segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

VERSOS DE DEUS

Carlos Drummond de Andrade



I

Ao sentir nos pássaros
tanta liberdade
e aéreo poder,
imagina um pássaro
superior a todos
e tão invisível
que seu voo deixe
sensação de sonho.
Com leveza e graça
o homem pensa Deus.

II

No mais alto ramo
Deus está pousado
com uma garra apenas
e fita o mundo.
Do mais alto ramo
desfere voo
e sai por aí
bicando as coisas,
indiferente às coisas
bicadas,
encantadas.

III

Bica-me Deus
de manso nos olhos,
antes referência
que repreensão.
Alisa o bico
no local. E dói.
Ao sumir crocita:
"Hoje te perdôo."
O que Deus perdoa,
só o sabe Deus.

IV

Deus rumina
que fazer, acaso.
Mais um terremoto?
De que proporções?
Uma nova guerra?
De quantas nações?
Que margem ceder
ao capricho do homem?
Vai nascer um artista?
Nascerão idiotas?
Surgirão robôs?

V

Ao findar o tempo
tudo se acomoda
à sua vontade.
Já não há projeto
de outro Deus ou vários.
Laços entrançados,
gemidos, crepúsculo
sempre continuado.
O homem arrependo-me
da criação de Deus,
mas agora é tarde. 



ANDRADE, Carlos Drummond de. A paixão medida. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980. p.86-88

REFLEXÕES SOBRE A MORTE

Prof.a Inês Lacerda Araújo


A morte prematura de um ex-aluno meu, motivou esta postagem. A dor e o vazio da perda são pessoais, intransferíveis, causam perplexidade, espantam pelo fato de alguém estar aqui e subitamente, inevitavelmente e eternamente se ausentarem.

A morte, se isso serve de consolo, para Sócrates não é temível e nem  terrível: 

"Morrer é uma dessas duas coisas, diz ele: ou o morto é igual a nada, e não sente nenhuma sensação de coisa alguma, ou então, como se costuma dizer, trata-se de uma mudança, uma emigração da alma, do lugar deste mundo para outro lugar. Se não há nenhuma sensação, se é como um sono (...), que maravilhosa vantagem seria a morte!" E se houver o encontro com os que já se foram, prossegue Sócrates, "que maior bem haveria que esse?"

Somos finitos? O que há em nós de infinito ou imortal?

"Em que disposições de corpo e de alma devemos aguardar que a morte nos surpreenda; a brevidade da vida, a imensidade do tempo antes de nós e depois de nós, a debilidade de toda matéria" (Marco Aurélio).

Pascal, mesmo sendo cético, acha que essa é uma questão inescapável: "não há neste mundo verdadeira e sólida satisfação, nossos prazeres são puras vaidades, nossos males infinitos e a morte nos ameaça a cada instante (...) Eis o fim que espera a mais bela vida do mundo. Que se medite nisso: se não é indubitável que não há outro bem nesta vida senão o da esperança em outra vida".

Nada há em nós de infinito ou imortal para os filósofos da existência. Esta acaba, e fim. Para Heidegger há os que "esquecem" disso, vivem como se fossem eternos, e os que aceitam o fato de morrer e mais, vivem sabendo que vão morrer; "da-sein", ser aí, neste nosso mundo, mortais, ser-para-a-morte. O que não significa passividade nem negação, mas afirmação do valor da vida, por paradoxal que isso possa parecer.

O ser humano não só vive no tempo, ele vive também temporalmente, o tempo o constitui. 

Temporalidade implica começo, meio e fim.

Filosofar pode consolar.

O tempo se torna fator decisivo nas mortes acidentais, como a que levou João Paulo. Um segundo de desatenção e os fabulosos engenhos da humanidade matam. Uma arma, um meio de transporte, uma falha mecânica, e tantos outros fatores... 

Difícil aceitar, difícil acreditar...


INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e professora aposentada da UFPR e PUCPR.

domingo, 29 de dezembro de 2013

FLORESTA DO AMAZONAS: Heitor Villa-Lobos

"Uma das últimas composições de Villa-Lobos, escrita em 1958. Feita por encomenda da MGM, primeiramente para servir de trilha sonora ao filme Green Mansions. Villa-Lobos não ficou satisfeito com a edição e as modificações feitas na peça pelo também compositor Bronislau Kaper para sincronizá-la na película e decidiu transformá-la em uma suíte sinfônica, que gravou no Carnegie Hall de Nova York, sob sua própria regência, com solos da legendária Bidu Sayão. Dividida em 20 movimentos, a obra traduz em linguagem musical grandiosa os sons da floresta." 
Belo. Imponente. Arrebatador.

sábado, 28 de dezembro de 2013

PAULO JACOB

Rogel Samuel


Sob vários aspectos, ele é o maior romancista da Amazônia. Não é muito lido, conhecido, porque autor difícil, sofisticado. Sua morte, no dia 7 de abril do ano passado (2004), abre questão grave quanto à divulgação da cultura nacional brasileira. Sua morte não chamou atenção. Não se soube. Eu mesmo, amazonense de Manaus, onde morava o escritor, não tive conhecimento.
* * *
Vim a ouvir da boca de um chofer de táxi, em Manaus, no dia 18 de junho. Dizia-me ele: - ...Por ali, na rua onde morava aquele desembargador, que morreu no ano passado... A rua, cujo nome não me ocorre, fica ao lado do Igarapé. A casa, em frente ao igarapé, exibe a vocação de Paulo Jacob. Em Manaus, mas sempre voltado para a Floresta. Que ele conheceu bem, pois foi juiz em Canutama, no rio Purus, em 1952, e durante 10 anos viajou pelo Amazonas. Até que, nos anos 60, foi promovido a desembargador do Tribunal de Justiça.
* * *
Paulo Jacob escreveu muito. Muito. Cerca de 10 romances bem trabalhados. Quase ganhou o maior prêmio nacional de literatura da sua época, o Walmap, em 1969, com «Dos ditos passados nos acercados do Cassianã», 2º lugar. Excelente livro, imenso, denso, 359 páginas de um tipo pequeno, corpo 10 (Rio de Janeiro, Bloch, 1969). O Walmap tinha juízes como Jorge Amado, Guimarães Rosa e Antônio Olinto. Os três deram o 4º lugar para «Chuva branca», em 1967, um dos seus mais belos livros. Outro livro, «Vila rica das queimadas», título bem atual, ecológico, também ficou entre os finalistas do Walmap. O título denuncia, como o livro: «O coração da mata, dos rios, dos igarapés e dos igapós morrendo», sobre o desmatamento. «Chãos de Maíconã» também «menção honrosa» do Concurso Walmap.
* * *
Festejado foi pela crítica, Paulo Jacob. Leila Miccolis o considera «o Guimarães Rosa da Amazônia». Guimarães Rosa ficou entusiasmado com «Chuva branca». Aguinaldo Silva diz que ele fez «o primeiro grande romance da Amazônia». Assis Brasil compara «Chuva branca» a «Sagarana» de Rosa e a «The wild palms» de Willian Faulkner.
* * *
Ler Paulo Jacob é dificuldade. Chega que ele, em «Chãos de Maíconã», anexou um vocabulário da língua ianomami, no fim do livro. De um «Dicionário da língua popular da Amazônia» também ele é autor
* * *
Paulo Jacob nasceu em 24 de fevereiro de 1921 e faleceu no dia 7 de abril de 2004. Escreveu ainda: Muralha verde (1964), Andirá (1965), Estirão de mundo (1979), A noite cobria o rio caminhando (1983), O gaiola tirante rumo do rio da borracha (1987), além dos citados acima.
* * *
Em «Chuva branca», o personagem vai-se adentrando, vai-se assimilando na floresta, vai-se afastando da civilização, até que no fim parece que nem existiu – vira mito. No fim, na morte, ele tira a roupa, fica nu, perdido na mata, integrado nela, sabendo que vai morrer, perdido e integrado, no mitificado.
* * *
«O gaiola tirante rumo do rio da borracha» narra a viagem de um navio, um gaiola, um barco a vapor, saindo de Belém até o outro lado da Amazônia, no rio Purus até subir o rio Iaco, onde o navio naufragou e ali se soube que o preço da borracha despencara, de quinze mil réis caiu para oito, pondo na falência todos os coronéis. O personagem é o Comandante Antonio Damasceno.
* * *
Paulo Jacob foi professor universitário e Presidente do Tribunal de Justiça. Como Presidente de tribunal chegou a assumir o Governo do estado, em 1982. Sua morte deixa aberta a vaga de melhor romancista da região Norte.


