terça-feira, 19 de agosto de 2014

ODE À MARINA

Mário Maia (1925-2000)
















Do mulateiro tem a mesma cor,
encerras n’alma pura de menina
a beleza das estrelas diamantinas
e, de um céu enluarada, o esplendor.

Sim, ninfa selvagem. Sim Marina,
tu és a selva virgem viridente;
o fruto fecundado e a semente;
a água pura de fonte  cristalina.

Anjo encantado e encantamento,
raro exemplar de vida; um destino.
Das novas gerações, um novo hino...
Verbo de fé, fiel ao juramento.

És tu Marina, lutadora altiva;
brava guerreira pela liberdade
do homem do campo e da cidade;
a mais autêntica dessa força viva.

Por isso te tomamos por bandeira;
estandarte de esperança renovada...
Archote clareando a nossa estrada
no pélago, a estrela timoneira...

És para nós o exemplo verdadeiro
de política sem corrupção.
És paradigma dessa geração
que não vende seu voto por dinheiro.

Assim, Marina, na oportunidade
do lançamento de candidaturas,
entre todas aquelas que são puras
teu nome nasce como uma claridade
após um temporal de noite escura.

Marina, permita que a nossa voz,
dos veteranos e da mocidade,
se ajunte à tua, para a liberdade
abrir as suas asas sobre nós...


Rio Branco, 27.06.1990 – Recitado no lançamento da Candidatura de Marina.
Mário Maia em Sombras siderais e outras sombras (1990) p.103-104

domingo, 17 de agosto de 2014

ODE (II,10)

Horácio (65-8 a.C.)


Muito melhor, Licínio, viverás,
não buscando o mar alto, sempre afoito,
nem te ficando, cauto, junto à praia,
            rábido o mar.

À áurea mediocridade, se alguém a ama,
da velha casa o desasseio evita;
mas, também, sóbrio, foge aos ricos tectos,
            causa de inveja.

O vento agita sempre altos pinheiros,
fragorosas, desabam altas torres
e o raio fulminante o pico fere
            de altas montanhas.

No dia aziago, espera; no bom, teme,
preparado o teu peito à sorte adversa.
Se Jove hoje nos dá duros invernos,
            Leva-os depois.

Se vais, agora, mal, nem sempre o irás.
Desperta Apolo, em sua lira, às vezes,
a silenciosa musa, pois nem sempre
            o arco distende.

Sê animoso, sê forte, na desgraça:
sábio, saibas, porém, quando te é muito
próspero o vento, contrair a tua
            túrgida vela. 


HORÁCIO. Odes e epodos. Tradução de Bento Prado de Almeida Ferraz. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p.105-107

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

A MAÇÃ

Samira Makhmalbaf dirigiu o filme “A maçã” (Sib, 1998, Irã / França) quando tinha apenas 17 anos, sendo a mais jovem cineasta até hoje a concorrer a prêmio no Festival de Cannes. “A maçã” narra a história verídica de duas irmãs, Massoumeh e Zahra, trancafiadas em casa pelos pais - uma senhora cega e um senhor desempregado - durante 11 anos, o que as levou a um processo de retardo mental. A prisão domiciliar era justificada por uma passagem de um texto religioso segundo o qual as jovens são como pétalas, que fenecem ao contato do sol. 
> Leia aqui o comentário completo do professor e escritor Wanderson Lima.


A MAÇÃ

O primeiro plano do filme não poderia ser mais revelador de todo contexto do filme. Uma flor precisa ser regada, e uma mão do alto do plano tenta jogar água de uma caneca, mas há algum impedimento (fora de campo) que faz com que apenas um bocadinho de água consiga realmente chegar a seu objetivo. De fato, A Maçã será a tentativa de fazer com que essa flor possa ser regada livremente, que a mão que rega a planta possa ter toda a liberdade. Um filme contra os entraves da liberdade? Também. O primeiro filme de Samira Makhmalbaf surpreende menos pelo formato (mistura documentário-ficção comum nos filmes do seu pai, Mohsen Makhmalbaf, mas originalmente criada por Abbas Kiarostami a propósito do pouco conhecido Close-Up) do que pela sutileza com que ela mostra seus personagens, com o intrincado e um tanto insólito desenrolar dos acontecimentos.

