quarta-feira, 29 de agosto de 2012

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE ROMA

Roma é uma senhora bela, de olhos vivazes, porém, de tez cansada, incapaz de se desfazer de seu longo vestido de costuras milenares. Suas ruas e becos estreitos abrigam centenares prédios que parecem se curvar aos transeuntes. As fontes, espalhadas por praças e vias, derramam constantemente suas águas cristalinas, como se fosse um pranto nostálgico por aquilo que foi e por aquilo que jamais voltará a ser.

Roma dos deuses. Roma pagã. Roma eterna. Roma cristianizada. Para onde quer que se olhe algo aponta para os céus. Os deuses greco-romanos num único Deus cristão. A quem compete julgar? Colunas e monumentos persistem a vencer as mãos esfaimadas do tempo e do homem que não quer se render. O brado dos césares persiste a ecoar. Não silencia jamais. E percorre praças, e ruas, e bosques.

Cruzar as ruas é como saltar de um século a outro. Tudo é tão distante porque intimamente tão próximo. Uma força estranha nos impele, nos abraça. Mortos e vivos se dão as mãos e caminham serenos. Afinal não se sabe se são os mortos que estão vivos ou se são os vivos que estão mortos. É tênue a linha da beleza. É tênue a linha da vida.

Roma extasiante. Roma sublime. Se a beleza que emana da arte é capaz de suprimir por um instante as agruras de um mundo humanamente desumanizado, Roma acalanta a humanidade. Em seu seio há todas as línguas, todos os rostos, todas as crenças. Todos sedentos: da Beleza: de Sentido: de Deus. Talvez.

Roma respira a arte. Roma vive a/da arte. Como não se render à beleza das centenas de igrejas ornadas de mosaicos, afrescos, esculturas, imagens e objetos centenares. Aqui uma pintura de Rafael. Ali uma escultura de Michelangelo. Lá um mosaico do período bizantino. O coração de Roma é a beleza. É a arte. É o divino. Os povos acorrem a ela para encontrar um passado que pertence a todos.

Destarte, não só de passado vive Roma, mas de todos os sabores. Pizzas, lasanhas e infinidades de pastas. Ruas tomadas de mesas, e bares em constante movimento. Quando o calor quer a todos sufocar, como agora, nada melhor que sair a uma sorveteria e saborear um gelato à moda italiana. Quantos poderão desfrutar Roma eu não sei. Mas aqueles que puderem, vivam-na, sintam-na, compreendam-na.

Marcel Proust, em Os Prazeres e os dias, asseverava que como a natureza, a inteligência tem seus espetáculos. Roma é a soma da inteligência dos povos ao longo dos séculos. Por isso é um espetáculo. O anseio insaciável que brota do ser humano pelo Divino, pelo Transcendente, pelo Desconhecido, por Deus fez Roma ser o que é. E me faz recordar os versos de Fernando Pessoa: “E, perto ou longe, grande lago mudo/ o mundo, o informe mundo onde há a vida.../ E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo...”.


P.S. texto escrito quando ainda me encontrava em Roma.
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