quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

TRÊS SONETOS DE JORGE TUFIC

“Jorge Tufic é um dos grandes escritores brasileiros, autor de uma obra rara, dotada de linguagem lírica e de alta metáfora, sonora e imagística, flutuante e bem elaborada.”
Clodomir Monteiro


O VINHO DO MÍSTICO 
Jorge Tufic

Ao Yogue Paramahansa Yogananda

Testemunhas de mim são as garrafas. 
Louvo, ao secá-las, ao meu bom Khayyam. 
Ao néctar místico lançam-se tarrafas, 
e a pesca é boa quando a vida é sã. 
Embriago-me de Deus toda manhã, 
verticalizo a dor como as girafas. 
Alcanço a plenitude. Adoro Pã,
danço longe do tédio e das estafas. 
Meu turbante rebrilha. Posto em lótus, 
ultrapasso o Nirvana e tiro fotos 
da solidão mais cósmica do além. 
Bebo com Deus a chuva que ele ama. 
É sempre bom beber. O vinho é chama
 que se transmuda como lhe convém.


SONETO ÀS BORBOLETAS 
Jorge Tufic

Sempre dou baixa aos dias na folhinha. 
Porém, quanto mais risco, mais florescem, 
quer nos blocos seguintes, quer na minha  
janela aberta aos outros que amanhecem. 
Não sei das vezes que a esse gesto eu vinha 
dando o meu tempo que as aranhas tecem; 
tantos dias iguais, seja à tardinha, 
seja às estrelas quando resplandecem. 
Montões de calendários tomam conta 
de algumas prateleiras que derramam 
velhos papéis inúteis, dessa monta. 
Números, datas, portas e janelas, 
foram, decerto, árvores que inflamam
para os céus borboletas amarelas.


O CRISTO DE SARAMAGO 
 Jorge Tufic

A rede, sim, transluz-se e colhe o peixe. 
A terra é sangue, inútil proteção 
ao cordeiro aflitivo – que se o deixe 
manumisso da horrível sagração. 
A tempestade, o mar, o rubro feixe 
se azula em mim nos touros de um clarão... 
Ventos, parai! Que o mundo não se queixe 
dessa fúria de Deus em minha mão. 
Que são curas, milagres como o vinho, 
meus pássaros de areia, o gesto santo 
no adiar-se a vida para mais caminho 
Uma simples mulher curou-me, um dia, 
das chagas com suas lágrimas; e o quanto
 dera-me alívio à cruz donde eu pendia.


O poeta Jorge Tufic é acreano de Sena Madureira. Tufic é consagrado como um dos melhores poetas de sua geração, tendo exercido um papel imprescindível na literatura amazonense, cearense e acreana. Em 2012, recebeu o Prêmio Raul Bopp da União Brasileira de Escritos – RJ, pela obra QUANDO AS NOITES VOAVAM.

Clique aqui para acessar o blog de Jorge Tufic.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

E JÁ QUE OS MORTOS NÃO FALAM...

Leila Jalul


Contava Dona Marlúcia, com muita tristeza, que a filha Maria Augusta nascera normal. Aos primeiros meses de vida, tanto quanto qualquer outra criança sadia, balbuciava o restrito número de vocábulos próprios do período de vida. Papá, mamã, ádua, bó, etc...

Maria Augusta era uma criança linda, orgulhavam-se os pais. Os olhos grandes esverdeados e os fartos cílios não indicavam a sua descendência indígena. Não fossem os cabelos pretos e lisos, parecia mais uma estrangeirinha nórdica nascida em ninho errado.

Um dia de festa na cidade, por conta de uma eleição, um desalmado e irresponsável festeiro soltou um rojão potente que veio a cair, desgraçadamente, sobre o teto de zinco do quarto da pequena. Martino Holanda e Marlúcia, em estado de loucura e pavor, imaginaram o pior e correram para ver se a filha estava bem.

O que viram, no entanto, foi de cortar o coração. Maria Augusta, em choque, estava sentadinha no berço. Não ria e não chorava. O vômito cobria sua fraldinha e toda a cobertura de tecidos do berço. Retirada dali, sem esboçar reação, foi banhada e perfumada para que pudesse novamente entrar no sono de menina tranquila que era. Por precaução e temor de que novos rojões fossem disparados, pai e mãe levaram a pequena para que dormisse entre eles.