A história da qual o filme parte nos é dita logo no começo do filme: um pai prende suas duas filhas em casa porque a mãe é cega. A partir de um abaixo-assinado organizado pelos vizinhos, o assunto passa a ser conhecido pelos jornais e pelas autoridades. Uma assistente social é designada para fazer com que os pais respeitem as definições da justiça: que às meninas seja dada a liberdade. O que no começo parece pura idiossincrasia paterna vai aos poucos se revelando como uma complicada teia de preconceitos, fanatismo e jogos de poder. Primeiro vemos a justificação filosófica para mantê-las presas: diz o Livro que as meninas são como pétalas de flor que se desmancham em contato com o Sol. Depois, mais tarde, o verdadeiro motivo: o domínio da mulher, cega, mas que aparece como a verdadeira força (do mal) oculta no filme, uma força sem cara (ela aparece sempre encapuzada), para defender o antigo modelo, em contraposição ao novo modelo, defendido pela assistente social. Poderia-se dizer que A Maçã é um filme feminista? Parece que não. O filme é, isso podemos dizer, um assunto de mulheres. De fato, elas são tudo que move o filme, e os homens (o pai e o vendedor de sorvetes) estão na história apenas como atualizadores de um sistema.

Mas há em A Maçã uma beleza bruta, desconhecida. Beleza documental, uma função-Freaks (o filme de Tod Browning): vemos as meninas embrutecidas pelo tempo de clausura — elas não falam direito (quase uivam!), se movimentam estranhamente, não sabem utilizar o dinheiro... Mas há algo que humaniza-as em primeira instância (e aí a função parece se confirmar), imediatamente. É o sorriso delas, o gosto de conseguir sair pela rua, de brincar selvagemente com as meninas mais ricas, de comer as maçãs resultantes de sua primeira compra...

Fala-se muito de uma suposta ingenuidade do cinema iraniano, de uma suposta sinceridade documental que é comum a todos os filmes iranianos. Não se poderia imaginar mais bobagem! Se certos filmes do Irã realmente assumem a forma lógica e estética de certos filmes do neo-realismo (Ladrões de Bicicleta, por exemplo), como O Jarro e Gabbeh, o grosso dos cineastas iranianos trabalha com o contrário da verdade, com a mentira. A reconstituição, figura clichê do cinema americano, torna-se no cinema do Irã um escalonamento de planos de interpretação possíveis (em A Maçã, os fatos realmente ocorreram e os protagonistas são os mesmos na realidade e na ficção), o cinema iraniano pode tornar-se um cinema da crueldade (Salve o Cinema) ou um cinema nitidamente voltado para a mentira como principal modelo para chegar à verdade (Kiarostami).

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

CANTIGA SEM REGRESSO

Cassiano Ricardo (1895-1974)


Um cacto me pergunta: quando?
O horizonte me interroga: onde?
Só o meu coração é quem sabe...
E este bate, mas não responde.

A paisagem se torna escassa
quanto mais longo é o meu caminho.
O céu é que vai aumentando
as suas tardes de ouro e vinho.

De quando em quando, de onde em onde,
paro: Só para quem duvida.
O que é rápido vai-se embora.
Passa sem pensar na vida.

O desencontro desta viagem,
por onde passo, fica impresso.
Não há esperança de chegada
e muito menos de regresso.

De quando em quando, de onde em onde,
faço do cacto a minha prece.
Do horizonte faço o meu leito
ensanguentado, se anoitece.

Regressar? já não é possível.
Seguir? já não é necessário.
Resta-me, no último horizonte,
o último cacto solitário.

O destino que me vence
é aquele de que sou oriundo.
Não é amar o que me pertence,
mas o que pertence ao mundo.

A viagem sem querer da vida,
pontilhada de agrestes luas,
me reduziu a duas palavras
espectrais, totalmente nuas:

Uma de pé, como um cacto: quando?
(a que ninguém me responde)
Outra, deitada no chão duro,
como um horizonte: onde?


RICARDO, Cassiano. Melhores Poemas. Seleção Luiza Franco Moreira. São Paulo: Global, 2003. p.75-76

terça-feira, 12 de agosto de 2014

GOVERNADOR RUY LINO – Um acreano da boa cepa

Regina Amélia D’Alencar Lino


Se vivo fosse, dia 13 de agosto José Ruy da Silveira Lino estaria completando 90 anos de idade.

