quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A ERA DOS FESTIVAIS

Luiz Felipe Jardim

Parte II


Durante o desenrolar da segunda Guerra mundial, as grandes divisões da Juventude Hitlerista, crianças e jovens alemães com rígida formação militar, eram utilizadas, nos esforços de guerra das mais variadas formas que iam desde estafetas nas cidades, ao de combatentes no front. Conforme perdiam a guerra, num verdadeiro culto a Thánatos, que era a verdadeira essência do Nazismo, os contingentes de Jovens Hitleristas convocados para substituir os que pereciam nas funções essenciais eram de jovens cada vez mais moços. Quanto mais novos, mais leais aos princípios nazistas.

Enquanto Berlim era cercada pelos exércitos aliados, Hitler fazia sua última aparição pública numa cerimônia em que jovens hitleristas eram condecorados por atacarem tanques inimigos. Entre os condecorados estavam meninos de 12, 13 e 14 anos. Todos obstinados. “Estou convencido de que seremos vitoriosos na luta, acima de tudo por causa da juventude alemã e, em particular, por causa de vocês, meus meninos”. ‘Meus meninos’, foram as duas últimas palavras ditas em público por Hitler. O destino dos últimos milhares da Juventude Hitlerista estava selado: foram designados para fazer a defesa de Berlim. “Para eles a convocação para o ‘sacrifício supremo’ não era uma frase oca... Eles queimaram com desejo de provar que eram soldados... queriam manter as promessas feitas em suas canções”. Queriam manter as promessas feitas em  suas canções. Disse Melita Maschamann membro da Liga das Moças Alemãs, braço feminino da Juventude Hitlerista. Berlim foi, então, ocupada.

Salvador Dali - Study for the Decoration
Lobisomens era um grupo de elite com cerca de 200 Jovens Hitleristas, que fora treinado para atuação em guerrilhas no caso de derrota da Alemanha. Melita Maschmann fazia parte desse grupo que tinha base nos Alpes Bávaros. Certo dia, poucas semanas após a rendição da Alemanha, andando sozinha nas montanhas, ela deparou-se com algumas crianças que brincavam ‘de jogar bola’. Como não tinham bola para brincar e como eram crianças, brincavam de bola ‘jogando nabo’... “Vi-me observando crianças que brincavam nos arredores de uma aldeia. Elas jogavam um nabo umas para as outras como se fosse uma bola e riam às gargalhadas”... De repente a paisagem se alterou, uma janela se abriu e da janela saiu... música, uma melodia de Bach... “uma janela atrás das crianças se abriu e eu escutei, primeiro de leve, o grande ricercar da Oferenda Musical. Absorvendo a música, junto com o perfume dos arbustos em flor e as risadas das crianças, senti como se tivesse despertado de um feitiço ruim, no qual eu estivera atormentada por terríveis fantasmas e demônios infernais”.

“Dê-me oito anos para educar as crianças e elas serão para sempre bolcheviques”, disse Lenin. Hitler seguiu a lição e fez milhões e milhões de, literalmente ‘para sempre’ nazistas.

Melita escapou. O destino é o acaso que acontece, e naquele dia o acaso aconteceu. Apresentou-se como um raio suave que se lança sobre uma janela que se abre e, na forma de música, e para quem a ouve, faz ver. Naquele dia ela ouviu e viu o riso e o rosto de uma alegria natural e humana que desconhecia; ouviu, viu e sentiu o sopro sereno que sopra do lado alegre da vida; respirou o perfume das flores e sorveu novos sentidos no perfume que absorvia. Naquele dia em que a Oferenda Musical soou voando de uma janela que se abria, naquele dia o mundo mudou...

Norman Rockwell - Puppy Love
A janela se abria e mostrava o novo mundo que surgia... Do outro lado da vida...

Nas décadas de 1950 e de 1960, algo assim acontecia por tudo o mundo. Setores sociais secularmente oprimidos e marginalizados emergiam em importância na vida social, graças às possibilidades conquistadas e ou vislumbradas nas janelas e nas brechas do sistema capitalista. O mundo se transformava, entre outras coisas, pela força das forças sociais que se acreditavam na busca de novos valores e comportamentos, na busca de novas concepções de vida, de outras explicações do mundo e mesmo da felicidade. Resolvendo velhos problemas e acrescentando novos à vida social, o mundo se transformava realçando novos detalhes, que realçavam suas velhas feições. Um novo mundo surgia realçando velhos detalhes que realçavam suas novas fisionomias.

Nesse quadro de intensas mudanças, as classes populares e sua juventude cresciam em importância na construção das paisagens da vida social. O rádio ampliara sua voz, os jornais as suas falas, a TV e o cinema mostravam seus rostos, as revistas se nutriam com sua vitalidade. Vitalidade adquirida com o poder de consumo que a economia consumista gerava para dele se alimentar. Mas nem só da lógica do mercado vive a expansão do mercado, esse poder era conquista também. Conquista das classes trabalhadoras que, nas suas lutas, contraditoriamente, ampliavam o mercado capitalista.

Salvador Dali - Aurora depois de Michelangelo
Conforme ocupavam seus novos espaços físicos e imateriais, juventude e classes populares revolviam todo e qualquer solo onde pusesse seus pés, mãos, olhos ou espíritos. Tudo o que compreendiam e não compreendiam deveria passar pelo crivo de tribunais interiores, populares ou anônimos, inconscientes, apaixonados, radicais. Tudo deveria ser repensado, questionado, e uma nova seleção de valores, políticos, éticos e estéticos, deveria garantir mais felicidade a todos. A validade de todos os consensos estava sob fogo serrado.

