as gerações.

“No final os velhos sempre ganhavam”. Falou o guitarrista Frank Zappa, em fins dos 70.

Quando da guerra do Vietnã, a participação dos jovens foi de fundamental importância nos diversos fronts: o dos combates; os de apoio; e nos fronts dos contrários à guerra.

Nestes, havia campanhas intensas, que resultaram na enorme adesão da população às campanhas atibelicistas nos anos finais do conflito.

Andy Warhol - Mick Jagger
Jovens músicos participaram ativamente desse processo nos diversos canais abertos pelos festivais de música não competitivos (como Monterrey Pop e Woodstock) que atraiam multidões aos seus interiores, onde, além de música e outras expressões artísticas, se denunciavam os horrores e se exigia o fim das guerras, sobretudo a do Vietnã. A banda de rock The Rolling Stones era uma das mais famosas, ativas... e ricas desses grupos. Era referência para as lutas mais ousadas da juventude. Ídolos da contestação.

Keith Richards, guitarrista dos Stones, disse em entrevista na década de 80, que, leigos que eram nas questões financeiras, o grupo havia deixado a administração das suas ‘economias’ a uma corporação especializada que reinvestia o ‘dinheiro do grupo’ - que não era pouco. Até ai tudo bem, tudo normal. Os artistas cuidavam da parte artística e os economistas da ‘corporação’ cuidavam da parte financeira. E ‘os caras mandavam ver’ eram competentes, os lucros eram astronômicos! Acontece que a tal ‘corporação’, que lucrava com o lucro dos Stones, reinvestia os seus lucros na produção de... armas, armas de guerra...!!! Para serem usada aonde? Pois é, isso mesmo. Ou seja, enquanto os Rolling Stones ‘ralavam’ em combates simbólicos contra a guerra do Vietnã e mobilizavam pessoas no mundo para os movimentos pacifistas, sem saber, estavam financiando as atrocidades a que queriam pôr fim. Os lucros que ganhavam com suas músicas que procuravam defender a vida de jovens que não queriam matar, davam lucros à indústria da guerra que matava muitos daqueles mesmos jovens que suas músicas queriam defender. Indiretamente, ricos e pacifistas, animavam a guerra que queriam acabar. “A primeira vítima da guerra é a verdade” disse o senador americano Hiram Johnson.

Nossas vidas são feitas de ilusões. Algumas delas nós chamamos de realidade, muitas vezes, seu lado bom é quase pior que o ruim.

Rejeitando os valores dos adultos, os jovens pensavam que juventude por si só transformaria o mundo. Mas a juventude estava solta num mundo feito para os adultos, não para ela. Ademais, os negócios resultantes das atividades dos jovens haviam crescido muito, havia muito dinheiro envolvido, dinheiro que poderia gerar muito mais dinheiro. E isso não era coisa para adolescentes idealistas, isso não era ‘entretenimento’. Era negócio, e de ‘gente grande’ e ‘graúda’, não entretenimento de adolescentes filhos de operários.

Naquele dia em que Melita Machmann viu o outro mundo através da janela, ela ouvia o primeiro movimento da Oferenda Musical. Bach compôs essa peça em resposta a uma tentativa de humilhação que lhe foi feita por Frederico ll da Prússia que acreditava ser impossível a aplicação das regras da polifonia ao tema que, de súbito e em público, propôs a Bach. De súbito e em público o compositor improvisou um ricercar para três vozes, para espanto de todos. O Imperador dobrou o grau de dificuldade do desafio fazendo com que Bach solicitasse um tempo para concluir o que lhe era pedido.

Naturalmente que Bach, já com 62 anos, 59 de exuberante genialidade, percebera as intenções pouco nobres do rei guerreiro, por isso, buscou a melhor resposta. Ao fim de duas semanas, o compositor apresentou a ‘Oferenda Musical’ como solução ao desafio. O primeiro movimento da obra é o Grande ricercar composto para seis vozes, que, simultaneamente ‘cantam melodias diferentes’ na mesma música. Era esse o desafio de Frederico, o ricercar é um tipo de música homofônica, diferente da polifônica, por isso ele acreditava ser impossível a aplicação das regras da polifonia a um ricercar. Bach mostrou que isso era possível. As seis vozes que entoam melodias diferentes na mesma música trazem implícita a mesma mensagem que ecoa dos corais e orquestras: a de que a harmonia só existe porque existem as diferenças. A harmonia é a reunião dos diferentes cantos que entoam uma só melodia, é o ajuntamento das diversas melodias que dão vida a uma música. Sem as diferenças não existiria a harmonia. Sem harmonia não existiria música. Sem música e sem harmonia não existiria humanidade.

Ao superar o desafio, no séc. XVII Bach cumpria as promessas feitas em suas canções... Conseguiriam os nossos bravos e intrépidos Rolling Stones fazer o mesmo? Conseguiriam os nossos bravos rockeiros e pacifistas do séc. XX cumprir as promessas feitas em suas canções? Conseguiriam, as flores, vencer os canhões?

Não perca no próximo episódio, caminhando e cantando e seguindo...
Breve, nesse mesmo bat blog, nesse mesmo bat canal.


Cenas dos próximos capítulos


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