segunda-feira, 16 de março de 2015

FÚTIL E DOIDO

Tagore (1861-1941)


Deixa esvanecerem-se todos os escrúpulos falsos, deixa-me perder o caminho sem esperança de regresso.

Deixa vir uma rajada de insensatez arrancar-me das minhas amarras. O mundo está cheio de valores, de operários, úteis e experientes.

Há homens que são os primeiros, facilmente, e homens que, honestamente, vêm depois.

Sejam felizes e prósperos e deixam-me ser fútil e doido.

Pois eu sei que o fim de todos os trabalhos é estar embriagado e arruinado.

Juro submeter agora todas as minhas pretensões à honestidade. Vou deixar ir embora o meu orgulho de saber e de julgar o que é bem e o que é o mal.

Despedaçarei o meu vaso de memórias e lançarei fora o último resto de lágrimas.

Vou limpar e clarear meu riso na espuma do vinho vermelho.

Rasgarei o traje de homem normal e farei o sagrado voto de ser uma criatura sem valor, um homem embriagado e arruinado.


TAGORE, Rabindranath. Tagore, obras selecionadas: O jardineiro, Lua crescente, Gitanjali, O cisne. Rio de Janeiro: Livros do Mundo Inteiro, 1974. p.60-61
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