quarta-feira, 15 de agosto de 2012

UM POUCO MAIS DE GOMA, DONA MININA

Olivia Maria Maia

Sergio Bastos
Era assim, nas tardes quentes de sábado da Avenida Brasil, em Rio Branco, Acre: a meninada juntava suas moedinhas conseguidas com muita peleja e saía pras bancas de tacacá. Eu ia com as minhas bem apertadinhas na mão, pois qualquer descuido era o bastante para que uma se perdesse. Aí, adeus, tacacá.

Na década de 60, as bancas eram montadas em frente às casas. Uma pequena mesa forrada com uma toalha limpa, outras nem tanto. Um tamborete com dois fogareiros — um com a panela de tucupi misturado com jambu, e a outra com goma. Uma vasilha com camarão seco. As cuias distribuídas sobre a mesa, por ordem de tamanho — pequena, média e grande — ou, melhor dizendo, de preço. Um vidro de molho de pimenta cumari. E uma lata de água ao lado de uma bacia, para a lavagem das cuias. Esse era o arsenal necessário para servir o manjar dos deuses dos nortistas — o tacacá.

— Mãeeeee! Já posso ir?

Deitada na rede de fibra de tucum, enquanto pegava uma fresca, ouvindo Anisío Silva, a mãe respondia:

— Espera, menina. Deixa dar três horas.

A voz proveniente da vitrola, que se misturava com o rom-rom da rede e o chiado do disco de setenta e oito rotações, fazia minha mãe revirar os olhos pelos Silvas, que costumavam fazer sucesso lá por casa: “Alguém me disse que tu andas novamente, de novo amor, nova paixão toda contente...” Depois seria a vez de outro Silva, o Orlando. Conhecíamos essa turma como a palma da mão, a voz deles e a de outros.

— Esse fanho não para de cantar, mamãe vai perder a hora — ficava eu resmungando pelos cantos da casa, enquanto calculava o tempo para repetir o pedido. A algazarra já começara a crescer. Minhas amigas Alair, Otília e Ducarmo (os meninos não se misturavam) já iniciavam a passação pela frente de nossa casa, enquanto eu e minha irmã continuávamos trancafiadas. Mas era preciso ter cuidado. Mãe irritada é um perigo!  eu pensava, fazendo força pra manter a paciência.

Minha mãe sabia o horário em que as bancas eram montadas. O que fazia era administrar o tempo. Três horas. Sim, essa era a hora. O sol escaldante, o calor por volta de quarenta graus. A suadeira escorrendo. A língua, tremelicando com o efeito do jambu, atiçava o desejo pelas mariolas, que ficavam, também, junto às cuias, e que acabavam por ser um luxo para aquela criançada. Depois, quem ainda possuía alguma moedinha ia tomar sorvete de cupuaçu, graviola, cajá, mangaba e outros, na sorveteria do Fabiano. As minhas reservas eram, na maioria das vezes, reduzidas. Só davam para um tacacá na cuia média e um picolé de groselha. Mas eu sonhava alto, com um delicioso sorvete de cupuaçu.

Aí, eu escutava o outro Silva cantando — “Adeus, adeus, adeus cinco letras que choram num soluço de dor. Adeus, adeus...”

— Ops! Tá na hora. Já tocou mais de uma música do outro Silva — deduzia eu, com água na boca. Éramos liberadas após uma espera que parecia uma eternidade. Encontrávamos as amigas e seguíamos para a banca de tacacá mais próxima.

— Dona Minina, quero um tacacá pequeno com pouca goma.

Pedia com os olhos aflitos, acompanhando a mão que se dirigia para a cuia. Havia algumas diferenças mesmo na classificação P, M, G, já que as cuias eram feitas de cabaças, e na natureza não tem forma perfeita, ou, neste caso específico, a perfeição é diferente. Às vezes, uma cuia era tão pequena que doía na alma.

Recebia o meu tacacá. Colocava o sal e a pimenta. Mexia pra lá e pra cá. Ensaiava uns golinhos. Disfarçava pra um lado, puxava conversa pro outro, e aí vinha a primeira jogada:

— Dona Minina, meu tacacá tá tão mole, a senhora pode colocar mais um cadim de goma?

Com o olhar complacente, ela empunhava a colher grande de alumínio e derramava um pouco daquela gosma em minha cuia. Eu misturava pra cá, temperava pra lá, e carregava na pimenta. Não podia haver drama de consciência. O tacacá tinha que arder, realmente.

— Dona Minina, eu errei na cumari. A senhora pode colocar um cadim mais de tucupi?

Meus olhos ardiam por causa da pimenta, enquanto os dela ardiam de impaciência. Ela, mesmo de má vontade, despejava um pouquinho mais de tucupi.

— Dona Minina... agora desandou! Tá molim, molim. Põe mais um cadim de goma...
O olhar agora era de raiva, de quem já estava de saco cheio.

— Oh, menina! Vê se da próxima vez pede mais dinheiro pra tua mãe! Esse tacacá pequeno já está grande demais — reclamava, enquanto derramava uma concha rasa de tucupi, sem uma folhinha sequer de jambu. Mal sabia ela que na próxima seria... outro dia, outra vez, outra banca.


Saíamos. Eu, feliz da vida e de barriga cheia, olhava a preciosa moedinha que economizara. Cinquenta centavos. O necessário para...

— Seu Minino... põe um sorvete bem grandão de cupuaçuuuuuu!!!



* OLIVIA MARIA MAIA é escritora acreana.
** Crônica publicada no livro Em rio que menino nada raia não ferra (2010) – Disponível na Livraria Nobel (AC).
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