Nesse quadro de novidades constantes, uma novidade se apresenta: grande parte do ‘novo’ era apresentado nas manifestações artístico-culturais e em outras atividades dos movimentos de juventude. Os festivais de música, como os de San Remo, Monterrey Pop e os Festivais de Música no Brasil dos anos 60, refletiam e simbolizam a existência desses fóruns interiores e coletivos, esses tribunais inconscientes, apaixonados e radicais, que repensavam, questionavam, selecionavam novos valores políticos, estéticos. Por isso eram palco para grandes disputas não só musicais, mas de tendências sociais que expressavam diferentes ideologias, diferentes concepções de mundo, e envolviam as sociedades em muito mais do que uma simples manifestação de gosto musical.

Isso era bom para todos. Havia boa música para ouvir, ou para vaiar; havia bons espaços e motivos para grandes reuniões de gente que ‘brigava em paz’; havia largo espaço na mídia; havia trabalho para grande número de artistas e para atividades de apoio. Havia grandes oportunidades para negócios, enfim, que, em última instância, davam vida material aos festivais.

Uma maior integração entre as mídias, além de crescente sofisticação das indústrias de entretenimento, permitia que as tendências sociais fossem melhor observadas e analisadas. Os estilos jovens eram focados, reproduzidos e depois propagados por todo o mundo, em revistas, anúncios, programas de rádio, filmes ou pela indústria musical. Por exemplo: Os testes nucleares feitos pelos EUA no Atol de Bikini no Pacífico de 46 a 58 resultaram no nome do traje de banho feminino, surgido em fins dos anos 40. O criador do traje, em claro jogo de marketing, pôs esse nome por achar que ele “provocaria reações explosivas como as aconteciam em Bikini”. Naturalmente que houve muita explosão e celeuma em torno da nova peça, aliás, das duas peças. Em muitos lugares ela foi radicalmente proibida. Foi proibida de ser usada no concurso de Miss Universo de 51. Nos EUA demorou mais de dez anos para ser aceita.

Em 1960, um jovem cantor de 16 anos, Brian Ryland, nos EUA, lançou a música Itsy Bitsy Teenie Weenie Yellow Polka Dot Bikini feita por Paul Vance para sua filha pré adolescente que era muito tímida para usar biquíni. A música rapidamente foi sucesso mundial e foi gravada em vários idiomas. O enredo da canção é bem simples: 1 na praia, a jovem tem medo de sair do armário onde vestiu seu biquíni; 2 ela vai para a areia, mas fica sentada enrolada em um cobertor; 3 ela finalmente entrou no mar, mas com medo de sair, fica na água apesar de estar "ficando azul ". Essas três versões da mesma canção nos dão uma idéia de como a música foi percebida e divulgada em todo o mundo. Uma da França, de 60, outra da Finlândia, de 61, e outra dos EUA, de 90.

Pouco depois, em 1962 a banda de rock Beach Boys já atraia as atenções do mundo para as praias da Califórnia, recheadas de meninas que usavam biquíni. O biquíni só tendeu a diminuir e nunca aumentou de tamanho, só de preço.

Imagine uma adolescente trabalhadora que ouviu, no rádio, essa música pela primeira vez. Achou a letra divertida, o ritmo interessante, não mais. No fim de semana ela assiste a um filme em que essa música é tema central numa história de amor entre adolescentes. Ela se ‘emociona’ com o filme e compra o disco que contém a música que continua a tocar insistentemente no rádio. Na semana seguinte ela compra uma saia no estilo da saia que a artista adolescente do filme usava. Também percebe que suas amigas usam algumas palavras novas, gírias, que são usadas pelas meninas no filme e que são comentadas nas revistas e até mesmo usadas em publicidades. A cada momento, a música de pouco mais de dois minutos, vai ganhando diferentes e diversos significados. De algo interessante, passou a algo ‘emocionante’, depois foi inspiração para que comprasse o disco, enfim, aos conteúdos psíquicos que a música inicialmente lhe despertara, foram-se acrescentando outros conforme ela tomava contato com outras dimensões, com novas esferas da canção ou de seus derivados. Quase todos estimulando impulsos de consumo, como a ‘entrada’ do cinema, o vestido, o disco, o aparelho para reproduzir o disco, a revista, etc. Ou seja, há muito mais do que música no mundo sonoro da imaginação, há ‘investimento subjetivo’, invisível, mas atuante e prático. Há nova e eficiente engenharia social. Nova e sofisticada engenharia mental. Tudo isso cabendo numa canção de pouco mais de dois minutos.

Bens e serviços antes exclusivos de pequenas parcelas da população mundial eram agora produzidos em massa e distribuídos nas extensas redes da sociedade de consumo por todo o globo. As multinacionais (termo surgido em 1960), atraídas por governos que lhes ofereciam estabilidade política, mão de obra barata e bons mercados consumidores, cruzavam as estradas e punham seus automóveis em marcha pelo planeta. Com a energia a preço de banana, (proporcionada pelo preço do petróleo a menos de dois dólares o barril), o automóvel era um dos carros-chefes propulsores da economia. Junto à indústria automobilística neste comando, e se beneficiando do barato da energia, estava a indústria de produtos eletrônicos, largamente consumidos pelos jovens. A relativa ‘paz’ desse período garantiria ao sistema capitalista, e ao ‘socialista’ de então, cerca de trinta anos (1945 a 1975) de prosperidade sem crises econômicas significativas que lhe sustassem o ‘desenvolvimento’. A produção mundial de produtos manufaturados cresceu quatro vezes e o comércio de manufaturados aumentou dez vezes.