Nos dias seguintes, por quase uma semana, a bebê apresentava febre alta e não havia quem a fizesse parar de chorar. Outra estranheza, também, foi verificada: Maria Augusta expressava medo nos olhos e, por mais que fosse embalada na rede, só conseguia dormir quando tomada pelo cansaço. Os pais, só então, resolveram buscar ajuda médica. Aquilo que parecia uma reação comum ao susto, tornou-se, por muito tempo, um estado de choque permanente. Vez por outra, em convulsão, era levada ao hospital de emergência e acalmada com Luminaleta, o medicamento da época. 

Entre melhoras e pioras, mais pioras que melhoras, o tempo foi passando. Cresceu no tamanho e aprendeu a andar. Falar, não. Era uma criança triste, olhar perdido no horizonte e sono intranquilo. Os testes auditivos foram satisfatórios, razão pela qual foi matriculada numa escolinha para, esperavam os pais, uma possível socialização. A recusa da menina foi determinante para que de lá saísse e brincasse em casa com alguns primos e vizinhos. As crianças interagiam. Ela, não. 

A vida não deu recreio aos pais. Marlúcia era enfermeira do centro cirúrgico de uma maternidade. Martino, o pai, era bioquímico do Estado e, no período da tarde, trabalhava num laboratório particular. O sonho do casal era fazer economias e empreender uma viagem aos Estados Unidos. O mutismo de Maria Augusta haveria de ter cura, nem que, para isso tivessem de percorrer o mundo. Fosse pela medicina, fosse pelo curandeirismo, acreditavam na vitória. 

Enquanto trabalhavam, em tempo integral, escolheram Elza, uma boa moça, para cuidar da casa e da menina. Meio que aparentada da família, logo angariou confiança e respeito. Uma mão na roda! A menininha também gostava dela.

O que estava dando certo, no entanto, durou pouco. Um dia, por ter necessidade de resolver um problema na cidade, Elza deixou Maria Augusta aos cuidados de Ramires Meirelles, um boliviano que estava hospedado em sua casa. Não sabia ela, infelizmente, que o problema a ser resolvido demoraria mais que o previsto.

Neste mesmo dia, como se empurrada por Deus, Marlúcia voltou mais cedo para casa. Ainda na porta, sem mesmo jogar a bolsa numa cadeira, escutou uma voz de criança gritando. Não, não, não! - dizia a voz. Num impulso, certa de que era a filha, adentrou no quarto dela e viu Ramires tentando tirar-lhe a roupa. Maria Augusta lutava com garra. Com mais força que a força que seus nove anos permitia lutar.

Num arranco, cega de ódio, Marlúcia abriu uma fenda na cabeça do boliviano com um ferro de passar, o primeiro objeto que sua mão pôde alcançar. Logo chegaram Elza e Martino Holanda que, arrastando pelos pés, retiraram o corpo de Ramires Meirelles do quarto da menina, enquanto a mãe, desdobrada em cuidados, encobria-lhe o rosto para que não visse a cena.

Aos poucos, com ajuda de profissionais, Maria Augusta voltou a falar, deixando para trás os olhares perdidos no infinito e o estado quase catatônico que a manteve muda por mais de oito anos.

De Ramires Meirelles não se soube mais nada. Quem deveria saber, não por acaso e sem razões, manteve-se mudo para todo o sempre.

E já que os mortos não falam...

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

MATEMÁTICA MISTURADA COM PORTUGUÊS

José de Anchieta Batista
 

Se ainda hoje é muito difícil para os militares da fronteira amazônica dedicarem-se aos estudos, em razão das peculiaridades da profissão e das permanentes missões por eles desempenhadas, imaginem só como não era antigamente. 

Naquele ambiente de dificuldades, todo soldado engajado sonhava ser cabo e todo cabo sonhava ser sargento. Raramente, contudo, algum deles conseguia ser aprovado nos concursos para acesso ao nível superior, pois não dispunham de horários para se dedicarem aos livros. Além dessa escassez de tempo, aliada ao cansaço impingido pelo cotidiano da vida castrense, os concursos não eram dos mais fáceis, tornando deveras longínqua tão ambicionada pretensão. 

