segunda-feira, 13 de agosto de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO - XII

José Augusto de Castro e Costa


Dom Luiz Galvez Rodrigues de Aria não gostava de americanos e possuía um sentimento de que este povo, em nome da humanidade aproveitar-se-ia do desespero de qualquer outro, como guardara ele em seu íntimo, flagrantes da guerra espanhola-cubana, quando os Estados Unidos, interessados no açúcar cubano trucidaram os soldados espanhóis em retirada pela costa de San Tiago de Cuba.

Para Dom Luiz Galvez, os americanos se consideravam os novos cavaleiros andantes e, acima de tudo, tinham muito dinheiro, o que motivava um espanhol aventureiro a enfrentá-los em quaisquer circunstâncias.

Os brasileiros mais chegados ao seu circulo de amizade apoiavam o Acre como uma causa brasileira, diferentemente do Governo Federal, que considerava a região acreana como território das Bolívia.

Em Belém, seus amigos queriam que Dom Galvez subtraísse do Consulado boliviano o documento relativo ao contrato com os americanos, o qual, depois de muita relutância, colocando a amizade acima de qualquer veleidade política, resolveu aceitar o serviço, desobrigando-se de envolver-se em outros assuntos pertinentes. Até porque, tratando-se de um roubo efetuado por um estrangeiro, estaria ele sujeito às leis de extradição.

Entre os amigos, porém, encontrava-se uma filha de Eva, de relacionamento íntimo, por quem Dom Luiz Galvez nutria determinado fascínio que comumente o levava à concórdia, sentimento que, invariavelmente, o colocava em algum envolvimento.

Suas amizades em Belém, não só o influenciaram a tomar posse do secreto dossiê, o que ocorrera na calada de uma noite em simulado assalto ao Consulado boliviano, como, mais tarde, o estimulariam a assumir a coordenação providencial de algum movimento concernente à questão do Acre.

Os termos do aludido documento eram, textualmente, os seguintes:

“State Department, Foreign Office

Os Estados Unidos da América, por via diplomática, da República do Brasil, questionarão o reconhecimento dos direitos da República da Bolívia nos territórios do Acre, Purus e Iaco, hoje ocupados de acordo com os direitos estabelecidos pelo Tratado de 1867.

Os Estados Unidos da América se comprometem a facilitar à República da Bolívia o numerário bélico de que esta necessitar em caso de guerra com o Brasil.

Os Estados Unidos da América exigirão que o Brasil nomeie dentro do corrente ano uma comissão que, de acordo com a Bolívia, deslinde as fronteiras definitivas entre o Purus e o Javari.

O Brasil deverá ceder a livre navegação dos afluentes do rio Amazonas aos barcos de propriedade boliviana, assim como o livre trânsito pelas alfândegas do Pará e Manaus às mercadorias destinadas aos portos bolivianos.

Em recompensa aos seus bons ofícios a Bolívia concederá aos Estados Unidos da América o abatimento de 50% dos direitos da borracha que saia com destino para qualquer parte da dita nação e este abatimento durará pelo prazo de 10 anos.

No caso de ter que apelar pela guerra, a Bolívia denunciará o tratado de 1867, sendo então a linha limítrofe, da Bolívia a Boca do Acre, e entregará o território restante, isto é, a zona compreendida entre a Boca do Acre e a atual ocupação, aos Estados Unidos da América em livre posse.

Washington, 9 de maio de 1898.  (SOUZA, Márcio. GALVEZ Imperador do Acre. 17ª Edição. Pg.54).

Foi, então em Manaus, que levado pela ex-freira denominada Joana, de quem fora cúmplice partícipe de uma trama, compareceu a uma reunião, na qual conhecera o Governador do Amazonas, Coronel Ramalho Júnior, e o ouvira apoiar e oferecer cinquenta mil libras esterlinas a quem se dispusesse a conquistar o Acre do intruso domínio boliviano, declarar o território independente, formar um governo e tentar o reconhecimento internacional.

A nacionalidade espanhola de Dom Galvez, certamente, afastaria qualquer suspeita de participação brasileira na aludida intervenção, podendo assim, após a efetivação da conquista, solicitar-se a anexação do Acre ao Brasil. A concordância foi de uma unanimidade solenemente sonora, com entusiasmado brinde erguido pelo Governador Ramalho Junior.

Dom Luiz Galvez tinha ciência, evidentemente, até por possuir elevado conhecimento geral, das etapas para a formação estrutural de um movimento revolucionário, de sua organização e método. Mas para ele, tudo parecia fadado a ocorrer com rapidez meteórica, a exemplo de seus relacionamentos, de suas atitudes, de suas opções. Para levar a efeito a revolução a seu encargo, ele teria apenas trinta dias.