> Rogel Samuel é poeta, escritor, doutor em letras, professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autor de Crítica da Escrita, 1979; Manual de Teoria Literária, Editora Vozes, 14 edições; Literatura Básica, Editora Vozes, em 3 volumes, 1985; O que é Teolit?, Editora Marco Zero, 1986; 120 Poemas, 1991; Novo Manual de Teoria Literária, Editora Vozes, 6ª. Edição, 2011; O amante das amazonas, Editora Itatiaia 2a edição, 2005; Fios de luz, aromas vivos, Fortaleza, Expressão Gráfica Editora, 2012; Teatro Amazonas, Edua, Manaus, 2012. Sócio Correspondente da Academia Amazonense de Letras.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

POEMA A UM AMIGO

Isaac Melo

A
JOÃO PAULO SOUZA LIMA
in memoriam


Meu amigo,
o que é a vida,
se tudo o que parece infinito
se desfaz num piscar de olhos,
qual castelo de areia
desfeito pela onda do mar;
E o que era presença
se torna apenas lembrete
numa inscrição tumular;
E lembrança, amarga e cara,
no peito da gente?!
A fé é alento, de todos, o mais ineficiente
Mas, por vezes, é o único que nos resta.
Estaremos sós,
como indagou o poeta,
com o dia que nos coube?
De nada sei sobre Deus
ou das coisas superiores.
Se houver um paraíso,
este deve ser o reencontrar-se
com todos aqueles que integraram
a frágil teia de nossa vida.
Pois, do contrário,
não haverá inferno maior
do que o estar privado,
por sempre,
daqueles que um dia
partilhamos,
por breve que seja,
uma palavra
um sorriso
um olhar...



O João Paulo era um amigo que fiz aqui na PUCPR. Ele era de Sena Madureira. Inteligentíssimo, venceu, todas as vezes que participou, o concurso de artigo científico que a PUC promovia, quando não, fazia o artigo e dava para os amigos concorrerem. Funcionário da PUC, também havia acabado de ser aprovado no mestrado de Filosofia da mesma universidade. De férias, ia de Curitiba para o Rio, donde se encontraria com a namorada, e juntos seguiriam para o Acre, onde ele anunciaria o seu noivado para a família, em Sena Madureira. Aos 23 anos... voou o meu amigo... deixando apenas as asas da saudade...

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Série História que o Acre Escreveu

TAL PAI, TAL FILHA
José Augusto de Castro e Costa


parecença entre pais e filhos é, em verdade, bastante comum, assim como é de impressionar a dessemelhança saltitante aos olhos, entre algumas dessas pessoas.

Conhece-se pais e filhos que não têm nada a ver uns com os outros, seja nos traços físicos, seja no porte, seja na tonalidade da voz, enquanto somos sabedores de outros relacionamentos que, independente do gênero, são incrivelmente parecidos.

No Acre, tenente Gesner e Rosa Maria exemplificam bem as leis da transmissão dos caracteres hereditários dos indivíduos.

Se existe graus de precocidade, a Rosa Maria, desde tenra idade, já se destacava como prematura de elevadíssimo nível.

De personalidade bem realçada, Rosa Maria era uma criança vivaz, desembaraçada e de respostas prontas para quaisquer eventualidades.

Estando ela presente, não era raro o enrubescimento de pessoas ao vê-la apontar o dedo médio, com o indicador e o anular recolhidos a alguém que ela julgasse tê-la diminuído, ou subestimado-a, ou dela caçoado: o popular “cotoco”.

Entretanto, irradiava uma simpatia contagiante, o que a mantinha sempre rodeada de amiguinhas, apesar de arteira.

Na vizinhança sempre era vista entre os coleguinhas e, de vez em quando era posta em prática alguma peraltice.

Fora assim que, juntamente com DAN-DAN, amiguinho vizinho, arquitetara  pregar uma peça a uma das figuras mais sérias, mais impolutas e mais respeitáveis de todo o Acre: nada mais nada menos que o Diretor do Instituto de Geografia e Estatística.

