domingo, 1 de junho de 2014

A BOLSA AZUL

Rogel Samuel


Quando entrou no táxi, pisou naquilo.

Vinha do teatro, com a mulher.

Casal de aposentados. Teria 76. Ela mais velha, uns 80.

Era tarde.

O táxi rodou nas silenciosas ruas a solidão da noite perigosa.

A mulher, cansada e sonolenta, nada dizia.

Chegando em casa, pagou e saiu do táxi.

A bolsa estava na mão.

A mulher só percebeu aquilo no elevador:

- O que é isso, José? perguntou, espantada.

- Calma, disse ele, escondendo a bolsa atrás de si. Estava no táxi. Está trancada. Vou devolver.

Ao chegar em casa, a mulher foi para o quarto e ele rapidamente entrou no escritório com a bolsa na mão.

- Vou ao banheiro, disse ele. Sempre usava o banheiro do escritório.

No banheiro do escritório, sozinho, examinou.

A bolsa estava na pia.

Era uma bolsa térmica, azul, de plástico, meio gasta.

Aquilo abriu sem dificuldade.

A bolsa estava quase toda cheia de dinheiro.

Havia notas de cem, cinqüenta, a maioria de vinte e de dez.

Cédulas usadas.

Maços de dinheiro, nenhuma identificação.

A bolsa fedia a peixe.

Ele pensou rapidamente: teria de esconder aquilo da mulher, levou para o escritório e esvaziou a bolsa no arquivo de ferro, que fechou à chave, junto com os documentos.

Agora a bolsa estava vazia.

- A bolsa estava vazia, disse ele, para a mulher. Mas acho que era de traficante.

- Por quê? perguntou ela, já aterrorizada.

- Tem cheiro de maconha.

A mulher se apavorou (era o que ele queria).

- Vou desfazer-me dela amanhã, concluiu. Vamos dormir.

Mas não conseguiu dormir. Cabeça a mil.

A mulher roncava ao lado.

Ele pensava em gastar aquilo, via-se com garotas de programa em hotéis de luxo. Lembrou-se de deputados, mensalão. Malas de dinheiro. Aquilo devia ser do Mensalão.

«Mensalão... mensalão...», pensava ele. Se era roubado NÃO precisava devolver.

«Dinheiro roubado!», criticava ele. «Roubado!».

Devia haver uma fortuna. Não ia contar as cédulas agora. Quando se levantava a mulher logo acordava. «Aonde vai?», perguntava ela. «Ao banheiro», ele respondia.

*   *   *

Pouco depois o telefone toca.

Do outro lado o cunhado urrava que estava falido, perdera a confecção, vendera o apartamento para pagar dívidas, ia ter de entregar o apartamento que um feirante comprou e exigiu pagar em dinheiro vivo, mas ao voltar pra casa com o dinheiro foi seqüestrado roubado agredido abandonado na linha do trem. «Perdi tudo!», finalizou. «TUDO!»

- A polícia pegou alguns bandidos, houve tiroteio, mas meu dinheiro sumiu, disse ele.

- De que cor era bolsa? perguntou ele ao cunhado.

- A bolsa era azul.


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