quarta-feira, 25 de junho de 2014

O QUE É UM POETA

Júlia da Costa (1844-1911)


Sabes o que é um poeta, visto pelo lado triste da vida?

Escuta:

Um poeta é um objeto indefinível que se apresenta de improviso no mundo dos cálculos, a falar uma linguagem totalmente estranha, para os homens em cuja fronte só se aninha a sede do ouro e da vaidade.

É um meteoro desconhecido cujo brilhar veloz, é visto por aqueles que mais presos ao céu do que a terra, tem em si mais espírito que matéria.

Um poeta, é um problema, um objeto sem valia para a moça que mais presa aos seus enfeites, do que ao cultivo de seu espírito, desconhece esses arroubos da alma, esses melodiosos acordes do pensamento que se espraia nos mundos do infinito.

Um poeta, é nada para o homem sem prestígios, para a jovem sem cultura, para esse povo rude que encara tudo pelo lado do interesse, e que só tem em si uma ideia: Ouro! Enriquecer, para deslumbrar o mundo com suas riquezas. Para estes, o poeta é nada, mas, para aquele que encara a vida pelo lado espiritual, para aqueles (digo) o poeta é tudo.
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À tarde quando os ventos perfumados do crepúsculo embalam as folhas, quando a terra ébria de amor de volúpia estremece pensativa, o poeta despertando vagaroso, toma sua lira harmoniosa para encantar àqueles, que como eles, sabem sentir o efeito mágico do belo e do sublime! Sem pensamento passando de súbito pelo mundo dos cálculos sociais, se espraia, pelo infinito procurando nele uma alma que o compreenda! Às vezes caminha anos inteiros; ilude-se com o brilho de um espírito todo superficial, de uma alma toda de lodo, nunca encontra um coração que tenha como o seu, poemas de um amor imenso! Cansa-se embalde! é tudo matéria, cálculo, perfídia! Seu talento enfraquece, e por fim abraça-se moribundo à rudez do século! Terrível decepção! Infelizmente é esta a sorte de quase todos os gênios...

Eis aqui o poeta, visto pelo lado triste da vida e admirado só de passagem por seus irmãos de sorte. Eis aqui o poeta, visto de improviso pelos milionários do poder cuja posição balofa e vaidade louca só excitam o riso daqueles que os desprezam! Agora escuta; é longe do mundo, na solidão melancólica dos campos, entre Deus e a natureza, que vive o poeta, rodeado dos prazeres inocentes da vida.

Cantam os pássaros, e as brisas das florestas ciciam na ramagem do arvoredo um cântico imenso que se eleva até o Criador. Rumoreja a fonte do deserto, e seu rumorejar saudoso lembra a vida até o ínfimo inseto que volteja pela terra!

O poeta aí vive: ei-lo que acorda e encara a natureza!

Oh! Sonhos felizes do futuro! O poeta é venturoso porque prefere ao bulício das cidades, o silêncio das campinas! Longe da turba invejosa que não podendo imitá-lo, tinha sempre um sorriso de desdém para dar-lhe ele vive só com Deus e a natureza! Que lhe importa a glória?

O bafo da inveja quase sempre destrói a felicidade do coração. 


*Carta XXXI da poeta paranaense Júlia da Costa a Benjamin Carvoliva, poeta por quem nutriu durante toda a vida grande paixão.

COSTA, Júlia da. Poesia. Org. Zahide Lupinacci Muzart. Curitiba: Imprensa Oficial do Paraná, 2001. p.370-371
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