Há umas quatro décadas, na então Quarta Companhia de Fronteiras, sediada em Rio Branco, capital do Estado do Acre, um desses comandantes mais humanos e mais preocupados com o lado social e com o crescimento de seus comandados, pôs a valer uma iniciativa elogiável. Após as devidas adaptações nos horários do quartel, fez funcionar dois cursos preparatórios: - um grupo seria constituído pelos soldados mais antigos e menos escolarizados, a fim de  possibilitar-lhes o ingresso no curso de formação de cabos, anualmente realizado no Comando Militar da Amazônia, em Manaus; o outro seria destinado a quem possuísse um nível escolar mais elevado, que lhes auferisse condições para ingressar na Escola de Sargentos das Armas, lá em Três corações, Minas Gerais.  Para isso, o bondoso coronel mandou fazer um levantamento de quais sargentos e oficiais estavam capacitados para ministrarem as aulas e atribuiu-lhes a missão. As maiores dificuldades de aprendizado, como era de se esperar, residiam nos assombrosos fantasmas da matemática, disciplina que ficara sob a responsabilidade do sargento Joaquim Ferreira, graduado no assunto pela Universidade Federal do Acre. E foi justamente dentro do contexto da matemática que ocorreu o fato pitoresco que aqui relatamos. 

Um dos soldados, com nome de José Caiçara e apelido de “Quati”, já com doze anos de caserna, era candidato ao curso de cabos. Estudara tão-somente, em sua infância distante, até o segundo ano primário duma escola rural embrenhada num desses nossos afastados seringais. Diante, porém, daquela grande oportunidade, o praça motivou-se todo, não se deu por vencido e partiu para o desafio. 

Durante os primeiros quinze dias o “Quati” não sentiu maiores complicações. A orientação do comandante era que tudo deveria começar do nível mais rudimentar possível. Os assuntos de Língua Portuguesa, por exemplo, tiveram início na revisão do alfabeto, sua divisão em vogais e consoantes etc., numa abordagem tão simples que mais se parecia com as antigas aulas da histórica “Carta de A-B-C”. Na Aritmética também o pontapé inicial se deu nos moldes da velha tabuada, com soluções de pequenas contas de somar e diminuir. Assim, tudo ocorria com muito otimismo e perseverança. Os resultados eram promissores. 

Todavia, passados os primeiros dias, o “Quati”, inesperadamente, foi obrigado a abandonar a sala de aula por um período considerável. Que tristeza! Escalaram-no para uma missão lá para as bandas de Santa Rosa do Purus. Quando se tratava de embrenhar-se na floresta, ninguém era tão respeitado quanto ele. Seu nome estava sempre na cabeça da lista, antes mesmo de se saber quem seria o comandante. Podia ser um semianalfabeto, mas era um doutor no convívio com a selva. 

Os dias se passaram e mais de um mês após o início de sua aventura por matas e rios, o “Quati” voltou.  Na mesma data de seu retorno, já estava ele lá, junto dos companheiros de estudo, buscando recuperar o tempo perdido e tentando aprender a terrível matemática. Pelo visto, a matéria já houvera avançado bastante. O sargento Joaquim Ferreira se desdobrava, explicando e solucionando problemas no quadro-negro, momento em que sempre procedia com desmedida paciência e punha em prática a melhor didática possível. O “Quati” sentou-se lá atrás e entregou-se totalmente a prestar atenção. Meia-hora depois se conscientizou de que não entendera patavina e se sentia mais por fora do que cebola em salada de frutas.  Para completar seu desengano, ouviu neste momento, Joaquim Ferreira ler em voz alta o enunciado de mais um problema colocado na lousa: - “A” é igual a “B” mais seis. Qual o valor de “A”, se “B” for igual a quatorze? Aquilo foi a gota d`água. O “Quati” sentiu-se totalmente violentado. Não seria possível entrar em sua cabeça aquele negócio de números convivendo, no mesmo problema, com as letras do alfabeto. Levantou-se, colocou o caderno debaixo do braço, pediu licença ao sargento e dirigiu-se à porta de saída.

O Joaquim parou de explicar e voltou-se para o soldado: 

- Já vai? 

- Já, meu Sargento! 

- Mas, por quê? 

- Matemática já é difícil e o Senhor misturando com português... desisto! 

O “Quati” realmente desistiu, teve multiplicado o seu ódio por números, nunca mais voltou a uma sala de aula e viveu a vida inteira como soldado raso. 