Residente próximo, no trajeto do seu Meira estava, necessariamente, a casa da Rosa Maria, na principal esquina do então conhecido Conjunto do IPASE, guarnecida por uma compacta cerca de fícus, arbusto de mais ou menos 80 cm de altura.

Sabedora da rotina do conceituado cidadão e  de que seu retorno se daria ao final da tarde, na chamada “boca da noite”, Rosa Maria servira-se de um grosso cinto preto de seu pai, amarrara um cordão escuro nas extremidades e passara às mãos do DAN-DAN, que ficaria no outro lado da rua, aguardando suas ordens.

No momento esperado, logo após uma rápida pancada de chuva, eis que surgira o elegante e esbelto seu Meira, dentro do habitual e impecável terno branco, com o guarda chuva posto ao braço, caminhando cabisbaixo, certamente meditando no transcorrido cotidiano.

Quando Rosa Maria percebeu a exatidão do momento, sinalizara ao DAN-DAN e começara a puxar o cinto que o colega iria desprendendo compassadamente. Ao notar a aproximação do que supusera tratar-se de uma pequena cobra, seu Meira passara a tentar espetá-la insistentemente com o guarda chuva. Prosseguindo na tentativa, sem atentar ao obstáculo, seu Meira  projetara-se desastradamente sobre a cerca de fícus molhada e, por consequência, sobre a Rosa Maria que ali encontrara-se escondida.

Indignado, o intranquilo senhor esbravejara:

– É você, desgramada !!!  Tinha que ser você, filha da mãe, peste desalmada!

E adentrou a residência da garota, super nervoso:

– Rosita! Olha o que a desgraçada da tua filha me fez !!!

O tal episódio teria sido apenas um a mais na existência daquela menina espirituosa, admiravelmente inteligente.

Rosa Maria cresceu, estudou, e tornou-se brilhante advogada, aposentando-se como bem sucedida defensora pública, sempre cercada da estima de quem com ela, até hoje, se relaciona.

Rosa Maria tem a quem puxar!


Seu pai fora uma figura marcante, em vários sentidos. Na juventude, ao servir, engajado, no 27° Batalhão de Caçadores do Exército, em Manaus, já despertava as atenções por sua tenacidade, conduta destemida, intrépida, arrojada e despachada, não obstante sua estatura mediana. Seus caracteres espartanos talvez tenham justificado sua convocação para incorporar o grupo de heróis da Força Expedicionária Brasileira, durante a Segunda Guerra, tendo inclusive participado, empunhando arma, da tomada de Monte Castelo, na Itália, nos últimos meses do conflito mundial.

No acampamento militar, reunidos em uma mesa, aguardando ordens para partir para as trincheiras, surgira,  repente, um caça solitário, do eixo (RO-BER-TO) e lançara uma pequena bomba de uns 20 kl, num projétil de 45 cm, mais ou menos, que, perfurando o teto do alojamento, fora cravar-se no pé esquerdo de um cabo sentado à frente do sargento Gesner, ficando aquele militar com o coturno pregado à tábua do assoalho, havendo daí, necessidade de serrar o pedaço da madeira, que fora extraído mediante emergente cirurgia.

Em imediata ordem unida, o coronel, comandante do grupamento, tentara levantar o moral da tropa, com palavras negativas, justamente defronte ao Gesner, e praticamente, face a face, bradava:

– Inaptos! Estúpidos! Beócios!

Respondera o Gesner, bem baixinho, para o coronel:

– Quem sou eu,  coronel!  É sua mãe!

– Sargento!! Um passo a frente! Cinquenta apoios, sargento!

Ao regressar ao Brasil, em meados de 1945, o então sargento Gesner, depois de receber justas honrarias, fora reformado, no posto de Tenente da Artilharia do Exército.

A título de passeio, viajara  para o Acre, onde, a convite do governador José Guiomard dos Santos, que, anos após, viera a ser seu padrinho de casamento, e posteriormente apadrinhado o batismo  de Rosa Maria, o jovem tenente viera a fixar residência e ingressar no Corpo de Oficialato da Guarda Territorial.

Pessoa de fácil relacionamento, de pronta disponibilidade incondicional e de relativo conhecimento, prático e teórico sobre assuntos civis e militares, tenente Gesner tornara-se, no Acre, uma figura bastante requisitada.