O sucesso de Roberto Carlos em 1965 com a canção O Calhambeque, uma versão de Road Hog, ilustra a importância que a indústria automobilística e a de produtos eletrônicos passam a ter para a economia do Brasil, assim como aspectos das representações simbólicas que o carro passa a ter para parcela dos jovens brasileiros.

Salvador Dali - Hercules
Os altos níveis de produção e consumo criam profundo abismo entre as novas gerações e as anteriores. As mais antigas estavam marcadas pela recessão, guerra, racionamentos, sacrifícios. As mais novas cresciam num mundo consumista, de abundância, como raramente aconteceu na história. Numa certa medida, os mais antigos achavam que as atuais bonanças eram fruto de seus esforços, e sacrifícios no passado, o que contribuía para o aumento de tensões entre as gerações.

“No final os velhos sempre ganhavam”. Falou o guitarrista Frank Zappa, em fins dos 70.

Quando da guerra do Vietnã, a participação dos jovens foi de fundamental importância nos diversos fronts: o dos combates; os de apoio; e nos fronts dos contrários à guerra.

Nestes, havia campanhas intensas, que resultaram na enorme adesão da população às campanhas atibelicistas nos anos finais do conflito.

Andy Warhol - Mick Jagger
Jovens músicos participaram ativamente desse processo nos diversos canais abertos pelos festivais de música não competitivos (como Monterrey Pop e Woodstock) que atraiam multidões aos seus interiores, onde, além de música e outras expressões artísticas, se denunciavam os horrores e se exigia o fim das guerras, sobretudo a do Vietnã. A banda de rock The Rolling Stones era uma das mais famosas, ativas... e ricas desses grupos. Era referência para as lutas mais ousadas da juventude. Ídolos da contestação.

Keith Richards, guitarrista dos Stones, disse em entrevista na década de 80, que, leigos que eram nas questões financeiras, o grupo havia deixado a administração das suas ‘economias’ a uma corporação especializada que reinvestia o ‘dinheiro do grupo’ - que não era pouco. Até ai tudo bem, tudo normal. Os artistas cuidavam da parte artística e os economistas da ‘corporação’ cuidavam da parte financeira. E ‘os caras mandavam ver’ eram competentes, os lucros eram astronômicos! Acontece que a tal ‘corporação’, que lucrava com o lucro dos Stones, reinvestia os seus lucros na produção de... armas, armas de guerra...!!! Para serem usada aonde? Pois é, isso mesmo. Ou seja, enquanto os Rolling Stones ‘ralavam’ em combates simbólicos contra a guerra do Vietnã e mobilizavam pessoas no mundo para os movimentos pacifistas, sem saber, estavam financiando as atrocidades a que queriam pôr fim. Os lucros que ganhavam com suas músicas que procuravam defender a vida de jovens que não queriam matar, davam lucros à indústria da guerra que matava muitos daqueles mesmos jovens que suas músicas queriam defender. Indiretamente, ricos e pacifistas, animavam a guerra que queriam acabar. “A primeira vítima da guerra é a verdade” disse o senador americano Hiram Johnson.

Nossas vidas são feitas de ilusões. Algumas delas nós chamamos de realidade, muitas vezes, seu lado bom é quase pior que o ruim.

Rejeitando os valores dos adultos, os jovens pensavam que juventude por si só transformaria o mundo. Mas a juventude estava solta num mundo feito para os adultos, não para ela. Ademais, os negócios resultantes das atividades dos jovens haviam crescido muito, havia muito dinheiro envolvido, dinheiro que poderia gerar muito mais dinheiro. E isso não era coisa para adolescentes idealistas, isso não era ‘entretenimento’. Era negócio, e de ‘gente grande’ e ‘graúda’, não entretenimento de adolescentes filhos de operários.

Naquele dia em que Melita Machmann viu o outro mundo através da janela, ela ouvia o primeiro movimento da Oferenda Musical. Bach compôs essa peça em resposta a uma tentativa de humilhação que lhe foi feita por Frederico ll da Prússia que acreditava ser impossível a aplicação das regras da polifonia ao tema que, de súbito e em público, propôs a Bach. De súbito e em público o compositor improvisou um ricercar para três vozes, para espanto de todos. O Imperador dobrou o grau de dificuldade do desafio fazendo com que Bach solicitasse um tempo para concluir o que lhe era pedido.

Naturalmente que Bach, já com 62 anos, 59 de exuberante genialidade, percebera as intenções pouco nobres do rei guerreiro, por isso, buscou a melhor resposta. Ao fim de duas semanas, o compositor apresentou a ‘Oferenda Musical’ como solução ao desafio. O primeiro movimento da obra é o Grande ricercar composto para seis vozes, que, simultaneamente ‘cantam melodias diferentes’ na mesma música. Era esse o desafio de Frederico, o ricercar é um tipo de música homofônica, diferente da polifônica, por isso ele acreditava ser impossível a aplicação das regras da polifonia a um ricercar. Bach mostrou que isso era possível. As seis vozes que entoam melodias diferentes na mesma música trazem implícita a mesma mensagem que ecoa dos corais e orquestras: a de que a harmonia só existe porque existem as diferenças. A harmonia é a reunião dos diferentes cantos que entoam uma só melodia, é o ajuntamento das diversas melodias que dão vida a uma música. Sem as diferenças não existiria a harmonia. Sem harmonia não existiria música. Sem música e sem harmonia não existiria humanidade.

