quinta-feira, 5 de junho de 2014

O AMOR

Matias Aires (1705-1763)
O amor não se pode definir; e talvez que esta seja a sua melhor definição. Sendo em nós limitado o modo de explicar, é infinito o modo de sentir; por isso nem tudo o que se sabe sentir, se sabe dizer: o gosto e a dor não se podem reduzir a palavras. O amor não só tem ocupado e há de ocupar o coração dos homens, mas também os seus discursos; porém por mais que a imaginação se esforce, tudo o que produzir a respeito do amor, são átomos. Os que amam não têm livre o espírito para dizerem o que sentem; e sempre acham que o que sentem é muito mais do que o que dizem; o mesmo amor entorpece a ideia, e lhes serve de embaraço: os que não amam, mal podem discorrer sobre uma impressão que ignoram; os que amaram, são como a cinza fria, donde só se reconhece o efeito da chama, e não a sua natureza; ou também como o cometa que, depois de girar a esfera, sem deixar vestígio algum, desaparece.


AIRES, Matias. Reflexões sobre a vaidade dos homens. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953. p.107
* Imagem: detalhe da escultura O beijo (1889), de Rodin.
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