terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O POETA ORIGINAL

Isaac Melo

Ao grande Jorge Tufic
poeta universal, brasileiro, acreano


“Dos heróis que cantaste, que restou
senão a melodia do teu canto?”

Carlos Drummond de Andrade
A paixão medida


A poesia é um desassossego
E já não sei viver sossegado.
Pessoa que me perdoe,
Não sou poeta fingidor.
Não sei fingir a mim mesmo a minha própria dor!
Sou poeta para/frase/a/dor.
Para a frase a minha dor.
Para a frase o meu ardor.
Os outros que sejam original,
Quero é a palavra-carnaval
Na folia dos fonemas, sintaxes e morfemas.
Amém. E amemos.
Palavras apenas com tapa-sexo
Desnudas, profanas, sambando na avenida
Entre bacanais de rimas, anacolutos
E anáforas, metáteses
E metáforas.
Tudo o que ora escrevo alguém dantes já escreveu.
Digo o que me disseram!
Mas digo com o meu tom, as minhas cores,
Os meus sonhos, tremores e temores...
Meu edifício poético de tijolos emprestados,
Escolhidos a dedo e a êxtases.
Só Deus foi original, e por única vez.
Até o homem é paráfrase, imagem, semelhança.
Palavra, engana-se quem a compreende.
Os que nela mergulham, mergulham no mistério.
E por mais que a digam, mais ela se nos escapa.
A palavra, sendo linguagem, diz o mundo
Que ela mesmo não sabe e esconde.
Aonde?
O poeta, na sua ignorância, sabe.
E, ao saber, já não sabe como dizer.
Êxtase, a poesia.
O que se transmite é apenas vaga expressão
Assim como os rastros, na areia, dão noção dos pés,
Mas não é o que representa.
Baudelaire, estranho fazedor de belezas,
Colocava entre os grandes homens, o poeta.
Sim, único, dentre os mortais, digno de inveja.
‘Olhos Parados’ de Manoel de Barros me co’move
Eita, poema que eu gostaria de ter escrito.
E teria, se ele não tivesse nascido antes que eu.
A mesma coisa com Drummond,
Homem que, na calada da noite, transformava palavras
Em luz, em estrelas, para alumiar os corações.
E, Tufic, com seus fios de luz, a cantar majestosamente
As saudades do seio materno e etéreo de todos nós.
Sim, grande Mário Chamie, não desprezeis
Os resíduos de indigência com que vivem nós,
Os poetas menores e sem tronos.
Até dessas pedras Drummond pode suscitar poesia.
Sem os restos, o que resta?
Até a merda (pardon messieurs) vira húmus,
Que aduba a terra, faz germinar a semente e
A planta florescer, para estupefação do poeta
E da criança que passa candidamente.
Se da merda brota flor,
Por que do resto não brota poesia?
É preciso poematizar o poema. É fato.
Poematizar, que é? Senão retirar a poesia das coisas
E plantar nos olhos da gente!
Casca de ferida, abridor de latas, pneu velho
Rabo de lagartixa, pé de mesa, pôr de sol
Tudo tem prenhez de poesia.
O problema é essas nossas manias de grandeza,
De buscar as coisas do alto
Quando o segredo é debruçar-se sobre as de baixo
E as que nos habitam.
Às vezes, quem me contou foi a Adélia, a mineira,
Deus tira a poesia da gente.
Mas é preciso perder para ter.
O que possuímos, já perdemos.
O que perdemos é o que fato é nosso.
Sou a eternidade dos que me precederam.
Rimbaud, cujo corpo me chega em papel,
E o espírito, em tinta e caracteres... vive em mim!
Dou-lhe sangue, fôlego e glória, ainda que tudo
Sobreviva e independa de mim mesmo.
E Hesse, criador de lobos e sidartas...
E Gibran, o profeta...
Então vestir-se com a túnica inconsútil de Jorge de Lima...
E ver as águas de Guimarães, o Rosa, a se ensaboarem
Antes de saltarem da cachoeira...
O inferno com os poetas, ao céu sem eles.
Sem poesia não há salvação. Oráculo do senhor.
E agora me faço original, a ponto de Lobato:
Tanta palavra para dizer nada,
Esses nadas que são tudo!
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