terça-feira, 10 de março de 2015

O PODER DA REFLEXÃO FILOSÓFICA

Inês Lacerda Araújo


O mais conhecido símbolo da reflexão filosófica é a estátua de Rodin, “O Pensador”. Dobrado sobre si, mão no queixo, ensimesmado, voltado para si, para seus pensamentos.

Mas, se a reflexão se limitasse às atitudes acima, a filosofia não teria produzido tantos pensadores com suas obras geniais, que merecem atenção cuidadosa, estudo, e que são, sobretudo, um convite à reflexão. Como então se caracteriza a reflexão se não é apenas pelo voltar-se para si?

A filosofia deve e pode levar a perguntas, ao questionamento, ela conduz à raiz, à busca de fundamentação, e assim produz admiração, abre os olhos e a cabeça para nossa situação no mundo, na sociedade, na história, na cultura, em nossa vida.

Para chegar a esses efeitos, é preciso o que se poderia chamar de material de trabalho filosófico: ideias, noções, conceitos, propostas, indagações feitas pelos filósofos, mas não só por eles. Historiadores, artistas, escritores, jornalistas contribuem com material para a reflexão. A diferença está no grau de elaboração do material, enquanto os filósofos levam as questões a um nível mais geral, à abstração, às fundamentações, um artista, um cientista, um historiador, um escritor (e outros mais...), recolhem material mais concreto, documentos, situações do cotidiano, pesquisam, investigam. Eles precisam quantificar, construir com dados da realidade empírica para chegar a resultados, a feitos e fatos.

Isso não significa, como dito acima, que a reflexão filosófica seja feita nas nuvens, que o filósofo, ao abstrair, esteja longe das questões e problemas da realidade social, cultural, do avanço científico, dos acontecimentos locais, nacionais e mundiais.

De onde a filosofia extrai o conceito de justo, de belo, de bom? E o de verdade? Qual a motivação ou inspiração do filósofo para compreender o sentido da existência humana, de seus valores, das exigências de justiça, de melhoria da condição humana?

Justamente, das situações, acontecimentos, batalhas, contradições, sentimentos, buscas, indignação, aprovação, realizações, e de tudo o que nos constitui. A reflexão nos conduz a perguntar se isso tudo faz sentido ou se tudo isso é absurdo, se podemos conhecer os limites de todos os seres, ou não temos como saber o que nos limita. Os conceitos de ser e nada são abstrações? De que afinal se alimenta a filosofia?

Um exemplo de reflexão filosófica seria uma questão interessante e provocadora como esta:

Quem levaria mais a fundo a reflexão filosófica, Dostoiévski em “Crime e Castigo” ou Wittgenstein no “Tractatus Logico-Philosophicus”?

Sofrimento, liberdade, valores, justiça, punição, consciência moral, dilemas éticos, a produção literária de Dostoiévski dá a pensar.

Lógica, fatos gerais que constituem o mundo, limites do pensamento e da linguagem, a estrutura do mundo, como obter sentido para Wittgenstein, e isso pela análise filosófica.

Em comum: produzir, criar, levar a reflexão sobre nossas condições ao limite do possível, ilustrado pela tragédia (crime/morte) ou pela busca da forma lógico-gramatical, arcabouço último do sentido, lado a lado com o que é inexprimível (divino/inefável).

Em suma:
Refletir requer analisar, reunir pensamentos, dispor deles em certa ordem, concluir com sínteses renovadoras, dar razões, exigir rigor no raciocínio, e ser verdadeiro em seus propósitos.

Impossível sem honestidade e curiosidade intelectuais.


* Inês Lacerda Araújo - Professora de Filosofia durante 40 anos, na UFPR, e nos últimos anos na PUCPR. Autora de livros sobre Epistemologia, História da Filosofia e Teoria do Conhecimento. Atualmente aposentada.
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