Quando, a 23 de junho de 1959, exercendo, por decreto governamental, o cargo de prefeito municipal de Sena Madureira, Gesner viera a protagonizar o exemplo de memorável eficiência administrativa e de  elevada benevolência de socorro, auxílio e proteção às vítimas de uma tragédia.

Naquela data fatídica, em Sena Madureira, ocorrera um pavoroso incêndio, que devorara, literalmente, cerca de vinte casas comerciais e duas residenciais, vindo a tomar dois quarteirões, em formato de “L”, compreendendo as ruas Padre  Egídio e Siqueira Campos.

Os prejuízos foram, naturalmente, astronômicos, o que levara os vitimados ao limite do desespero, como ocorrera com o senhor Tufic Assef, que, sentado a um banquinho, resistia em retirar-se do interior de sua loja, que estava sendo vorazmente consumida pelo fogo.

Fora a presença de espírito, a impetuosidade e a providência enérgica de Gesner que  desprendera aquele sofrido senhor, com assento e tudo para o exterior de sua propriedade, prometendo-lhe  que seu estabelecimento seria o primeiro a ser reedificado. E continuara, incansavelmente, Gesner a comandar voluntários e  a prestar amparo  e socorro, no combate ao pavoroso desastre, de ignorada origem.

Com relação a esse episódio, Gesner cativou admiração, não apenas por  envidar rodos os esforços para debelar as labaredas que devastaram as casas, mas pelo seu empenho em comandar e participar, literalmente, da reconstrução de todos os imóveis que foram demolidos naquele incêndio, começando pela loja de seu Tufic Assef, conforme prometido por aquele jovem administrador de 39 anos de idade, que dedicou grande parte de sua vida ao Acre.

Essa história ficou indelével na memória do povo de Sena Madureira e de quantos dela tomaram conhecimento, vindo a reforçar a tese de que, por estranho que pareça, é fato real que a vida no Acre absorve e empolga o espírito dos fortes, que ali demoram, apagando-lhes as saudades da terra distante e dando-lhes ânimo de permanência e fixação.


* José Augusto de Castro e Costa é autor de Brasileiro Por Opção (CEUMA, 2013). É acreano de Rio Branco, e reside em Brasília.

> Leia aqui outros textos de José Augusto de Castro e Costa.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

MIL RAZÕES PARA VIVER

Dom Hélder Câmara (1909-1999)


Faze com alma
o que na vida
te for dado fazer.
Mas não esqueças nunca
de integrar-te
nos grandes planos de Deus.

Vive o mistério da Criação
fazendo de cada dia
um cântico das criaturas
e tendo a confiante audácia
de exercer
tua incrível missão
de co-criador.

Vive o mistério da Encarnação Redentora
imitando o Filho de Deus
que se esqueceu de Si
– de Sua glória, de Seu poder – ­
para assumir, de cheio,
os problemas dos homens
de quem se fez irmão.

Vive o mistério da Eucaristia
unindo-te às Missas
que restabelecem
o equilíbrio do mundo
e sabendo
que só se une ao Cristo,
na Comunhão,
quem se torna um
com seus irmãos.



CÂMARA, Dom Hélder. Mil razões para viver: meditações do Padre José. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.9

CAPOEIRA DAS ÉGUAS de Anchieta Batista

O caro poeta paraibano José de Anchieta Batista, há muito radicado e dedicado ao Acre, anuncia o lançamento de seu primeiro romance: CAPOEIRA DAS ÉGUAS, planejado para vir à lume no final de janeiro de 2014. Anchieta Batista é autor de MENINO DA RUA DO BAGAÇO (Publit, 2009).

Sobre a obra, assinala o autor:

“No romance, o lugarejo recebe este nome fictício, mas ele existe de verdade, embora com outro nome. Visitei-o um dia desses, meio século depois. Hoje é cidade. Enchi-me de saudades de minha infância e daquele ambiente, mesmo hostil. Foi um tempo muito difícil, mas foi a infância que pude ter. Não guardo traumas. Meu pai foi um heroi e minha mãe foi uma heroína. Recebi muito amor.
Há pinceladas de ficção. Mas o romance fala do antigo ambiente do sertão paraibano (muita coisa ainda não mudou)... Fala da seca, de suas vítimas, dos programas hipócritas de socorro aos flagelados, dos personagens marcantes daquele fim de mundo, das crendices, da fé nas coisas do céu, do garoto pobre que foi para o seminário antes de completar onze anos (estudar no meio dos ricos) – uma espécie de orfandade com pais vivos –,  fala das saudades... de seu amor de criança deixado em Capoeira...
E, por fim...  um final feliz!!!”

