quinta-feira, 23 de agosto de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO – XIII

José Augusto de Castro e Costa


MONUMENTO A LUIS GALVEZ EM FRENTE A ALEAC
Era intuito de Galvez integrar-se à sociedade acreana, revestir-se do pensamento do povo brasileiro e irmanar-se na conquista de um bem aspirado. Tanto que refere-se ao direito fundado na posse de toda a região consagrada pelo trabalho e pelo sangue generoso do irmão seringueiro, para, ao final, arrematar: “Não aceitamos a bruta desnacionalização. A pátria abandona-nos. Nós criamos outra. Entre o Brasil e a Bolívia os brasileiros não podem vacilar e já que não podem ser brasileiros, resolveram não ser bolivianos”.

Teria sido esta a primeira opção daqueles heroicos brasileiros, em clara demonstração de que estariam expulsando a quem lho tomara um bem, e não tomando um bem de quem lho expulsara.

Há entretanto, relatos de que, no início, a conduta extravagante de Dom Luiz Galvez viria despertar o espírito dissidente, de alguns seringalistas e, justamente, de uma das revolucionárias mais ativistas, que o influenciariam e o estimulariam a levar a efeito ao então empenho utópico.

A ex-freira Joana, que após deixar os votos religiosos passou a dedicar-se ao magistério, no sentido de expandir o conhecimento da cultura brasileira, a partir do interior amazônico, onde ela esperava tornar-se mais útil, decepcionou-se ante o modo como aquele espalhafato demagógico, com comemorações intermináveis, regadas a muita bebida alcoólica, muitos doces e muitos leitões, revelava-lhe uma ideia fantasiosa da base que se instalava naquele Império.

Ausente às volúpias do Império, Joana passara a dedicar-se em organizar escolas e criar centros recreativos ao longo Acre, inteirando-se dos problemas e buscando as devidas soluções, o que viria a conquistar a simpatia e confiança da população.

Contudo, ainda em meio às comemorações excessivas, refletidas pelos corpos empilhados uns sobre os outros, abatidos pelas desenfreadas bebedeiras, ia-se compondo a administração do Império com a criação de Ministérios, sendo alguns ocupados por ilustres desconhecidos possuidores de alguma formação, porém sem condições para a devida estruturação. Em meio à contagiante empolgação, o poeta Taumaturgo Vaez, viu-se inspirado para escrever um grande poema sobre a conquista e fundação do Império do Acre, onde destaca-se a estrofe:

“Venho mesmo não sei de que Degredo
Improvisando altares no caminho,
A rezar, de olhos fitos no arvoredo,
Missas negras sem hóstias e sem vinho”.

Ao avistar um grupo de francesas banhar-se num igarapé, registraria o poeta em seu caderno de notas: “e ali estavam num feminino alarido de náiades em luxuriante cenário de verduras e água cristalina”.

A orgia desenfreada adicionada ao desequilíbrio administrativo e social sinalizavam o breve desmoronamento do Império acreano que aproximava-se vertiginosamente.

Consta que a ex-freira Joana, entre suas diligências, empenhara-se em transformar os centros recreativos em organismos paramilitares. Para tal, requisitara, com certa frequência, armamentos com munições, com o pretexto de condicionar o pessoal visitado para o exercício da caça e defesa de predadores.

retornar do Alto Acre Joana daria conhecimento ao Imperador Dom Luiz Galvez de um possível levante contra seu governo, organizado pelo seringalista Neutel Maia, aliado dos bolivianos.

A notícia, por certo, não abalara a postura imperial bizarra de Dom Galvez, insensível ao pressentimento de que seu Império começava em entrar em crise, que prosseguia com o absurdo surrealismo de concretizar projetos utópicos, sonhados por si e por seus ministros, agentes de mirabolantes ideias irrealizáveis com a volúpia imaginativa do “vira-vira-virou”!!!

Passados cinco meses de governo, preparava-se Puerto Alonso para as comemorações para a chegada do Ano Novo de 1900. A preocupação do Ministro da Cultura, François Blangis seria sanar algumas irregularidades acreanas, tais como o racionamento de bebidas, pedindo um imenso carregamento de vinhos, champanhes, whiskie, aguardentes e, evidentemente, o xerez exclusivo do Imperador. A programação para o dia 31 de dezembro constava de um grande desfile alegórico, que contaria aos súditos seringueiros os principais momentos da história do mundo, quando carros e figurantes, artistas fantasiados, viveriam os tempos da Grécia, Roma, as maravilhas de Luiz XV, a Revolução Industrial, a Queda da Bastilha e, claro, o Grito do Ipiranga.