Nascido no município acreano de Tarauacá, em 1924, Ruy Lino desfrutara  a aurora de sua vida nas brincadeiras infantis, nas peraltices naturais, divididas frequentemente com o amiguinho Geraldo Brasil, curiosamente nascido no mesmo mês, porém em data inversamente grafado à sua (dia 31) e residente na mesma rua, no número 132, defronte sua residência, de número 231. Ao final da primeira infância querida Ruy Lino seguira para Manaus, a fim de iniciar seus primeiros estudos no Colégio Dom Bosco da capital amazonense.

Sentindo despertar a vocação para o trato com a natureza vegetal e grande atração para lidar com a terra, Ruy Lino optara por fazer estudos da agricultura, escolhendo a Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, para desenvolver seu projeto, passando, também, a ter militância na política estudantil, com participação ativa na União Nacional dos Estudantes (UNE).

Concluídos os estudos de nível superior e já ingresso no quadro de funcionários do Ministério da Agricultura, Ruy Lino retornara ao Acre, no início da década de 1950, sendo lotado no setor de Fomento Agrícola Federal, divisão representativa daquele ministério.

Tratava-se de órgão responsável pela gestão das políticas públicas de estímulo à agropecuária, pelo fomento do agronegócio e pela regulação e normatização de serviços vinculados à agricultura. Aos vinte e seis anos de idade Ruy Lino já desempenhava atribuições de relevadas responsabilidades, no âmbito federal.

O que Ruy Lino queria, inicialmente, era a carreira agronômica, seu desejo íntimo... continuar engenheiro agrônomo.

Servir o Acre na república, para Ruy Lino significava voltar à agronomia, ser engenheiro do Ministério da Agricultura, cuidar de sua própria terra e de seus conterrâneos – tudo o que ele mais almejava.

Ruy Lino atendera, enfim, à “paixão humana”, o interesse vivo, palpitante, absorvente, no destino e na condição alheia, sobretudo dos pobres e sem suficientes defensores – o que se poderia dizer dos funcionários do Território do Acre, que recebiam, com contínuos atrasos, iníquas remunerações, como “extranumerários”. A eles passara a dedicar toda a vida, através da política, ajudar a sua terra, prestar ombros à sua época.

Constituindo família aos 27 anos de idade, com os filhos Regina, Beth, Ruy e Ovídio, Ruy Lino tivera na sua esposa zelosa, admirável e encantadora Niní, a primazia da mulher amada, sustentáculo sólido e  ideal para o desenvolvimento de todos os seus sonhos e projetos – idealistas e  racionalistas.

Lançara-se, então, à atividade política, sem prejudicar o tempo empregado à responsabilidade funcional dedicada à burocracia de sua repartição, vindo a filiar-se ao Partido Trabalhista Brasileiro – PTB, em cujo programa destacavam-se algumas reformas sociais, tais como a urbana, a agrária e a da educação.

Assumindo de corpo e alma as lides petebistas no Acre, Ruy Lino não medira esforços para denunciar e opor-se, de viva voz, às ocasionais irregularidades administrativas  que ocorriam  no Território. De salientar um incidente ocorrido com seu sogro, chamado ao gabinete do governador para ouvir, do próprio mandatário na época, a ameaça de espancamento ao seu genro, em praça pública, caso continuasse a levar a efeito os discursos denunciatórios. Sentindo-se profundamente ferido com as palavras ameaçadoras, e super injuriado, o sogro do jovem político, sem nada contestar, retirara-se à sua residência e, de revólver em punho, retornara ao palácio para pôr termo à ameaça sofrida, o que, naturalmente não viera a ocorrer, graças e intervenção de amigos íntimos, ligados a ambos. No dia seguinte, lá estava, em praça pública, Ruy Lino a denunciar, inflamado, de megafone em mão, o insensato destempero do governador e suas irregularidades.

Poucos anos depois, mais precisamente em 1961, estando o PTB na presidência da República, Ruy Lino fora nomeado governador do Território do Acre. Por essa época, encontrava-se aguardando a sanção do presidente, a Lei que elevaria o Acre à categoria de Estado, cujo projeto já tramitava há quatro anos – no período de governo do PSD. Surgira a chance daquele acreano minorar o sofrimento de seu povo – seu anseio.

