domingo, 14 de julho de 2013

DEIXEM NIETZSCHE EM PAZ!

Profa. Inês Lacerda Araújo 
Filosofia de todo dia


Há uma exploração indevida e inapropriada da filosofia de Nietzsche. Em especial a literatura de autoajuda considera que o filósofo da transvaloração dos valores pode ajudar a eliminar o stress!!!

As propostas de Nietzsche jamais poderiam ser usadas para aliviar o cotidiano de trabalho e de incômodos próprios a nossa sociedade. Trata-se de péssima literatura, que distorce noções básicas do filósofo apenas em proveito de um mercado que se expande a olhos vistos.

Eis algumas das relevantes contribuições de Nietzsche para pensarmos a filosofia, a vida, os valores e o destino humano.

As concepções filosóficas tradicionais inventaram categorias que se opõem entre si, como o devir dialético da história, vir a ser e nada, progresso e bem-estar. Essas "múmias conceptuais" impõem sentido a tudo, como a noção de causalidade, quando não passam de pressupostos metafísicos da linguagem.

Nietzsche admirava os "espíritos livres", abominava o espírito gregário, de rebanho, dos que se deixam conduzir, pois é fácil aceitar guias prontos (como os manuais de autoajuda....). Coragem, força, sem instinto gregário, auto-criação de tipos renovadores, inspiradores, que conseguem encontrar alegria como a do riso infantil, que possam contemplar do alto a paisagem, que criem seus valores sem necessidade de código moral. E isso sem pressão externa, sem modelos prontos, com autonomia.

Não há um estado final das coisas, nem prêmio nem castigo, há o jogo da vida como uma dança à beira do abismo.

Nietzsche enfrentou até mesmo o niilismo. O niilismo budista, passivo e pacífico, e outros niilismos (apesar de admirar escritores russos como Dostoiévski) podem ser confrontados pelo espírito livre de um Zaratustra ou de um deus mitológico dionisíaco.

O filósofo fala ao corpo, aos ritmos da música, à dança. Ao mesmo tempo exige de si o máximo de força e coragem contra o ideal de felicidade do homem medíocre.

Vontade de poder resume seu pensamento, ela alimenta o jogo, a luta, percorrer novamente os desvãos da história para mostrar a emergência, entre outras determinações, da consciência moral e do ressentimento. Impedidos de alçar ao topo e ver com seus próprios olhos, os líderes da fé inventaram a consciência moral, são ressentidos, quer dizer, preferem a culpa à grandiosidade, consideram meritoso o que baixa a cabeça e diz amém a tudo.

"O homem que se tornou livre, e ainda mais o espírito que se tornou livre, calca sob os pés a desprezível espécie de bem-estar com que sonham merceeiros, cristãos, vacas, mulheres, ingleses e outros democratas. O homem livre é um guerreiro. Segundo o que se mede a liberdade em indivíduos como em povos? Segundo a resistência que tem que ser superada, segundo o esforço que custa permanecer acima (...) É preciso ter necessidade de ser forte, liberdade, algo que se tem e não se tem, que se quer e que se conquista" (Crepúsculo dos Ídolos).

Difícil e complexo filósofo! Atenção mulheres, inclusive com aspectos hoje inaceitáveis, como a misoginia. 


INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e professora aposentada da UFPR e PUCPR.
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