> Visite aqui a página do poeta.

domingo, 22 de dezembro de 2013

TRIBUTO A CHICO MENDES

Isaac Melo


É possível progresso na Amazônia sem os bois do agronegócio?
É possível agronegócio sem a destruição da floresta?
É possível a floresta sem destruição?

Chico Mendes
Encontrou o momento propício ou fez propício
o momento para a discussão ecológica?

Chico Mendes
se tornou um mito porque era grande a sua causa
Ou a causa se tornou grande por sua luta?

A borracha nunca deu certo, nunca beneficiou o Acre,
Que viveu sempre das sobras que lhe deixaram.

Os seringueiros foram espoliados.
Os patrões faliram.
Os governos fracassaram.

Há mais de um século o Acre vive com
O mesmo modelo de economia,
Degradante, dependente e dispendiosa.

O pequeno agricultor abandona a lavoura
Para se dedicar a criação de gado, pois esta é menos dispendiosa
E mais lucrativa. Já que viver da farinha que produz, do arroz, do milho...
Não é suficiente, nem encontra mercado e valor adequados a estes produtos.
Não há dúvida entre uma saca de farinha e um boi.

Assim, o pobre desmata, o rico desmata.
Aquele um roçado por ano;
este dezenas de hectares por dia.

Mas os governos comemoram os resultados positivos.
A comemoração é a floresta em chamas,
Com as labaredas riscando os céus
Em dantescos fogos de artifícios.

A pobreza grassa os seringais.
Expulsa seringueiros, colonos, ribeirinhos.
Seringueiros de ontem, favelados de hoje.

Pequenas cidades com grandes problemas
Valas à céu aberto, ruas enlameadas, esburacadas
Prefeitos, sorridentes e cínicos, contentam-se com o que fazem
E pousam para fotografias que irão ilustrar
As páginas de seus blogs e jornais
Em títulos de matérias vangloriosas que anunciam o excelente
Trabalho que desenvolvem sempre em prol do povo.

O povo embasbacado e anestesiado
Agradece, contente, a benesse dos governos
Que o mantém na eterna dependência.

Cresce a criminalidade, os muros alteiam-se
As drogas, qual alagação indomável, alastram-se.
O governo cria mais prisão
(corta o investimento da educação)
para o pobre que, privado de pão,
se torna nem sempre o bom ladrão.

Mais penitenciária
Para uma educação precária.

O ribeirinho, o colono, na sua dignidade maltratada
Continua a plantar seu roçado, a criar seu gado
Abandonados pela inexistente política de Estado
Que lhe torce o nariz para investimento técnico e cultural.

Soldados da borracha apátridas caem desfalecidos
Nas trincheiras burocráticas
Assassinados por sua própria pátria
Que os enterrou para sempre
No túmulo, outrora verde, da floresta.
Haverá ressurreição?

Povos indígenas um dia dizimados em correrias
Na onda ‘civilizatória’ da ocupação
E progresso do último grande setentrião.

A cada curva de rio tombou um índio à bala.
Bilós, Cerqueiras e padres completaram
O amansamento do ‘gentio’.
Foram os últimos assassinos do rifle
E da palavra.

Agora índio pra ser índio tem que dançar o mariri
Tomar caiçuma, fantasiar-se com vistosos cocares
E fazer festival para gringo, político e intelectual apreciar.
Nova forma de extermínio?

Acre, acre, ácido,
Terra, como toda terra, de contradição
Porque contraditório é o homem.
Terra de meu amor
Onde viceja também meu ódio.

Fogos, música, satisfação e felicidade
Formam a grande mentira deste Estado.

E Chico Mendes?
Morreu em vão?

Em vão morre todo aquele cujo legado
Acaba-se enterrado, com o corpo, num caixão.