quarta-feira, 11 de março de 2015

LIRA AMAZÔNICA

VEIO D’ÁGUA
Álvaro Maia (1893-1969)

Gosto de ouvir-te, veio de água pura,
recortando os recantos escondidos
de soluços, de vozes, de arruídos,
entre hinos de alegria e de amargura...

Choras no coração da selva escura
a saudade dos trilhos percorridos,
e ao teu pranto, lembrando os tempos idos,
a verde alma da terra se mistura...

És calmo e frio em fases diferentes,
ora na rude angústia das vazantes,
ora no desespero das enchentes...

E, corda de harpa rebentando em festas,
ergues ao céu, em notas delirantes,
a epopeia convulsa das florestas...


DURANTE A FEBRE
Heliodoro Balbi (1878-1918/19?)

Morrer! e ser lançado ao mar, no mar do Oriente...
No teu dorso senil, ondas do mar Vermelho!
E no deflúvio real do teu líquido espelho
Ir a Morte arrastando o meu corpo inda quente...

Meu loiro sonho! minha pobre alma! Meu velho
Tronco! a flutuarem dentre os juncais da corrente...
E debater-me em vão! como em vão, loucamente,
No arrebol se debate um áureo escaravelho!

No alto do céu radioso o ocaso dos Oceanos...
Meu sangue a jorrar pondo vermelhas estriais
Na garganta de luz dos squalos e goelanos...

E eu só! e eu mudo! a rodopiar em caracóis!
Tenho, através as rubras órbitas vazias,
A ilusão imortal de um combate de sóis...


VELHO TRONCO
Hemetério Cabrinha (1892-1959)

Olha esse tronco de árvore esgalhado,
levado a toa pela correnteza.
Quem nos cabe contar o seu passado?
Quem nos diz sua história? Com certeza

Floriu, frutificou, teve seu fado,
foi luz, foi pão, foi ouro, foi grandeza,
teve um viver de inveja saturado,
foi um sorriso aberto à natureza.

Vê! como ele vai sereno, a esmo,
arrastando o cadáver de si mesmo
para um destino torturante, triste...

No entanto, quantas vezes não enchera
de frutos bons, a mão que o abatera!
...Como esse tronco muita gente existe!


MELLO, Anísio. Lira Amazônica: antologia. São Paulo: Correio do Norte, 1965. p.26-27, 121-122, 123-124,
Postar um comentário