Porém, faz-se mister algumas gotas de reflexão, no tocante às correntes políticas acreanas, na época, e a emancipação do Território à categoria de Estado. Sendo o PTB oposicionista, seria razoável o presidente Jango postergar a esperada sanção da lei acreana.

A União Democrática Nacional – UDN, na realidade, apresentara contestação, porém em termos.

Referira-se aos elementos sociais, aos grupos políticos, aos elementos administrativos e aos inexpressivos elementos econômicos. Parodiando a filosofia antiga, para alguns, Acre não possuía  terra, ar, água e fogo, isto é, para tornar-se estado, o Território seria desprovido das substâncias consideradas como força da natureza estatal.

Talvez não por ironia do destino, mas propositadamente, a citada Lei, sob o nº 4.070, fora assinada oito meses após a posse de Ruy Lino que, conforme verifica-se  em sua larga   entrevista ao Correio da  Manhã, do Rio de Janeiro, também ele apoiava a referida emancipação, categoricamente.
Durante o período que passara à frente do governo do Território do Acre, Ruy Lino, ao persuadir o presidente João Goulart, concretizara o anseio de todo o funcionalismo acreano, efetivando-os no Quadro Permanente, vinculado ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores, medida que visara tanto o desenvolvimento da unidade federativa, como o bem-estar social.

Quanto à transformação do Acre em Estado a própria contestação da União Democrática Nacional – UDN, elaborada pelo competente advogado Aluízio Macedo Maia, não apenas sugerira, como ratificara o fato de todos os acreanos serem autonomistas.

De fato, as respectivas ilustrações a que se tem acesso, fornecem comprovação que sugere buscas de entendimentos, entre os políticos, pois afinal todos  são acreanos.

Na certeza de que Jango sancionaria a Lei acreana, Ruy Lino pedira exoneração onze dias antes, desincompatibilizando-se do cargo de governador, para candidatar-se a deputado federal pelo Estado do Acre.

Eleito para sucessivas legislaturas com significativas margens de votação, Ruy Lino sempre procurou honrar e corresponder os sufrágios que seus conterrâneos depositavam nas urnas.

Há mais de meio século, até mesmo muitos adversários, ainda hoje, reconhecem a eficácia do esforçado feito do Deputado Ruy Lino, no que concerne ao Enquadramento de milhares de servidores.  E compreendem também que foi como político ou parlamentar que ele se imortalizou na história da política acreana, registrando-se, ainda, que Ruy Lino foi o primeiro, último e único acreano nomeado Governador do Território do Acre – Delegado da União.

Ruy Lino fora, enfim, um gigante em bondade, grandeza de atitudes, solidariedade, amizade, lealdade, convicções, exemplo de boas lutas e desprendimento.
A foto acima registra o principal escalão do último governo do então Território do Acre. Sentados, da esquerda para a direita: Alfredo Sanches Mubárac, governador José Ruy da Silveira Lino e Dr. José Tomaz Nabuco de Oliveira. Em pé, na mesma ordem: Dr. Pojucan Ribeiro, Abrahin Isper Jr, Prof. Geraldo Gurgel de Mesquita (Secretário Geral), Milton Matos Rocha, Cap. Manuel Ramos e Dr. Garibaldi Carneiro Brasil.


*Regina Amélia D’Alencar Lino é socióloga, e filha de Ruy Lino. Ex-vereadora, ex-deputada federal, e ex-vice-prefeita de Rio Branco – AC.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

MENINOS

Murilo Mendes (1901-1975)


Sentada à soleira da porta
Menino triste
Que nunca leu Júlio Verne
Menino que não joga bilboquê
Menino das brotoejas e da tosse eterna

Contemplo o menino rico na varanda
Rodando na bicicleta
O mar autônomo sem fim

É triste a luta das classes. 


MENDES, Murilo. Os Melhores Poemas de Murilo Mendes. Seleção Luciana Stegagno Picchio. São Paulo: Global, 1994. p.69

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

UTOPIA E BARBÁRIE

Do excelente diretor Sílvio Tender. “Utopia e Barbárie” (2009) transita por alguns dos episódios mais polêmicos da história mundial recente, como as bombas de Hiroshima e Nagasaki, o Holocausto, a Revolução de Outubro, o ano de 1968 no mundo (Brasil, França, Chile, Argentina, Uruguai, dentre outros), a Operação Condor, a queda do Muro de Berlim e a explosão do liberalismo mais canibal que a História já conheceu.

