quarta-feira, 18 de junho de 2014

A CANÇÃO DO TÉDIO

Guilherme de Almeida (1890-1969)


Anda uma estrela pelo céu,
sozinha, arrastando um véu
de viúva.
– É a chuva.

Rola um soluço leve no ar,
bem longo no seu rolar,
bem lento.
– É o vento.

Perpassa o passo oco de algum
fantasma, quieto como um
segredo.
– É o medo.

Batem à porta. Abro. Quem é?
Uma alta sombra, de pé,
se eleva.
– É a treva.

Mas, desde então, alguém está
comigo. É inútil. Não há
remédio.
– É o tédio. 


ALMEIDA, Guilherme de. Encantamento, Acaso, Você: seguidos dos haicais completos. Campinas: Unicamp, 2002. p.159
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