* José de Anchieta Batista, poeta, autor de MENINO DA RUA DO BAGAÇO (Rio de Janeiro: Publit, 2009), e atual diretor-presidente do Acreprevidência.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A ORIGEM DA PUPUNHA DOMESTICADA

Evandro Ferreira

Dentre as mais de 550 espécies de palmeiras nativas das Américas do Sul, Central e do Norte, apenas a pupunha (Bactris gasipaes) é considerada como espécie completamente domesticada. O açaí-de-touceira, atualmente amplamente cultivado na Amazônia, ainda está em estágio inicial de domesticação.

Conceitualmente, a domesticação de uma planta consiste em um longo processo de seleção conduzido pelo homem com o objetivo de adaptar a planta para suprir suas necessidades de alimentos, materiais de construção, medicamentos e outros produtos. Por essa razão, geralmente as plantas domesticadas são geneticamente distintas de seus progenitores selvagens e, na maioria das vezes, totalmente dependentes do homem para sua sobrevivência, não conseguindo se reproduzir na natureza sem a intervenção humana. Isso explica o fato de roçados cultivados com culturas perenes, como café, abacate e mamão, geralmente não prosperarem quando deixados sem os cuidados básicos de podas e limpezas do terreno onde são cultivados.

O processo de domesticação e disseminação do cultivo da pupunha foi realizado por indígenas sul-americanos muito antes da chegada dos primeiros europeus. Quando isto aconteceu, a espécie já se encontrava distribuída por toda a Amazônia, norte da América do Sul e parte da América Central. Os frutos, que podem ser usados na alimentação humana e de animais domésticos, foram a principal razão para a domesticação da espécie. Somente nos últimos 30 anos é que seu cultivo foi expandido para a costa atlântica brasileira, especialmente para a produção de palmito, que rivaliza em qualidade com o palmito extraído de algumas espécies de açaí na Amazônia e da palmeira Jussara, na Mata Atlântica. Esse interesse comercial fez com que a espécie tenha atingido um status de cultivo industrial.

Apesar da sua importância econômica, até recentemente existiam discordâncias quanto à classificação botânica da pupunha. Ocorre que muitas plantas cultivadas de pupunha, com variações no tamanho e na cor dos frutos, foram descritas como espécies ou variedades distintas. Da mesma forma, algumas plantas morfologicamente similares à pupunha cultivada, mas que cresciam espontaneamente na floresta também foram descritas como espécies distintas. Até o famoso botânico alemão Martius contribui para a confusão ao criar o gênero Guilielma para batizar plantas de pupunha cultivada que ele havia encontrado no Maranhão nos idos de 1824.

A confusão quanto ao correto nome científico da pupunha foi resolvida em duas etapas. A primeira, em 1991, quando o pesquisador americano Roger Sanders fez um estudo filogenético e comprovou que o gênero Guilielma proposto por Martius não diferia do gênero Bactris, que havia sido proposto em 1777. Posteriormente, em 2000, o pesquisador inglês Andrew Henderson fez uma revisão taxonômica do gênero Bactris e propôs que o nome científico mais apropriado para as plantas cultivadas de pupunha seria Bactris gasipaes variedade gasipaes. O nome das plantas selvagens morfologicamente similares às cultivadas passou a ser Bactris gasipaes variedade chichagui.

Entretanto, ainda pairam algumas dúvidas sobre  como ocorreu a domesticação da pupunha e algumas perguntas ainda não estão completamente respondidas. Qual ou quais os ancestrais selvagens foram usados pelos indígenas para desenvolver a pupunha domesticada? Isso foi feito de forma isolada em uma única região ou ocorreu de forma simultânea em diferentes localidades na América do Sul e Central?
Para alguns pesquisadores, a domesticação ocorreu uma única vez em algum lugar do sudoeste da Amazônia, em uma região que compreende parte do Acre, e regiões adjacentes da Amazônia boliviana e peruana. Para outros esse evento único ocorreu no noroeste da Amazônia colombiana. Finalmente, uma hipótese completamente diferente advoga que a domesticação ocorreu mais ou menos simultaneamente em diversas localidades na América do Sul e na América Central.

Estudos filogenéticos que realizamos em meados da década de 90 indicam que sob o ponto de vista anatômico e morfológico pelo menos uma espécie de pupunha selvagem, Bactris dahlgreniana, amplamente distribuída no sudoeste da Amazônia, norte de Mato Grosso e sul do Pará, é estreitamente relacionada com as plantas cultivadas, sugerindo que estas últimas podem ter sido selecionadas a partir da primeira.