PASSAGEM ESTREITA

Isaac Melo


dorme o quarto
reclinado sobre a escuridão
ouço algo a pulsar
no silêncio do desvão
não sei se respiram as trevas
ou se agoniza o coração

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

NÃO SE ACEITAM TROCAS

Theodor W. Adorno (1903-1969)


As pessoas estão desaprendendo a dar presentes. Na violação do princípio de troca, há algo de absurdo e implausível; muitas vezes, até mesmo as crianças examinam com desconfiança quem dá algo, como se o presente fosse apenas um truque para vender-lhes uma escova ou um sabonete. Em compensação, pratica-se a charity, a beneficência administrada que, como um adesivo, tapa planejadamente as feridas expostas da sociedade. Dentro dessa empresa tão organizada já não há mais lugar para a emoção humana, a doação está necessariamente vinculada à humilhação pelo ato de repartir, de avaliar exatamente, em suma, pelo fato de tratar como um objeto aquele que é presenteado. Até o ato privado de dar presentes foi rebaixado ao nível de uma função social que se efetua com uma racionalidade contrariada, com base no cumprimento cuidado de um budget estipulado, numa avaliação céptica acerca do outro e com o menor esforço possível. O verdadeiro ato de presentear encontrava sua felicidade na imaginação da felicidade do recebedor. E isso quer dizer: escolher, dedicar tempo, desviar-se de suas ocupações, pensar no outro como sujeito: o contrário da negligência. Eis aí algo de que quase ninguém mais é capaz. Na melhor das hipóteses, as pessoas presenteiam aquilo que desejariam para si próprias, apenas um pouco piores sob alguns aspectos. A decadência do costume de dar presentes reflete-se na embaraçosa invenção dos artigos para presente, que se baseiam na pressuposição de que as pessoas não sabem o que presentear porque, no fundo, não querem fazê-lo. Essas mercadorias são desprovidas de toda relação com os seus compradores. Já eram artigos de encalhe desde o primeiro dia. Algo semelhante ocorre com a ressalva relacionada com a troca de artigos, que para o presenteado significa: – Aqui está sua tralha, faça com ela o que quiser; se isto não lhe agradar, para mim é indiferente; troque por outra. Ademais, em face do embaraço envolvido nos presentes habituais, sua substitutibilidade exibe até um aspecto mais humano, porque aos menos permite ao presenteado da algum presente a si mesmo, o que, porém, implica ao mesmo tempo a absoluta contradição do ato de presentear.

Em vista da enorme abundância de bens acessíveis até aos mais pobres, a decadência do costume de dar presentes poderia parecer indiferente e sua consideração algo sentimental. Entretanto, mesmo que na abundância isso fosse supérfluo – e isto é uma mentira, tanto privada quanto socialmente, pois hoje não há ninguém para quem um pouco de fantasia não possa encontrar exatamente algo que o alegre por completo – restariam como carentes de presentear aqueles que não presenteiam mais. Neles se atrofiam aquelas faculdades insubstituíveis que não podem prosperar no isolamento da pura interioridade, mas apenas em contacto com o calor das coisas. A frieza apodera-se de tudo o que fazem, da palavra amistosa que permanece impronunciada, da consideração que não é praticada. Essa frieza acaba repercutindo naqueles que emana. Toda relação não deformada, talvez até mesmo aquilo que é conciliador na vida orgânica, é um dom. Quem se torna incapaz disso por força da lógica da coerência faz de si uma coisa e deixa-se congelar.


ADORNO, Theodor W. Minima Moralia: reflexões a partir da vida danificada. Tradução Luiz Eduardo Bicca. São Paulo: Ática, 1993. p.35-36

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O SONHO DA ARGILA

Thiago de Mello


O vocábulo puro, em que me amparo,
esquiva-se a meu jugo; e raro canto.
Que a palavra da boca é sempre inútil
se o sopro não lhe vem do coração.

Mudo, contemplo os valerosos feitos
de quem funda caminhos sobre os mares
e edifica cidades e ergue torres
de cujo topo logre dominar
o mundo inteiro – e ver que o mundo é pouco.

Antes os que, cegos, trabalham a terra,
sorvendo-lhe os tesouros mais esconsos,
sem assombro, no convívio dos bois,
com eles aprendendo a ser humildes,
e dormem, vinda a noite, sossegados,
– permaneço calado, e todavia
algo em mim lhes inveja esse dormir.

