quarta-feira, 31 de julho de 2013

A MULHER DE CÓCORAS

Jairo Nolasco


Ao chegar a uma determinada repartição pública  vi uma mulher de cócoras. Aliás, ela estava de cócoras. No corredor e de cócoras. Alguns transeuntes a olhavam com reprovação, outros, covardemente, a ignoravam talvez por que ela só estava lá, assim de cócoras. E eu que não tinha nada a ver com isso e nem com a vida alheia notei que estava de cócoras. E no corredor.

Quem seria? Qual sua história? De rosto sofrido e cabelo rebelde, sem pintura e chapinha, aparentava mais anos do que a cronologia da certidão indicaria. Mãe de alguém. Talvez até avó e estava lá de cócoras. Possivelmente veio da zona rural a procura de atendimento no serviço público. Notei que na sala tinha um aviso dizendo que desrespeitar o servidor público no seu local de trabalho é crime e etc e tal. Como não havia ainda sido atendida e não podia reclamar sem cometer um crime, talvez tenha se encaminhado para o corredor e lá ficou de cócoras.

Há quanto tempo estava lá de cócoras? Não sabia ela que a Coreia do Norte, hoje, atacou uma ilha pertencente a Coreia do Sul e matou dois soldados sul-coreanos e que pode ser início de uma grande guerra? Que muita gente está perdendo o sono enquanto aguarda o próximo mês para saber quem vai fazer parte do novo secretariado do novo governo? Que o nosso prefeito declarou que será o melhor de todos os tempos?  Isso tudo acontecendo e aquela mulher ali de cócoras, sem milho, sem pombos, sem praça e bancos?

Nem ria e nem demonstrava irritação. Só estava ali de cócoras, impassível. Tive inveja daquela mulher. Não por que ela era mulher,  pobre e feia. Tive inveja por que ela era livre para ficar ali de cócoras. Eu nunca poderia ficar de cócoras em um corredor de uma repartição pública. Logo apareceria alguém para me demover da ideia e se insistisse perderia o emprego e a família. Os amigos teriam pena de mim e os conhecidos desviariam o olhar. "Como um cara desse não tem vergonha de ficar de cócoras no corredor?" _  diriam na mesa de bar quando eu passasse, inocente, do outro lado da rua.

Enquanto a ignoram, eu a respeito. Estava ali de cócoras a desafiar  nossa hipocrisia e nossas etiquetas de regras de comportamentos sociais de homens fracos de causar ânsia de vômitos no enfermo Nietzsche. Que se danem os olhares de reprovação dessas pessoas afrescalhadas. Ela estava se sentindo em casa e o seu mundo é o que importava. Estava de cócoras, mas não de joelhos a implorar reconhecimento. Aquela mulher de  fenótipo tosco me atormentou.

Sorte de Drummond que tinha uma simples pedra no caminho. Eu tenho uma mulher de cócoras e minhas retinas nem estão ainda assim tão fadigadas pelo tempo. Mas minhas pernas, sim, cansaram de ficar paradas ali vendo aquela mulher de cócoras enquanto meu tempo de homem moderno urgia. Fiz o que tinha de fazer e quando retornei para rever a mulher de cócoras, ela já tinha deixado o local. Deve ter se cansado de ficar ali servindo de escárnio ou foi convidada a se retirar por alguns sapientes funcionários públicos que devem ter descoberto uma lei que diz que ficar de cócoras no corredor de uma repartição pública é crime, etc e tal...

E ela, a mulher que estava de cócoras,  foi embora para qualquer dia retornar e ficar de novo de cócoras. Talvez o mundo nem fosse melhor se em cada esquina tivesse uma mulher de cócoras, mas  cada homem livre devia ter o direito de ver pelo menos uma vez na vida uma mulher feia e tosca de cócoras no corredor a espera de qualquer coisa, menos da compreensão alheia. A essa hora o Japão já deve ter ter declarado o seu apoio à Coreia do Sul. A guerra se aproxima e aquela mulher continua de cócoras. Terei pesadelo à noite.



> Crônica publicada em 23 de novembro de 2010 no Jurubeba Juruaensis. Um dos mais belos textos do nosso amigo da terra dos Náuas, Jairo Nolasco.
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