Dados históricos apóiam o sudoeste da Amazônia como o centro de domesticação da pupunha. O botânico suíço Jacques Huber, então funcionário do Museu Goeldi e amplo conhecedor da Amazônia, já havia encontrado a pupunha cultivada e seus parentes selvagens quando visitou o alto rio Solimões, no Brasil e regiões adjacentes no Peru. Quando, por volta de 1904, ele encontrou as mesmas plantas ao longo do rio Purus, se convenceu de que a pupunha selvagem, que ele batizou de Guilielma microcarpa, conhecida pelos nativos como ‘pupunha brava’, era a mais provável ancestral da pupunha cultivada.

O botânico brasileiro Barbosa Rodrigues, ao visitar a região da Chapada dos Guimarães por volta de 1900, encontrou uma espécie de pupunha selvagem em matas de galeria locais, mas não observou a pupunha cultivada, que conhecia de sua viagem ao Pará, realizada por volta de 1870. Como não havia observado pupunha selvagem no Pará, ele propôs que os indígenas que habitavam as cabeceiras dos rios Xingu e Tapajós provavelmente domesticaram a pupunha e levaram sementes da mesma para o baixo Amazonas. Análises genéticas realizadas nos últimos anos apóiam a hipótese de dois eventos de domesticação ocorridos no sudoeste da Amazônia, coincidindo com as proposições de Jacques Huber e Barbosa Rodrigues.

Por hora, existe quase um consenso no meio acadêmico de que a pupunha brava, cujo nome científico mudou de Guilielma microcarpa para Bactris dahlgreniana, é a espécie com maiores chances de ter dado origem à pupunha cultivada. Inclusive seu nome popular deriva do fato da mesma ser em quase tudo idêntica à pupunha cultivada, com exceção dos frutos, que são muito menores e não tem valor comercial. Se a pupunha brava for, no futuro, confirmada como a ancestral da pupunha cultivada, os indígenas responsáveis por esse processo merecem nossa admiração. Afinal, eles partiram de uma espécie cujos frutos mediam menos de 2 cm de diâmetro e desenvolveram variedades cultivadas com frutos medindo até 8 cm de diâmetro. Uma façanha e tanto considerando que o processo foi feito de forma intuitiva. 


* Evandro Ferreira - acreano, nascido em Rio Branco, pesquisador do INPA-AC e do Parque Zoobotânico da UFAC. Mestrado em Botânica no Lehman College, New York, USA, e Ph.D. em Botânica Sistemática pela City University of New York (CUNY) & The New York Botanical Garden (NYBG).

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A FESTA E A FARSA

Clodomir Monteiro



em festa o povo
            na praça
            é luta
            de massa é presa

            do bolo no paço
            no sonho
            bolado
a cidade traçado

o homem consome
            o sono
            comprime
            o corpo existência

            compasso o homem
            no passo
            sumindo
na fome da praça

estremece no frêmito
            frequente
            enfrenta
frenética miséria

o povo em festa
a festa
na farsa
entorpece de novo


MONTEIRO, Clodomir. Derroteiro de Rotinas. São Paulo: Quíron/Práxis, 1976.
 * Clodomir Monteiro é presidente da Academia Acreana de Letras.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

UMA VOZ ENTRE AS NUVENS

José Augusto de Castro e Costa 


A aeronave já iniciava o taxiamento em preparação para proceder a decolagem quando sentou-se ao lado do velho Alberto  um homem de meia idade e, depois de cumprimentá-lo vaticinou, com certa naturalidade que “Deus é a força do mundo, que dá luz e brilho às estrelas e tem o poder mais profundo de dar forma às coisas mais belas”. E prosseguiu falando que há também, no mundo, quem tenha bastante força e grande poder, porém, de dar forma às coisas mais assustadoras, mais dolorosas, mais absurdas, mais horripilantes. 

Quem? Provavelmente aquele da Força Negativa! 

Enquanto o homem falava, velho Alberto imaginava o fato de encontrar-se dentro de um avião, em voo diurno ou noturno, cercado de CBs, em terrível e tenebrosa tempestade, experimentando o tresloucado efeito de descontroladas e alucinadas turbulências indomáveis, constituir-se numa situação que, indubitavelmente, leva qualquer ser animado às mais desesperadas atitudes, próprias de sua insignificante pequenez, em busca encolerizada de livrar-se do que, em verdade, não é bom. Em tal circunstância, o apelo por socorro é desesperadamente gritante. Muitos vão ao nível do falecimento, passando antes pela sudoração. 