Ao superar o desafio, no séc. XVII Bach cumpria as promessas feitas em suas canções... Conseguiriam os nossos bravos e intrépidos Rolling Stones fazer o mesmo? Conseguiriam os nossos bravos rockeiros e pacifistas do séc. XX cumprir as promessas feitas em suas canções? Conseguiriam, as flores, vencer os canhões?

Não perca no próximo episódio, caminhando e cantando e seguindo...
Breve, nesse mesmo bat blog, nesse mesmo bat canal.


Cenas dos próximos capítulos


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE ROMA

Roma é uma senhora bela, de olhos vivazes, porém, de tez cansada, incapaz de se desfazer de seu longo vestido de costuras milenares. Suas ruas e becos estreitos abrigam centenares prédios que parecem se curvar aos transeuntes. As fontes, espalhadas por praças e vias, derramam constantemente suas águas cristalinas, como se fosse um pranto nostálgico por aquilo que foi e por aquilo que jamais voltará a ser.

Roma dos deuses. Roma pagã. Roma eterna. Roma cristianizada. Para onde quer que se olhe algo aponta para os céus. Os deuses greco-romanos num único Deus cristão. A quem compete julgar? Colunas e monumentos persistem a vencer as mãos esfaimadas do tempo e do homem que não quer se render. O brado dos césares persiste a ecoar. Não silencia jamais. E percorre praças, e ruas, e bosques.

Cruzar as ruas é como saltar de um século a outro. Tudo é tão distante porque intimamente tão próximo. Uma força estranha nos impele, nos abraça. Mortos e vivos se dão as mãos e caminham serenos. Afinal não se sabe se são os mortos que estão vivos ou se são os vivos que estão mortos. É tênue a linha da beleza. É tênue a linha da vida.

Roma extasiante. Roma sublime. Se a beleza que emana da arte é capaz de suprimir por um instante as agruras de um mundo humanamente desumanizado, Roma acalanta a humanidade. Em seu seio há todas as línguas, todos os rostos, todas as crenças. Todos sedentos: da Beleza: de Sentido: de Deus. Talvez.

Roma respira a arte. Roma vive a/da arte. Como não se render à beleza das centenas de igrejas ornadas de mosaicos, afrescos, esculturas, imagens e objetos centenares. Aqui uma pintura de Rafael. Ali uma escultura de Michelangelo. Lá um mosaico do período bizantino. O coração de Roma é a beleza. É a arte. É o divino. Os povos acorrem a ela para encontrar um passado que pertence a todos.

Destarte, não só de passado vive Roma, mas de todos os sabores. Pizzas, lasanhas e infinidades de pastas. Ruas tomadas de mesas, e bares em constante movimento. Quando o calor quer a todos sufocar, como agora, nada melhor que sair a uma sorveteria e saborear um gelato à moda italiana. Quantos poderão desfrutar Roma eu não sei. Mas aqueles que puderem, vivam-na, sintam-na, compreendam-na.

Marcel Proust, em Os Prazeres e os dias, asseverava que como a natureza, a inteligência tem seus espetáculos. Roma é a soma da inteligência dos povos ao longo dos séculos. Por isso é um espetáculo. O anseio insaciável que brota do ser humano pelo Divino, pelo Transcendente, pelo Desconhecido, por Deus fez Roma ser o que é. E me faz recordar os versos de Fernando Pessoa: “E, perto ou longe, grande lago mudo/ o mundo, o informe mundo onde há a vida.../ E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo...”.


P.S. texto escrito quando ainda me encontrava em Roma.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO – XIV

José Augusto de Castro e Costa


Cel.  Souza Braga
Há poucos dias à frente dos destinos do Estado Independente do Acre, o Coronel Antonio de Sousa Braga, demonstrara hesitação em permanecer no propósito a que se dispusera, em razões de interesses comerciais, incentivado que fora por comandantes de navios e outros seringalistas.

A fraqueza e indecisão do Coronel Souza Braga acentuara quando tomara conhecimento de que um grupo de bolivianos, chefiados por Ladislau Ibarra, estaria viajando para Puerto Alonso, acompanhado de uma força naval brasileira, com a disposição de reivindicar o Governo da Bolívia.

A comissão de bolivianos comandada por Ladislau Ibarra chegara a Puerto Alonso e encontrara uma cidade fantasma, uma vez que toda a sua administração encontrava-se no Alto Acre. Subindo o rio até Humaitá Dom Ladislau Ibarra resolve decretar estado de sítio suspendendo todas as garantias constitucionais em toda a região e nomeia-se administrador da alfândega de Puerto Alonso e encarregado da Delegacia Nacional boliviana.

Desacompanhados da força naval brasileira que ficara em Manaus, porém resolvidos a empregar a força, os bolivianos, ao encontrar o navio em que estava o Coronel Sousa Braga, promoveram grande fuzilaria que foi respondida pelos brasileiros, até surgir, quinze minutos depois, uma bandeira branca, denunciando a capitulação dos comandados por Dom Ladislau Ibarra. Registra-se, por assim dizer, o primeiro confronto armado entre brasileiros e bolivianos.