Não me pranteio por saber-me turvo
ou por não me caber a paz dos brutos.
Sei que morro amanhã, mas não me louvo
a sóbria face que disfarça o medo.

Move-me ao canto ver que a sombra cresce
dentro de mim, enquanto um sol avaro
esplende oculto – em céus só vislumbrados
quando a argila, grotesca e ousada, sonha.
E ver o inútil dessa argila em sonho,
mais que mover-me ao canto, me comove.


MELLO, Thiago de. Vento geral (1951-1981). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984. p.84-85

terça-feira, 5 de agosto de 2014

MAPA

Murilo Mendes (1901-1975)

A Jorge Burlamaqui


Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluido,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregam numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
Gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem nem o mal.
Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos,
não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim.
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações...
Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.
Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noites, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção,
O mundo vai mudar a cara,
A morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.

Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres,
vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar,
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.
Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens “práticos”...
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
e os soldados que perderam a batalha, às mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito...
Viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre em transformação.


MENDES, Murilo. Os Melhores Poemas de Murilo Mendes. Seleção Luciana Stegagno Picchio. São Paulo: Global, 1994. p.24-26

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

DEPOIS DE TUDO

Cassiano Ricardo (1895-1974)


Mas tudo passou tão depressa.
Não consigo dormir agora.

Nunca o silêncio gritou tanto
nas ruas da minha memória.

Como agarrar líquido o tempo
que pelos vãos dos dedos flui?

Meu coração é hoje um pássaro
pousado na árvore que eu fui.


RICARDO, Cassiano. Melhores Poemas. Seleção Luiza Franco Moreira. São Paulo: Global, 2003. p.225

DO LER E ESCREVER

Friedrich Nietzsche (1844-1900)


De tudo escrito, amo apenas o que se escreve com o próprio sangue. Escreve com sangue: e verás que sangue é espírito.

Não é coisa fácil compreender o sangue alheio: eu detesto os que leem por passatempo.

Quem conhece o leitor nada mais faz pelo leitor. Mais um século de leitores – e até o espírito federá.

Que todo mundo possa aprender a ler, a longo prazo isso estraga não só a escrita, mas também o pensamento.

Outrora o espírito era Deus, depois se tornou homem, agora está se tornando plebe.

Quem escreve em sangue e em máximas não quer ser lido, quer ser aprendido de cor.
Nas montanhas, o mais curto caminho é aquele entre um cume e outro: mas para isso tens de ter apenas pernas compridas. Máximas devem ser cumes: e aqueles a quem são ditas devem ser grandes e altos.

O ar fino e puro, o perigo próximo e o espírito pleno de alegre maldade: essas coisas combinam.

Quero ter duendes a meu redor, pois tenho coragem. A coragem que espanta os fantasmas cria seus próprios duendes – a coragem quer rir.

Já não sinto como vós: essa nuvem que vejo abaixo de mim, essa coisa negra e pesada da qual eu rio – justamente isso é vossa nuvem de tempestade.

Olhais para cima quando buscais a elevação. Eu olho para baixo, porque estou elevado.

Quem, entre vós, pode ao mesmo tempo rir e sentir-se elevado?

Quem sobe aos montes mais altos ri das tragédias do palco e da vida.

Corajosos, descuidados, zombeteiros, violentos – assim nos quer a sabedoria: ela é uma mulher, ela ama somente um guerreiro.

Vós me dizeis: “A vida é difícil de suportar”. Mas por que teríeis vosso orgulho de manhã e vossa resignação de noite?

A vida é difícil de suportar: mas não sejais tão delicados! Todos nós somos belos asnos e asnas.

Que temos em comum com o botão de rosa, que estremece porque sobre o seu corpo há uma gota de orvalho?

É verdade: amamos a vida por não estarmos habituados à vida, mas ao amor.

Há sempre alguma loucura no amor. Mas também há sempre alguma razão na loucura.

E também a mim, que sou bem-disposto com a vida, parece-me que borboletas e bolhas de sabão, e o que há de sua espécie entre os homens, são quem mais entende de felicidade.

Ver e esvoejar essas alminhas ligeiras, tolas, encantadoras e volúveis leva Zaratustra às lágrimas e ao canto.

Eu acreditaria somente num deus que soubesse dançar.