A humanidade tem assistido muitas situações desesperadoras, por completo. Para muitos protagonistas dessas situações não foi concedido condição para contar a história sofrida. Suas almas não resistiram e retiraram-se. 

Já estando a aeronave posicionada em situação de voo cruzeiro, aquele companheiro de viagem passa a transmitir ao velho Alberto curiosa apologia cristã, com referência à natureza humana, tomando por base a numerologia, esclarecendo-lhe o profundo simbolismo que o número três exerce na história da humanidade. 

É interessante saber-se que o ser humano, diferentemente dos demais animais, é composto de três substâncias, a saber: corpo, alma e espírito. Quem dá vida ao corpo é a alma, sendo esta a promotora dos nossos estímulos, dos nossos anseios, dos nossos ânimos e desânimos e até dos nossos sentidos. 

Ao retirar-se, o corpo morre. 

A natureza espiritual do ser humano é formada pela alma e pelo espírito, os quais, enquanto estiverem no corpo humano são entrosados e inseparáveis, proporcionando-lhe a vida. Portanto, o ser humano é corpo, é alma e é espírito. Neste aspecto, o diferencial do ser humano é o espírito, o qual não é encontrado nos irracionais. 

Velho Alberto sentia-se como que se abastecendo com o que absorvia daquele companheiro de viagem, o qual lhe dizia que, sendo o ser humano “espírito”, tem capacidade de conhecer Deus e ter comunhão com Ele, enquanto sendo “alma” tem conhecimento de si próprio e sendo “corpo”, é capaz de conhecer o mundo, através dos sentidos. 

Dizia-lhe o desconhecido que o espírito pode conhecer o que a alma não conhece. Entretanto esta, através da razão, pode conhecer coisas, ao passo que o espírito pode discerni-las por intermédio da intuição.

Dando prosseguimento ao argumento da tripartição, dizia aquele passageiro que cada parte do ser humano ainda divide-se em outras três, a saber:

1º- Ao espírito pertencem: a consciência, a comunhão e a intuição.

2º- A alma é constituída de: mente emoção e vontade. 

3º- O corpo é formado pelo que vemos: cabeça, tronco e membros. 

Simplesmente “todo ouvidos”, velho Alberto, quase em modorra, porém entregue às surpreendentes sugestões, nem se dava conta de questionar qualquer ponto do colóquio, muito menos conhecer informações daquele palestrante. 

Apesar do envolvimento, percebe que a viagem está chegando ao seu destino, dado o início dos procedimentos característicos de diminuição de altitude que a aeronave passa a apresentar. 

Velho Alberto ainda capta os últimos esclarecimentos acerca da influência do número três na natureza humana e seus respectivos significados.

Quando reconhecidas paisagens começam a ser visualizadas, velho Alberto, instintivamente, é levado a identificar possíveis pontos de seu torrão, mesmo diante do visível desmatamento. Observa um vasto campo aqui, uma pequena porção de floresta ali, raras lagoas tipo açudes adiante, até distinguir, quase no horizonte, a sinuosidade do estreito rio de água barrenta.

Quando vê surgir a silhueta da cidade, velho Alberto volta-se para comentar com seu companheiro de viagem, o qual estava a erguer-se, juntando ao peito um espesso volume de um livro. Pode ainda perceber a boa aparência física do desconhecido, num traje de simples “blazer” em tom azul, esboçando um modesto e singelo sorriso, para em seguida, sumir por completo, apesar de incessantes buscas empreendidas dali por diante. 

Voltou a vista para a paisagem que se descortinava através da janelinha da aeronave e não reconheceu praticamente nada. Apenas identificava-se com as recordações vindas da infância, ao banhar-se nas águas barrentas daquele rio, frequentadas desde a praia da Base até ao Igarapé da Judia, pontos visitados no bojo de uma catraia alugada ao seu Eládio, ou ao Hugo, ou Caboré. 

Ao preparar-se para o pouso, velho Alberto prende-se, subitamente, ao teor das palavras ouvidas por quase três horas de voo. 

Lembrou-se, então, da natureza tripartite do ser humano e supôs que em alguma das três partes poderia encontrar-se a fé e definiu-a como sendo o fundamento das coisas que se espera e a prova das coisas que não se vê. 

E questionou, consigo: por que só os seres e as coisas têm o privilégio de existir, e logo a Deus isto é negado?!


* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Reside em Brasília, e escreve o Blog FELICIDACRE.