Pressentindo maiores e mais graves embaraços o Coronel Sousa Braga avaliara, por bem, devolver o governo do Acre a Dom Luiz Galvez, fato que deveria ocorrer através de sua renúncia “por motivo de saúde e negócios particulares”, a 30 de janeiro de 1900, um mês após a deposição do espanhol.

Dom Galvez retornara com a mesma disposição, reorganizara seu gabinete, expedira ordens e rapidamente seu Governo realcançara sua força vital. Entre as primeiras providências constaria enviar um representante do Estado do Acre para, junto ao Presidente Campos Sales, expor os motivos que os acreanos alegavam em defesa de sua atitude revolucionária, perante a Bolívia, inclusive dando ciência acerca dos últimos acontecimentos desenrolados naquela região da Amazônia.

As manifestações em Manaus, no entanto, prosseguiam sempre tomando elevadas proporções e graduando a subida da temperatura emocional, não apenas dos ativistas como dos observadores.

Com efeito, o Presidente da República recomendara ao Governador do Amazonas providenciar uma reunião entre todas as autoridades executivas, legislativas e judiciárias locais, com o fim de acertar medidas destinadas a reprimir o movimento separatista do Acre, deixando livre o território para o domínio da Bolívia. Todas as medidas deveriam ser tomadas sem o menor derramamento de sangue.

Com a concordância de todos os participantes, ficara estabelecido que a operação seria levada a efeito através de uma flotilha, constituída de três pequenas lanchas militares mais o vapor “Belém”, fretado pelo Governo do Amazonas, partindo para o Acre, em missão pacificadora, levando 112 militares, entre soldados e oficias. A ordem permaneceria não empregar armas contra os brasileiros que lutavam pela incorporação do Acre ao território nacional. Assim prontificara-se a fazer-se, conforme o plano do Governo Federal.

Segundo registros do governador Ramalho Júnior e do Tenente Burlamaqui, da Marinha brasileira, os expedicionários seguiram para Puerto Alonso, ali chegando na mais perfeita tranquilidade, sendo o oficial imediatamente recebido pelo Presidente Galvez, para transmitir-lhe o objetivo de sua missão.

Segundo versões do próprio militar, Dom Luiz Galvez ouvira silenciosamente as palavras do comandante da operação para, em seguida, diplomaticamente, expor os motivos da sua revolução, argumentar o que já houvera manifestado e proclamado, salientar sua obediência à intimação do Presidente da República e, finalmente, perguntar sobre quais as garantias que o governo ofereceria ao grande número de brasileiros envolvidos naquela insurreição, da qual considerava-se o único responsável. Ali deixara prédios, materiais, mercadorias, armas e munições, frutos do esforço de cada acreano, muitos inclusive de nascimento. Lembrara Dom Galvez que os habitantes da região acreana almejavam ser brasileiros e o Brasil não deveria ignorá-los, obrigando-os a reconhecerem outra pátria, outros costumes, outra língua, outra honra.

Em seguida retirara-se para dar ciência dos fatos a seu secretariado e demais colaboradores e pedir a manifestação particular a respeito de sua deposição, tendo todos aprovado sua atitude.

Estabelecidas as bases de sua rendição em face da concordância das argumentações apresentadas aos militares brasileiros, Dom Luiz Galvez elaborara uma carta ao Tenente Armando Burlamaqui, na qual, considerando os intuitos do Governo Federal em respeitar o acordo com a Bolívia, resolve depor suas armas e entregá-las ao Comandante da Flotilha do Amazonas e Chefe das Forças Brasileiras em Expedição.

Há controvérsias sobre a rendição do espanhol, segundo suas memórias.

Dom Galvez, deposto e prisioneiro sob palavra, passara a observar, calmamente o desenrolar dos acontecimentos, enquanto aguardava o dia da partida. A um repórter do jornal “A Província do Pará” que encontrava-se presente, como passageiro do vapor “Belém”, fora fazendo suas confidências... diversa das que faria 45 anos depois.

O repórter do jornal paraense constatara que a administração de Galvez apresentara proveito para Puerto Alonso, transformada que fora em bela e asseada, com casas bem construídas. Por extensão o referido jornalista considerara que o contingente armado, sob as ordens de Galvez, importaria em 800 unidades, munidos de fuzis, rifles e espingardas. Destacara, ainda, que Puerto Alonso possuíra um estoque de gêneros alimentícios satisfatório para o consumo durante dois meses, além de uma farmácia bem abastecida.

Já o Tenente Armando Burlamaqui, em suas recordações, registra, textualmente, que “é desolador o momento, e o quadro se grava indelével em nosso espírito, como que se sempre estivesse em frente de nossa vista uma palheta viva da cena”.

A deposição de Dom Luiz Galvez ainda guarda pontos controvertidos, que jamais serão devidamente esclarecidos.

Sabe-se que, afinal, demonstrando uma vez mais seu apreço pelo espanhol, o governador Ramalho Junior proporcionou-lhe meios pecuniários, de maneira que pudesse regressar à sua pátria natal.

De volta a Cadiz, aos 86 anos de idade, 45 outonos depois, o velho aventureiro decidira escrever suas memórias, certamente recheadas de exageradas utopias e algumas tolices, tais como foram seus primeiros quarenta anos de existência.

Antes, porém, ao agradecer ao governador Ramalho Junior, em carta procedente de Recife, Dom Luiz Galvez despedira-se, satisfeito por entregar a região acreana ao Brasil, seu país por adoção, e, textualmente, “levando no coração felizes recordações e tranquilidade por jamais entregar o Acre à nossa natural inimiga, a República da Bolívia”.



