segunda-feira, 28 de abril de 2014

O VALOR DA IRONIA

Inês Lacerda Araújo


Para o senso comum, ironizar equivale a caçoar, a gozar de algo ou de alguém, a conotação do termo é negativa.

Para a filosofia, a ironia tem outro alcance e outra conotação. Toda situação pode ser reelaborada pelo ângulo da ironia, de modo a assumir certa distância que um olhar perquiridor e atento, que permite a reflexão e o questionamento, abalam o que já sabia, o que se tinha como certo e seguro. O ironista pergunta, será assim mesmo? Você não conseguiria ver de um modo novo, diferente? Aquilo que você considera assentado, por acaso não poderia ser abalado, modificado, reinventado?

E a resposta do filósofo irônico será sempre SIM!

A ironia de Sócrates parte da introspecção, da descoberta de seu eu, atingir pelo olho interior o que há de divino dentro de si, a sua sabedoria. Aquele que crê saber, nada sabe, pois acha que já conhece tudo. Aquele que diz nada saber é realmente sábio, pois este não crê saber o que ainda ignora. Ou seja, não se trata de um jogo de palavras e sim de um ponto de partida: para chegar à sabedoria, é preciso reconhecer a ignorância, livrar o espírito dos erros e prosseguir no caminho da verdade. A ironia leva ao desmonte das ideias prontas, a ironia tira o chão dos que se creem superiores. Sócrates conduz a argumentação fazendo com que a pessoa se confronte consigo e com tudo o que considera como correto e verdadeiro sem exame prévio, a ponto de essa pessoa se irritar; o próximo efeito é a pessoa se libertar das opiniões e abrir-se para novos ensinamentos.

Como Sócrates tinha muitas dúvidas, ele instigava dúvidas nos outros, e, pelo diálogo ia modificando as noções antes aceitas; desse modo o próprio filósofo ia construindo o conhecimento, ele como que pavimentava o caminho para a vida reta e virtuosa, que é a finalidade da sabedoria.

Voltaire ironizou por meio do recurso ao absurdo, ao non sense e à contradição: dizer o contrário do que se quer comunicar, mesmo correndo o risco de não ser compreendido. Aliás, quem não compreende o significado de um dito irônico, falta-lhe informação, leitura, cultura. E talvez com pessoas muito ingênuas ou pouco informadas, o esforço de ironizar não compense.

E ironizar compensa? Não será uma ironia que a própria ironia desloque a si mesma?

O riso silencioso do filósofo, a que se referia Foucault, é irônico. Apontá-lo como estruturalista ou como filósofo da vanguarda, ou como um guru que tem resposta para todas as questões, a isso tudo a resposta vem num tom irônico. Se me consideram positivista, disse ele, sou um "positivista feliz".

Há todo um jogo de significações com ida e volta a contextos para que a ironia seja interpretada corretamente. Ironia: mas como assim, "corretamente"? E o que dizer, ironicamente, do que se considera como correto? A quem ou a que atribuir correção, sem tropeçar na ironia?

E a ironia das ironias? Viver para morrer...


INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e professora aposentada da UFPR e PUCPR.
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