quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O HOMEM NÃO VEM AO MUNDO MOSTRAR O QUE É, MAS O QUE PARECE

Uma página memorável de Matias Aires, certamente uma das melhores que li nos últimos anos, de imagens significativas, sentido profundo e inquietante.


Nascem os homens iguais; um mesmo e igual princípio os anima, os conserva, e também os debilita e acaba. Somos organizados pela mesma forma, e por isso estamos sujeitos às mesmas paixões e às mesmas vaidades. Para todos nasce o sol; a aurora a todos desperta para o trabalho; o silêncio da noite anuncia a todos o descanso. O tempo que insensivelmente corre, e se distribui em anos, meses e horas, para todos se compõe do mesmo número de instantes. Essa transparente região a todos abraça; todos acham nos elementos um patrimônio comum, livre e indefectível; todos respiram o ar; a todos sustenta a terra; as qualidades da água e do fogo a todos se comunicam. O mundo não foi feito mais  em benefício de uns, que de outros, para todos é o mesmo; e para o uso dele todos têm igual direito; ou seja pela ordem da natureza, ou seja pela ordem da sua mesma instituição; todos achamos no mundo as mesmas partes essenciais. Que coisa é a vida para todos mais do que um enleio de vaidades e um giro sucessivo entre o gosto, a dor, a  alegria, a tristeza, a aversão e o amor? Ainda ninguém nasceu com a propriedade de insensível; a vida não pode subsistir, sem estar subordinada às impressões do gosto e do sentimento. Todos nascemos para chorar e para rir; a circunstância de chorar mais, ou menos, resulta de cada um de nós. A violência e a vaidade das nossas paixões nos fazem apetecer, e quem apetece, já se expõe aos delírios do riso e às amarguras das lágrimas; esse mesmo apetecer ainda só por si é uma espécie de sentimento e de prazer; a imaginação nos antecipa tudo, por isso o nosso contentamento, ou a nossa pena, chegam primeiro do que o seu objeto, e este quando vem, já nós estamos, ou abatidos de tristeza, ou cheios de alegria: somos tão sensíveis, que os sucessos para nos moverem não é necessário que estejam em nós, basta que os vejamos de longe; a nossa sensibilidade tem maior força na nossa mesma apreensão; daqui vem que no mal que se espera, ou se receia, não pode haver alívio, porque o pensamento Ihe dá uma extensão maior; em lugar, que o mal que já se sente, pode consolar-se, porque então se vê que tem limite. As coisas parecem que se espiritualizam para se entregarem a nós assim que as imaginamos; ou ao menos para que a eficácia delas se incorpore em nós, muito antes que elas cheguem; e deste modo as coisas antes que as tenhamos, já são nossas; e quando a causa se apresenta, já temos sentido os seus efeitos; por isso desconhecemos tudo o que vimos a alcançar, e nos parece que há falta naquilo que vimos a conseguir: as coisas, quando chegam, já nos acham saciados; porque o desejo é uma espécie de gozar mais ativa e mais durável, mais forte e mais contínua; daqui procede o ser tão deleitável a esperança, porque é uma espécie de possessão daquilo que se espera. Quem imagina o que deseja, tudo pinta com cores lisonjeiras e mais vivas; por isso a verdade é grosseira e mal polida; tudo o que descobre, é sem adorno; antes faz desvanecer aquela aparência feliz, com que os objetos primeiro se deixam ver na ideia, do que se mostrem na realidade. Todas estas propensões e inclinações se encontram em cada um de nós; e assim devia ser, porque as variações do tempo, da idade, da fortuna e dos sucessos, a todos compreende, e a todos iguala; só a vaidade a todos distingue, e em todos põe um sinal de diferença e um caráter de desigualdade, e por mais que a terra fosse feita para todos, nem por isso a vaidade crê que um homem seja o mesmo que outro homem. É sutil a vaidade em discorrer; por isso nos inspira que há desigualdade no que é igual; que há diferença no que é o mesmo; e que há diversidade donde a não pode haver: mas que importa que a vaidade assim discorra, se sempre é certo que os homens todos são uns, e que os não há de diferente fábrica; e que tudo quanto a vaidade ajunta ao homem é emprestado, fingido, suposto e exterior. Tirada a insígnia, o que fica é um homem simples; despida a toga consular, também fica o mesmo. Se tirarmos do capitão a lança, o casco de ferro, e o peito de aço, não havemos de achar mais do que um homem inútil e sem defesa, e por isso tímido e covarde. Os homens mudam todas as vezes que se vestem; como se o hábito infundisse uma nova natureza: verdadeiramente não é o homem o que muda, muda-se o efeito que faz em nós a indicação do hábito. Debaixo de um apresto militar concebemos um guerreiro valoroso, debaixo de uma vestidura negra e talar, o que se nos figura é um jurisconsulto rígido e inflexível; debaixo de um semblante descarnado e macilento, o que descobrimos é um austero anacoreta. O homem não vem ao mundo mostrar o que é, mas o que parece; não vem feito, vem fazer-se; finalmente não vem ser homem, vem ser um homem graduado, ilustrado, inspirado; de sorte que os atributos com que a vaidade veste ao homem, são substituídos no lugar do mesmo homem; e este fica sendo como um acidente superficial e estranho: a máscara, que encobre, fica identificada e consubstancial à coisa encoberta; o véu, que esconde, fica unido intimamente à coisa escondida; e assim não olhamos para o homem, olhamos para aquilo que o cobre e que o cinge; a guarnição é a que faz o homem, e a este homem de fora é a quem se dirigem os respeitos e atenções; ao de dentro não; este despreza-se como uma coisa comum, vulgar e uniforme em todos. A vaidade e a fortuna são as que governam a farsa desta vida; cada um se põe no teatro com a pompa com que fortuna e a vaidade o põem; ninguém escolhe o papel; cada um recebe o que lhe dão. Aquele que sai sem fausto, nem cortejo, e que logo no rosto indica que é sujeito à dor, à aflição e à miséria, esse é o que representa o papel de homem. A morte, que está de sentinela, em uma mão tem o relógio do tempo, na outra tem a foice fatal, e com esta, de um golpe certo e inevitável, dá fim à tragédia, corre a cortina e desaparece: a fortuna e a vaidade, que vêem desbaratada a cena, caídas por terra as aparências, prostrados os atores, emudecido o coro, trocados os clarins em flautas tristes, os hinos em trenos, os cânticos em elegias, e em epitáfios os emblemas; as rosas encarnadas convertidas em lírios roxos, os girassóis em desmaiadas açucenas, entrelaçados os louros no cipreste, os cajados confundidos com os cetros, e com o burel a púrpura; a vaidade, pois, e a fortuna, que em menos de um instante viram desvanecidos os triunfos da vida pelos triunfos da morte, precipitadamente fogem, e deixam um lugar cheio de horror e sombras, e donde só reina o luto, a verdade e o desengano. Assim acaba o homem, assim acabam as suas glórias, e só assim acaba a sua vaidade. 


AIRES, Matias. Reflexões sobre a vaidade dos homens. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953. p.84-88
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