terça-feira, 3 de junho de 2014

NÓS HUMANOS E A BUSCA POR RAZÕES

Inês Lacerda Araújo


Época de futebol, época de lembrar de episódios de raiva e preconceito racial nos estádios mundo afora.

O gesto de Daniel Alves e o comentário “somos todos macacos”, repercutiram em favor do jogador, com velocidade e entusiasmo.

Alguns preferiram o “somos todos humanos”, esquecem que o sentido da frase referente ao nosso parentesco, que existe sim com os macacos se devia à comparação de negros com macacos. Ofensivo, preconceituoso, mas apanhar a banana e comê-la equivaleu a dizer, e daí? Vocês são macacos também!

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A evolução nos tornou humanos, mas não humanos suficientemente. Quer dizer, de um lado, somos resultado de transformações biológicas, históricas, sociais, culturais, somos "humanos, demasiado humanos". De outro lado, ainda somos bárbaros, comparáveis a feras, aos brutos.

Escola peripatética
Justificamos crenças como se fossem verdades inamovíveis, e povos inteiros as impõem. É incrível que séculos atrás os gregos buscavam razões, justificavam suas crenças em deuses e mitos como interpretação de atitudes e valores humanos, usavam argumentação, raciocínio, fundaram a lógica e buscaram os princípios de todas as coisas na metafísica, indagaram sobre as causas mais gerais de todos os seres.

Enquanto isso, em outras partes do mundo, tais usos da razão estavam ainda muito longe de serem conquistados, alguns povos jamais os alcançariam.

Entretanto, na modernidade não há mais justificativas para desconhecer que buscar razões, espírito de tolerância, abertura para o outro, o diferente, usar a mesa de negociações e outras tantas práticas que costumamos chamar de "civilizadas", beneficiariam todos. Qual a razão, o que justifica guerras fratricidas, eliminação racial, ódio, desrespeito às mulheres e crianças, ao que fala outra língua, ao que pratica outra religião, que habita outra fronteira?

O ideal de muitos chefes de países ainda é obter pela violência a obediência restrita, melhor é dirigir manadas do que cabeças pensantes. Muitos governantes não passam de chefes de gangues. Quanto mais poderoso é o tirano, mais submisso seu povo, são de fato súditos (submetidos). Se o momento da revolta chega, os encontra despreparados para se autogovernarem.

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O que esperar de nações onde a escola é um meio de doutrinação?! Ou onde não há escola ou onde são destruídas? Onde a educação é desprezada?

Escola na Nigéria destruída por fanáticos
Crianças educadas para não pensar, para fazer parte de uma manada, servirão quando adultos a uma classe, a uma seita, a um poder, endeusarão o estado. Isso aconteceu no século passado, na Alemanha à época do nazismo. E acontece ainda hoje, escolas há que doutrinam, dogmatizam e impedem a busca de razões. Para chefetes e ditadores é perigoso argumentar, é uma ameaça dotar-se de liberdade de espírito, imbuir-se da necessidade de investigar, e não se contentar com regras nem com princípios intelectuais que não passaram pelo crivo da indagação.

As muitas possibilidades na aventura intelectual, na aventura humana, são limitadas somente por nós mesmos!


INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e professora aposentada da UFPR e PUCPR.
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