Leia aqui a série


* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Mora em Brasília e escreve o Blog FELICIDACRE.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Série A POESIA ACREANA > ROBÉLIA FERNANDES DE SOUZA

Robélia Fernandes de Souza pode-se dizer que é uma das vozes marcantes das letras acreanas. Sua estreia se deu a partir da década de 80. Mas o veio literário já escorria por seu ser quando ainda era ginasiana do Colégio Acreano, e escrevia para o jornal do referido colégio. Manauense de nascimento, ainda criança veio para o Acre, terra de seus familiares maternos. Graduou-se em letras pela Universidade Federal do Acre. Por muito tempo exerceu o magistério na área de Língua Portuguesa e Literatura. Ocupa a cadeira 35 da Academia Acreana de Letras.

Na poesia, estreou com o livro Asa de vida (1992). Depois vieram Conversa Afiada (1996), contos, e Boquinha da Noite (2003), acerca do folclore infantil acreano. Em 2004 publicou ConVerso novamente, o segundo livro de poemas da cronista-poeta. Porém, Robélia Fernandes sempre teve uma presença ativa nos jornais e revistas, além de participar de várias antologias locais e nacionais.

A voz lírica de Robélia Fernandes se acentua em temas que vão além de qualquer regionalismo, como exige a poesia. Para Clodomir Monteiro “não estamos diante de uma memorialista. Ela não oferece e nem cobra linearidade”. De seus versos emana um “universo metafórico dos fenômenos da natureza, seres e sentimentos”, acentuados por uma voz feminina. Mas, de acordo com a professora Margarete Edul Prado de Souza Lopes, a vontade maior da voz lírica é a de liberdade, mas sendo mulher, ainda está aprendendo a transpor a janela.

Robélia Fernandes por meio de uma escrita simples e bem elaborada traduz a relação entre a arte do texto e a da vida. E semeia poesia / E espera / Que amenheça o dia.

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ASA DE VIDA
Robélia Fernandes de Souza


Se a vida é pequena
São tantas as normas
E regras
Algemas

Se a vida é severa
São tantos arbítrios
E elos
Prendendo os sonhos
Soterrando castelos

Se tantos deveres
Lições
Costumes
Enterram meus pés
E me plantam
Como árvores

Só há uma saída
Faço da poesia
A minha asa de vida

Poesia é viagem
Por caminhos diversos
Libertos
É força motriz
Que se alarga
No peito infeliz
E se o espírito que é leve
E a alma mais leve
Precisam voar
Faço da poesia
A minha asa de vida


NEM ESPERANÇA
Robélia Fernandes de Souza


Não ouvi o apelo
Não senti o abraço
Não vi a estrela
Que me acompanhava
Havia luz na janela
Eu a mantinha fechada

Tanto tempo perdido
Tanta alegria comprada
Agora o trem corre solto
Não há mais estações
Só chegada


MENINA
Robélia Fernandes de Souza


A cama era dura
A casa era fria
A farinha era amarga

Mas eu era feliz
A rua, as pessoas, a cidade
Eram hostis
Mas eu era feliz

Eu tinha meu mundo
Tinha meus sonhos
Tinha um eu dentro de mim
O resto...
Só realidade
Não cabe no sonho


TELEVISÃO ÀS AVESSAS
Robélia Fernandes de Souza


Na televisão
Uma moça me convida
A comprar sabão
E outras pessoas
Dirigem carros
Bebem cerveja
E dançam e cantam
Abraçam-se, beijam-se
E fazem pouco
Da minha inércia
E solidão

Vampiro dissimulado
Suga de mim a emoção
Que alimenta os personagens
Toma meu cérebro
Filtra meus pensamentos
Amordaça
Neutraliza
Se faz a vida
Me faz a máquina
Diante dela
Me faço tela
Ela é quem vive
Eu sou imagem


A GAMELEIRA E O RIO
Robélia Fernandes de Souza


O rio dorme
O rio brinca
O rio cresce
Ela fica
            O rio desce...

Onde anda a cobra grande
O tucuxi encantado?
Onde apita Benjamim
Onde atraca Tocantins?

Passa a vida
O rio passa
O tronco morre
                O rio corre...

O rio lavava roupa
A areia prendia a popa
Do batelão carregado
Santa Maria, Deus te Guie,
Juriti, Estrela D’alva
A piracema explodindo
Na folia das tarrafas

Rio apitando grosso
Sem alarmar ribeirinho
Os balseiros navegantes
Sem pilastras no caminho

Desce o rio
É sua destinação
A água tudo arrastou
Naquela curva do rio
Só a saudade encalhou


AMANHECER
Robélia Fernandes de Souza


Dia novo
Tecendo luz
Na árdua conquista do espaço
Mistério arte
Que se renova
Em ouro e prata
Mistério arte
Que se revela
E a escuridão esgarça
Mistério ou magia?
Milagre de um novo dia


EU VI
Robélia Fernandes de Souza


Eu vi
Não me contaram.
Arigós aqui chegarem
Amontoados nas chatinhas
Vinham tentar a sorte,
A vida morava no norte,
Atrás da vida
eles vinham.

