sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A IGUALDADE DOS HOMENS

Matias Aires (1705-1763)


Caminhamos com pressa e com gosto para o fim; semelhantes aos rios, que apressadamente correm para o mar, donde perdem a doçura, e a acabam. (...) O homem muda de lugar, mas não muda o ser de homem; em toda a parte é o mesmo, em nenhuma é mais nem menos; pode parecer maior, mas ser, não. O sol ao meio-dia brilha mais, não porque deixe de ser o mesmo, nem porque então tenha mais luz, mas porque esta faz mais efeito em um lugar, que em outro; no ocaso, e no oriente é o mesmo sol e a mesma luz, mas não parece o mesmo. Assim são os homens: em qualquer parte que os ponham, todos são iguais e uniformes; a diferença que há entre eles, não tem outro fundamento que o que vem da preocupação e do conceito; são duas coisas, e ambas vãs, porque nenhuma tem realidade. A fortuna pode armar o homem com hieroglíficos e adornos figurados, mas não o pode armar senão por fora; quem levantar as roupas, há de ver o engano e a suposição: não há de achar mais do que um homem como os outros, cujo ornato é pura fantasia, arbitrária, artificial e separável; a fortuna pode vestir, não pode formar; sabe fingir, mas não sabe fazer. O mesmo obséquio todo se compõe de um cerimonial imaginário, mudável, de instituição nacional e variante. O incenso que algumas vezes é símbolo da vaidade e da lisonja, primeiro que exale o seu perfume, arde, e no ar se extingue e se consome. Tudo o que nos recreia e nos atrai é exalação e fumo; por isso o emprego da vaidade toda consiste em dar substância às vozes, entidade ao modo, e corpo ao vento.


AIRES, Matias. Reflexões sobre a vaidade dos homens. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953. p.92 e 95
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