Uma semana antes, porém, na orgia comemorativa do Natal, alguns importantes seringalistas compareciam ao barracão do Coronel Pedro Paixão, antes da ceia, para uma reunião política, na qual o Tenente Burlamaqui colocar-se-ia à disposição para por fim na desordem que campeava Puerto Alonso, prometendo derrubar o infausto Império de Dom Luiz Galvez.

Uma semana depois o Tenente Burlamaqui desembarcaria com as tropas contra-revolucionárias e no caminho para o Palácio, que seria cercado, iria recolhendo os embriagados e desgarrados, que seriam amarrados e amontoados no trapiche.

Ao proceder ao cerco do Palácio, os contra-revolucionários do Tenente deveriam ser rechaçados pelas tropas da ex-freira Joana que, armados, tentariam reagir, mas por pouquíssimo tempo, tendo em vista a elevada baixa que se prenunciara, incluindo Joana, que tombaria morta na escadaria do Palácio.

Em ambiente paralelo Dom Galvez procurara dirigir os destinos do seu governo, com a preocupação de lançar os determinados fundamentos de um poder aparentemente constituído, procurando corrigir o desarranjo social envolto em desajustada permissividade.

Esforçara-se Dom Luiz Galvez, em certo altura, para levar a efeito o projeto de uma organização sócio-administrativa, visando a instalação de indústrias, e ainda buscando o emprego de capitais para o desenvolvimento das mesmas e proliferação do comércio, fornecer o abastecimento de serviços públicos como água, luz e até comunicação telefônica. O governo oferecia, inclusive, o privilégio de exploração econômica à empresa que construísse o cais do porto, composto de armazém e provido dos demais setores complementares, a exemplo de depósitos, rampas, docas e flutuantes.

Raríssimas vezes que sejam, os vícios de linguagem adquirindo um tenaz poder, pressagiam o emprego do pleonasmo, que cativam sua presença em peculiar pensamento. Pois a ideia oferecida pelo plano de governo de Dom Luiz Galvez Rodrigues de Aria, em Puerto Alonso, é de que seria reflexo, no mínimo, de uma utópica ilusão, ou objeto de uma alucinadora miragem. Até a natureza deveria tomar necessárias providências quanto ao devido alargamento das margens do rio Acre e sua múltipla profundidade, adaptando-o para o suporte dos grandes calados dos vapores.

De salientar que o governador do Amazonas estivera a par de tudo, comunicado que fora pelo próprio Dom Galvez, optando pela omissão total, inclusive de cientificar aos poderes federais.

Porém, em meio a tremenda agitação política, a questão do Acre viera à tona, estampando na imprensa amazonense a manchete de que um aventureiro audacioso estaria promovendo o desmembramento de uma parte do Brasil. A contenda entre governistas e oposicionistas tomara vulto, com insinuações e incriminações, relacionadas à separação de uma área da comunhão brasileira. Os acontecimentos se desenrolavam de maneira incendiária e distante de qualquer previsão. Tudo porque o governo federal insistia em concordância com a Bolívia, reconhecendo como boliviano o território ocupado pelos brasileiros, há muitos anos. Então pedia ao governador do Amazonas, Cel. Ramalho Júnior, explicações sobre o excêntrico Estado Independente, o qual não se furtara em elogiar a inteligência e a operacionalidade do espanhol, considerando o Estado Independente do Acre uma organização completa e sem falhas.

Com o descontentamento dos seringalistas e a maioria dos comandantes dos vapores, porém, já acumulando consideráveis adesões, a turbulência política do governo acreano apresentara sintomas de irremediável desestabilização e desmoronamento o que, de fato, viria a concretizar-se com a deposição, prisão e consequentemente o “banimento do Presidente Luiz Galvez Rodrigues de Arias do território nacional, por ser considerado conveniente sua retirada dos domínios do Estado Independente do Acre”.

Fizera-se, então, levantar o movimento para substituir a administração de Dom Galvez, cuja aclamação para Presidente do Estado Livre do Acre, caberia ao coronel Antonio de Sousa Braga, o qual ficaria no poder somente por trinta dias.


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* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Mora em Brasília e escreve o Blog FELICIDACRE.
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