Gente rija,
gente terra
Alma plasmada com a pedra
Da caatinga
do sertão,
Traziam a sede na veia
Queriam a seiva da selva
Queriam o veio da seiva.
Acauãs em retirada
Noutros céus aclimatadas
Mas tentando um outro azul
Era tanta a esperança
Nos corações retirantes
que a saudade se encolhia
no mais escuro da alma.

Eu vi,
Não me contaram
Os arigós aqui chegaram
E nunca mais foram embora
Uns perderam
Poucos ganharam,
Plantaram sangue na terra
Mataram a sede da guerra
Teceram lendas no verde
E fizeram nossa história.


TECELÃO DE SEGREDOS
Robélia Fernandes de Souza


Aranha inábil
O homem
Horas a fio
Trança a trança
Tece, tece
A teia tonta
Dos seus segredos
Inventa
Esconde
Falseia
Escamoteia
            A teia
Arm a a ilha
            A armadilha
Disfarsa
            A farsa
Acaba por ser a presa
Enquanto a teia se esgarça


SEM TESTEMUNHA
Robélia Fernandes de Souza


A janela fechou-se
Num supetão
Não viu a chuva
Espatifar-se na calçada
Enquanto o vento
Ao relento
Como um cão
uivava


IPÊ AMARELO
Robélia Fernandes de Souza


Minha mão madura
Fez-se leve
Fez-se pura
No plantio do ipê
Um pezinho de ipê!
Raizinha do meu verde
No verde que vai crescer

Um dia...
Eu já no tempo esquecida
Os herdeiros do meu sangue
Herdarão flores amarelas
Se um pouquinho de mim
No perfume da lembrança,
Quem me dera!


ENCHENTE
Robélia Fernandes de Souza


O rio!
Calda em ponto de fio
De repente, fez-se mar

Água, água
Espelho d’água

E meu olhar comovido
Mergulha nas águas barrentas
Desafogando lembranças
Outras enchentes
Felizes enchentes
Do meu rio de criança

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SOUZA, Robélia Fernandes de. Asa de vida. Rio de Janeiro: Oficina do Livro, 1992.
SOUZA, Robélia Fernandes de. ConVerso novamente (poesia). Rio Branco: Tico-Tico, 2004.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

BRASILEIRO POR OPÇÃO – XIII

José Augusto de Castro e Costa


MONUMENTO A LUIS GALVEZ EM FRENTE A ALEAC
Era intuito de Galvez integrar-se à sociedade acreana, revestir-se do pensamento do povo brasileiro e irmanar-se na conquista de um bem aspirado. Tanto que refere-se ao direito fundado na posse de toda a região consagrada pelo trabalho e pelo sangue generoso do irmão seringueiro, para, ao final, arrematar: “Não aceitamos a bruta desnacionalização. A pátria abandona-nos. Nós criamos outra. Entre o Brasil e a Bolívia os brasileiros não podem vacilar e já que não podem ser brasileiros, resolveram não ser bolivianos”.

Teria sido esta a primeira opção daqueles heroicos brasileiros, em clara demonstração de que estariam expulsando a quem lho tomara um bem, e não tomando um bem de quem lho expulsara.

Há entretanto, relatos de que, no início, a conduta extravagante de Dom Luiz Galvez viria despertar o espírito dissidente, de alguns seringalistas e, justamente, de uma das revolucionárias mais ativistas, que o influenciariam e o estimulariam a levar a efeito ao então empenho utópico.

A ex-freira Joana, que após deixar os votos religiosos passou a dedicar-se ao magistério, no sentido de expandir o conhecimento da cultura brasileira, a partir do interior amazônico, onde ela esperava tornar-se mais útil, decepcionou-se ante o modo como aquele espalhafato demagógico, com comemorações intermináveis, regadas a muita bebida alcoólica, muitos doces e muitos leitões, revelava-lhe uma ideia fantasiosa da base que se instalava naquele Império.

Ausente às volúpias do Império, Joana passara a dedicar-se em organizar escolas e criar centros recreativos ao longo Acre, inteirando-se dos problemas e buscando as devidas soluções, o que viria a conquistar a simpatia e confiança da população.

Contudo, ainda em meio às comemorações excessivas, refletidas pelos corpos empilhados uns sobre os outros, abatidos pelas desenfreadas bebedeiras, ia-se compondo a administração do Império com a criação de Ministérios, sendo alguns ocupados por ilustres desconhecidos possuidores de alguma formação, porém sem condições para a devida estruturação. Em meio à contagiante empolgação, o poeta Taumaturgo Vaez, viu-se inspirado para escrever um grande poema sobre a conquista e fundação do Império do Acre, onde destaca-se a estrofe:

“Venho mesmo não sei de que Degredo
Improvisando altares no caminho,
A rezar, de olhos fitos no arvoredo,
Missas negras sem hóstias e sem vinho”.

Ao avistar um grupo de francesas banhar-se num igarapé, registraria o poeta em seu caderno de notas: “e ali estavam num feminino alarido de náiades em luxuriante cenário de verduras e água cristalina”.

A orgia desenfreada adicionada ao desequilíbrio administrativo e social sinalizavam o breve desmoronamento do Império acreano que aproximava-se vertiginosamente.

Consta que a ex-freira Joana, entre suas diligências, empenhara-se em transformar os centros recreativos em organismos paramilitares. Para tal, requisitara, com certa frequência, armamentos com munições, com o pretexto de condicionar o pessoal visitado para o exercício da caça e defesa de predadores.

retornar do Alto Acre Joana daria conhecimento ao Imperador Dom Luiz Galvez de um possível levante contra seu governo, organizado pelo seringalista Neutel Maia, aliado dos bolivianos.

