terça-feira, 13 de novembro de 2012

A PEDAGOGIA DO "ENGAJAMENTO" PREJUDICA E DETURPA O ENSINO

PROFª. INÊS LACERDA ARAÚJO
 
 
Há algumas décadas os livros didáticos nas áreas de ciências humanas (História, Geografia) e de Sociologia e Filosofia mais recentemente, têm ido além do propósito de ensinar conteúdos dessas disciplinas. Em geral o argumento é o de que não há neutralidade com relação a posicionamento político e/ou ideológico, que entre as missões do educador, está a de engajar os alunos na "luta política", leia-se teses marxistas, supostamente as únicas capazes de satisfazer os aspectos da crítica política e evitar a "alienação" das cabeças dos adolescentes e jovens.

Analisemos a primeira parte do argumento, a de que não há neutralidade, que esconder-se na neutralidade de valores é o mesmo que entregar a condução da política e da história brasileiras para a direita, para o conservadorismo retrógrado, empecilho para fazer a justiça social.

Se a história é resultado de luta de classes, nesse caso, a classe dominante e os países dominantes são responsáveis por todos os nossos males (pobreza, ignorância, injustiça social); e mais: todos os patrões oprimem, a classe operária é vítima. Para fazer essa crítica social é imperativo adotar uma concepção marxista da história e da sociedade, cujo método é o dialético, o único correto. Como esse método da dialética é compreendido e aplicado? Grosso modo: a história é movida pela luta de classes, em um processo contraditório, a superação do capitalismo se fará em uma sociedade socialista. O modelo de preferência é o cubano, mas serve um modelo antiamericano, vale até o dos guerrilheiros mexicanos. De qualquer modo, a solução passa pela crítica social via lições marxistas, já que a luta armada não deu certo.

Mas é essa mentalidade desses pedagogos "engajados" que precisa e deve ser contestada. A história é movida por séries de acontecimentos, há choque de civilizações e de interesses políticos e econômicos; evidentemente a base material de toda sociedade, em especial desde a modernidade, tem sido o comércio em escala mundial, a industrialização, e hoje o fortalecimento da informação, do conhecimento e das fortes transações financeiras. O capitalismo mudou, há uma crise financeira mundial, endividamento e desemprego. O terceiro mundo permanece alijado da concorrência, sofre com a pobreza e a ignorância. Há corrupção, tráfico de armas e de drogas. Problemas ambientais se agravam, e sim, EUA e China produzem energia suja.

É por essas razões, pela análise desses acontecimentos locais, nacionais e internacionais que o ensino de História e Geografia deve se pautar. O ensino deve ser aberto, sério, bem documentado, com fontes fidedignas, para assim os fatores em jogo poderem ser melhor analisados, comentados e, claro, criticados. Isso vale especialmente para a Sociologia e para a Filosofia. É nesse sentido que não há texto didático "neutro" e não porque sem o discurso marxista ao aluno estaria vedada uma "visão crítica da sociedade".

A segunda parte do argumento, combater a alienação. Faz parte dessa linha, predominante entre pedagogos principalmente, a adoção de uma "visão crítica da sociedade", que representa uma batalha com dois lados, ou se é engajado ou se é alienado. Alienado é todo aquele que não compartilha de noções como luta de classes, injustiça social produzida exclusivamente pelo capitalismo, sendo o mercado o grande vilão, o poço em que a sociedade está mergulha até a alma.

Assim, se nossos alunos não tomarem partido, no caso o único partido válido porque comprometido com a "transformação da sociedade", eles permanecerão alienados. A eles é preciso ensinar que o capitalismo e a "classe dominante" devem ser abolidos, para isso o professor precisa engajá-los na "ideologia crítica". A julgar pelo sucesso da imagem do Che, até hoje, parece que têm conseguido. Para quebrar a monotonia "protestantes" vestiram recentemente máscaras do personagem Guy Fawkes.

Esse tipo de pensamento simplificador e impositivo impede de se ter uma visão dos processos realmente prejudiciais da economia e da má distribuição de riquezas. Escolhem-se vilões que cabem na ideologia mistificadora que demoniza o capitalismo e o mercado, como se fosse possível eliminá-los. Isso resulta em uma absoluta falta de alternativas e de soluções factíveis (certamente difíceis) para serem postas na mesa e discutidas em sala de aula. É que cabeças "engajadas" pela doutrina marxista acabam com uma visão unilateral, ao invés de pensarem, param de pensar, ficam ocas.

O processo de escolarização, juntamento com o processo de educação visa a formação completa. O compromisso dos livros didáticos é com a informação, com a honestidade intelectual e ética, com a apresentação de questões e situações, a análise acurada dos fenômenos sociais, econômicos e culturais.

A história ensina, sim, mas é preciso apresentá-la e não deturpá-la.



* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e professora aposentada da UFPR e PUCPR.
Postar um comentário