Quando vi meu diabo, achei-o sério, meticuloso, profundo e solene: era o espírito de gravidade – ele faz todas as coisas caírem.

Não com ira, mas com riso é que se mata. Eia, vamos matar o espírito de gravidade!

Aprendi a andar: desde então corro. Aprendi a voar: desde então, não quero ser empurrado para sair do lugar.

Agora sou leve, agora voo, agora me vejo abaixo de mim, agora dança um deus através de mim.

Assim falou Zaratustra.


NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução, notas e posfácio Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p.40-41

sábado, 2 de agosto de 2014

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

PESSIMISMO

Inês Lacerda Araújo


Matança de ratos presos em uma ratoeira, é essa imagem que vem para descrever o massacre da população civil da Faixa de Gaza. Espremidos entre o mar, a fronteira com Israel e com o Egito, ambas fechadas, dois milhões de habitantes não têm para onde fugir dos bombardeios israelenses.

Enquanto o Hamas se serve de prédios particulares e públicos para a entrada de túneis e depósito de armamento, e Israel bombardeia tais prédios, o pior, em abrigos da ONU, mais de mil pessoas, crianças e mulheres morrem, outras são feridas, mutiladas. Qual esperança para esse canto fervilhante do planeta?

Leste da Ucrânia, uma senhora tem o teto de sua cozinha perfurado pelo cadáver nu de uma mulher! Estilhaços de um míssil derrubaram um avião civil, choveram cadáveres (298) do céu!

Brasil: pai que mata filho, madrasta que o enterra; policiais que arrastam o corpo de uma mãe caído do porta malas de uma viatura, talvez ainda com vida; black blocs com seus coquetéis e uma ação de protesto contra o capitalismo, bancos, revendedoras de veículos, prédios públicos, mataram um jornalista.

Examinemos a ação terrorista destes encapuçados. No comando deles no Rio de Janeiro, uma professora de filosofia, Camila Jourdan. Jovem, bonita, com artigos sobre Wittgenstein. Enfim, mestre, quer dizer, habilitada para ensinar o pensamento de filósofos, aqueles amigos da sabedoria, que ensinam ética, moderação, reflexão, raciocínio, lógica, uso de conceitos, busca da verdade!

Retire-se de nossa sociedade as indústrias, as trocas internacionais, a mediação dos bancos, o sistema financeiro, automóveis, ônibus (que foram incendiados), impeçam a circulação de pessoas, seria o caos.

É isso que visam os anarquistas do movimento black blocs?

Cegueira social, teórica e prática! Camila Jourdan chefia a "Organização Anarquista Terra e Liberdade". Ora, se é "anarquista", como pode ser ao mesmo tempo "organizada"?!

Alguns os defendem em nome do direito democrático de protestar; enquanto isso os que foram detidos, se serviram do sistema judiciário que eles próprios querem destruir. Se fossem consequentes e coerentes, dispensariam advogados, estes, afinal, pertencem ao sistema...

Diante desse quadro (e ele está incompleto), a pergunta:

Somos melhores que nossos antepassados?

Democracia? Os gregos a inventaram, talvez a tenham usado mais e melhor do que nós modernos.

Justiça? Os romanos e povos antes deles tinham leis, códigos e os aplicavam (prisões lotadas? no Brasil atual ...)

Conhecimento, ciências, progresso tecnológico? O que dizer da Renascença, de Leonardo da Vinci?

Medicina, antibióticos, mas e o vírus ebola? Não há vacina...

O que procuramos, nós humanos, o que conseguimos, e o que fazemos conosco mesmos?

Absurdos, abusos, violência, violação de direitos, muito sofrimento.


A história nos mostra a vida dos povos, e nada encontra a não ser guerras e rebeliões para nos relatar; os anos de paz nos parecem apenas curtas pausas... E de igual maneira a vida do indivíduo é uma luta contínua... Por toda parte ele encontra opositor, vive em constante luta, e morre de armas em punho (Schopenhauer).


*Inês Lacerda Araújo - Professora de Filosofia durante 40 anos, na UFPR, e nos últimos anos na PUCPR. Autora de livros sobre Epistemologia, História da Filosofia e Teoria do Conhecimento. Atualmente aposentada.

SOLIDÃO

Isaac Melo


entre uma mão e outra mão
ainda que unida
há   cem   anos  de  solidão