A notícia, por certo, não abalara a postura imperial bizarra de Dom Galvez, insensível ao pressentimento de que seu Império começava em entrar em crise, que prosseguia com o absurdo surrealismo de concretizar projetos utópicos, sonhados por si e por seus ministros, agentes de mirabolantes ideias irrealizáveis com a volúpia imaginativa do “vira-vira-virou”!!!

Passados cinco meses de governo, preparava-se Puerto Alonso para as comemorações para a chegada do Ano Novo de 1900. A preocupação do Ministro da Cultura, François Blangis seria sanar algumas irregularidades acreanas, tais como o racionamento de bebidas, pedindo um imenso carregamento de vinhos, champanhes, whiskie, aguardentes e, evidentemente, o xerez exclusivo do Imperador. A programação para o dia 31 de dezembro constava de um grande desfile alegórico, que contaria aos súditos seringueiros os principais momentos da história do mundo, quando carros e figurantes, artistas fantasiados, viveriam os tempos da Grécia, Roma, as maravilhas de Luiz XV, a Revolução Industrial, a Queda da Bastilha e, claro, o Grito do Ipiranga.

Uma semana antes, porém, na orgia comemorativa do Natal, alguns importantes seringalistas compareciam ao barracão do Coronel Pedro Paixão, antes da ceia, para uma reunião política, na qual o Tenente Burlamaqui colocar-se-ia à disposição para por fim na desordem que campeava Puerto Alonso, prometendo derrubar o infausto Império de Dom Luiz Galvez.

Uma semana depois o Tenente Burlamaqui desembarcaria com as tropas contra-revolucionárias e no caminho para o Palácio, que seria cercado, iria recolhendo os embriagados e desgarrados, que seriam amarrados e amontoados no trapiche.

Ao proceder ao cerco do Palácio, os contra-revolucionários do Tenente deveriam ser rechaçados pelas tropas da ex-freira Joana que, armados, tentariam reagir, mas por pouquíssimo tempo, tendo em vista a elevada baixa que se prenunciara, incluindo Joana, que tombaria morta na escadaria do Palácio.

Em ambiente paralelo Dom Galvez procurara dirigir os destinos do seu governo, com a preocupação de lançar os determinados fundamentos de um poder aparentemente constituído, procurando corrigir o desarranjo social envolto em desajustada permissividade.

Esforçara-se Dom Luiz Galvez, em certo altura, para levar a efeito o projeto de uma organização sócio-administrativa, visando a instalação de indústrias, e ainda buscando o emprego de capitais para o desenvolvimento das mesmas e proliferação do comércio, fornecer o abastecimento de serviços públicos como água, luz e até comunicação telefônica. O governo oferecia, inclusive, o privilégio de exploração econômica à empresa que construísse o cais do porto, composto de armazém e provido dos demais setores complementares, a exemplo de depósitos, rampas, docas e flutuantes.

Raríssimas vezes que sejam, os vícios de linguagem adquirindo um tenaz poder, pressagiam o emprego do pleonasmo, que cativam sua presença em peculiar pensamento. Pois a ideia oferecida pelo plano de governo de Dom Luiz Galvez Rodrigues de Aria, em Puerto Alonso, é de que seria reflexo, no mínimo, de uma utópica ilusão, ou objeto de uma alucinadora miragem. Até a natureza deveria tomar necessárias providências quanto ao devido alargamento das margens do rio Acre e sua múltipla profundidade, adaptando-o para o suporte dos grandes calados dos vapores.

De salientar que o governador do Amazonas estivera a par de tudo, comunicado que fora pelo próprio Dom Galvez, optando pela omissão total, inclusive de cientificar aos poderes federais.

Porém, em meio a tremenda agitação política, a questão do Acre viera à tona, estampando na imprensa amazonense a manchete de que um aventureiro audacioso estaria promovendo o desmembramento de uma parte do Brasil. A contenda entre governistas e oposicionistas tomara vulto, com insinuações e incriminações, relacionadas à separação de uma área da comunhão brasileira. Os acontecimentos se desenrolavam de maneira incendiária e distante de qualquer previsão. Tudo porque o governo federal insistia em concordância com a Bolívia, reconhecendo como boliviano o território ocupado pelos brasileiros, há muitos anos. Então pedia ao governador do Amazonas, Cel. Ramalho Júnior, explicações sobre o excêntrico Estado Independente, o qual não se furtara em elogiar a inteligência e a operacionalidade do espanhol, considerando o Estado Independente do Acre uma organização completa e sem falhas.

Com o descontentamento dos seringalistas e a maioria dos comandantes dos vapores, porém, já acumulando consideráveis adesões, a turbulência política do governo acreano apresentara sintomas de irremediável desestabilização e desmoronamento o que, de fato, viria a concretizar-se com a deposição, prisão e consequentemente o “banimento do Presidente Luiz Galvez Rodrigues de Arias do território nacional, por ser considerado conveniente sua retirada dos domínios do Estado Independente do Acre”.

Fizera-se, então, levantar o movimento para substituir a administração de Dom Galvez, cuja aclamação para Presidente do Estado Livre do Acre, caberia ao coronel Antonio de Sousa Braga, o qual ficaria no poder somente por trinta dias.


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* José Augusto de Castro e Costa é cronista e poeta acreano. Mora em Brasília e escreve o Blog FELICIDACRE.