É verdade que, para um movimento revolucionário, não é levado em conta o tempo para sua preparação.  Contudo, é injustificável o menosprezo, a negligência e, sobretudo, o desprovimento do mínimo de estratégia para o devido enfrentamento.

Dom Luiz Galvez tinha conhecimento de que, em Puerto Alonso, iria enfrentar cerca de trinta bolivianos, portadores de armamento de calibre desprezível.  Imaginou não haver grandes dificuldades em enfrentar tão reduzido e desarmado contingente. Em assim sendo, recomendou ao seu mais aproximado amigo, o poeta e jornalista TH VAZ, pseudônimo de Thaumaturgo Vaez, a proceder ao recrutamento de voluntários, o que justifica da denominação de “Revolução dos Poetas”.

Sem fazer-se de rogado e sempre pronto para atender ao amigo, Th Vaz arregimentou uma ardorosa tropa, composta de estudantes de infinitas repetências, poetas inéditos, advogados trapaceiros, ociosos, todos irmanados pela incurável insônia dos boêmios.

Contando com o recrutamento de voluntários, ainda que classificados ironicamente pela inaptidão bélica, Dom Luiz Galvez parte para o Acre acrescentando à sua tropa revolucionária, grande parte de artistas de uma companhia lírica de Ópera, que encontrava-se  em demorada apresentação no Teatro Amazonas. A função das artistas estivera concentrada no serviço de informações. Fazia parte do abastecimento da tropa, evidentemente, inúmeras caixas de cerveja das marcas São Gonçalo, Munich e Pérola, várias caixas de champanhe, uísque e, para uso exclusive do Comandante-em-Chefe, Dom Luiz Galvez, uma caixa de xerez.

O governo amazonense houvera fretado o gaiola “Esperança” para o transporte da tropa mas, também, o colocara à disposição de uma comitiva boliviana vinda de Belém, que conhecia bem Dom Galvez, e ainda o procuravam para acerto de contas quanto à publicação do contrato com os americanos, achando-se entre eles  os Cônsules da Bolívia e dos Estados Unidos.  Por esta razão, a fim de não ser descoberto, o aventureiro espanhol embarcou dentro de um caixão de defunto, destinado ao seringal Versalhes, propriedade do Coronel Pedro Paixão, localizado a duas horas de Puerto Alonso.  No gaiola o caixão ficara acomodado num camarote reservado pela viúva, que não era outra senão a ex-freira Joana. A viagem transcorreu sem que a comitiva boliviana descobrisse a identidade do viajante falecido, não obstante fugaz intriga quanto a grande movimentação ao camarote da viúva, onde fora posteriormente contabilizado a ingestão de oito caixas de uísque. O proprietário do seringal Versalhes, grande amigo do poeta Th Vaz demonstrou imensa satisfação em revê-lo e em receber as visitas naquele lugar isolado, onde exercia uma liderança natural e, certamente, viria aderir ao plano revolucionário, colocando às ordens de Dom Galvez, seus empregados na categoria de praças.

Como considerava ridícula a milícia boliviana, Dom Galvez debatera o plano de iminente ataque para ser efetivado ao amanhecer do dia, cercando a Delegacia, onde prenderiam os milicianos, dominariam os pontos-chaves e imediatamente fariam o comício na praça.

Após a prisão de todos os bolivianos e seus superiores, inclusive os dois diplomatas, Dom Luiz Galvez apossou-se de Puerto Alonso e ordenou que o seu Batalhão dos Inconfidentes procedesse à guarda dos prisioneiros.

Com a população do lugarejo totalmente nas ruas, foram procedidos o devido arriamento da bandeira boliviana e imediatamente hasteada a bandeira acreana, confeccionada pela ex-freira e uma cantora lírica francesa, cujo desenho apresentava dois  retângulos, um azul e outro branco, no qual  fulgurava ao meio uma estrela, representando a esperança dos revolucionários acreanos.

A partir da sensível movimentação de moradores e revolucionários, ostensivamente, ladeado pelo poeta Th Vaz e o seringalista Pedro Paixão, doravante nomeados generais, montados em burricos, Dom Luiz Galvez avançou para o meio da praça, ergueu uma espada que lhe fora colocada em sua mão e, com golpes no ar, como um Imperador, pontuou as palavras de conquista:

– “Pátria e Liberdade! Viva o Acre Livre! Viva a Revolução”!

A seguir foram tomadas as providências para a organização administrativa da nova soberania, através da elaboração de atos oficiais, iniciando pela expedição de decretos de nomeação de funcionários para o exercício de cargos superiores, decretos criando um Orçamento Nacional, ato oficial criando um Comitê de Salvação Nacional, etc.

Estava criado o Estado Independente do Acre.



Leia aqui a série 


* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Mora em Brasília e escreve o Blog FELICIDACRE.
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