domingo, 25 de novembro de 2012

NOTRE ÉCOLE

Leila Jalul


Notre école [Colégio Acreano] est située a la rue Benjamin Constant... Nous alons a table... Tinha que estar tudo très jolie, na ponta de nossas línguas. E a gente carregava aquela porrada de livros-textos de francês, latim, português e, de lambuja, ainda tinha um tal de Ary Quintela, pequeno e pesado. Era o de matemática. Um terror! Nossos professores, todos gente fina. Dona Luluz, a tradução literal da palavra simpatia. Era meio doidinha, a bem da verdade. Talvez a razão de tanta simpatia. Ela ainda é viva. Caçamba! Tá virando cobra-grande. Ainda toca piano e, para indignação, ainda viaja para a Europa sozinha. Não é doida mesmo?
Colégio Acreano
O professor Rufino, a cara do Aluízio de Azevedo, de "O Cortiço". Um dos negros mais bonitos que os raios do sol já cobriram. Figura bonita e esquisita. Garboso, elegante e, para que se lhe acrescente maior aura, extremamente reservado. Solteiro? Descasado? Assexuado? Come-quieto? Homossexual? Ninguém tinha nada a ver com isso. Ele passava por cima dos mortais com galhardia, como se caminhasse sobre nuvens. Não perdoava erros, não acrescentava décimos nem quartos de décimos, nem de milésimos para que quaisquer de seus discípulos passassem de um ano para o outro sem fazer força.

Sobrava para a gente, que tinha que ficar calada e sem resmungos, acordar às quatro da madrugada e estudar. Pior ainda, tinha que fazer o trajeto declinando: a - æ - æ - am - a - a - æ - arum - is - as - æ - is. Regina, Regina, você me alucina. Regina, Reginae, Reginae, prima da Rosa, Rosae, Rosae, vocês são todas cretinas! Tinha que ler as catilinárias. Doideira. Pra quê tudo isso?

Saía o de latim, o meu Rufino, não sem antes deixar o eco do "personam tragicam forte vulpes viderat", entrava a de francês, minha mimosa Luluz. "J'ai cassé le dó da ma clarinete, j'ai cassé le dó de ma clarinete. Ah! se papa il savait, trá, lá, lá! Il dirait, il chantrait. Opá camarade, opá, opá, opá".

Mas o que me calava fundo, muito fundo, fundo mesmo, e me embargava, dava nó nas tripas e engasgo, era quando a gente se arrumava feito garrafa de coca-cola em prateleiras de supermercado para cantar La Marseillaise: "Aux armes, citoyens/ Formez vos bataillons/ Marchons, marchons/ Qu'um sang impur/ Abreuve nos sillons". Coisa bonita se faz devagar, sem pressa, diz Keilah Diniz.

E a do canto orfeônico? Seria a Dona Selva, por acaso? Não consigo lembrar. 

          "Meus sinos, queridos sinos,
          Ó, sinos de minha aldeia,
          que doces são vossos hinos…"
 

Aquilo parecia harmonia brotando do chão. Juro. Tudo com regência. Compasso binário, compasso quartenário e terciário, se coubesse. Um, dois, três. "Meus sinos, queridos sinos...". E as duas mãos alvas, com os indicadores ligados aos polegares, mais pareciam o bailar de dois pequenos barcos. Os textos de português eram coisa pra maluco nenhum botar defeito. A mulher do sino de ouro... Doem minhas costas só de lembrar o tanto de moedas que a velha doidona escondeu debaixo do colchão para construir seu sonho de consumo.

Os desenhos geométricos, Santo Deus! Aquele montão de gregas pintadas em dégradé, com lápis de cor da Johann Faber, comprados na papelaria do seu Anastácio. A gente sabia ler, escrever e falar. Sabia, através da professora de trabalhos manuais, fazer rendas de Tenerife. A ninguém, a ninguém mesmo, era negado o sagrado e inútil direito de saber que a tangente de um ângulo de quarenta e cinco graus é igual a um.

Valem agora, só de pirraça, alguns parágrafos sobre duas inspetoras da notre école. Elevadas ao cubo, vistas em 3D, nunca vi gentinha mais amarga do que aquelas criaturas. Dona Nair e Dona Vanda. E, de troco, ainda tinha uma filha e neta – a Teresa.

Puta que pariu! Que destino infame. Elas me marcavam de perto. Estava no banheiro, lá vinha uma; estava no corredor, lá vinha a outra. Não tinha um só minuto de trégua. Para minha infelicidade, o caminho das duas (das três, para ser mais exata), necessariamente, tinha que ser pela frente da loja do meu avô. Bastava eu chegar e minha mãe, mais histérica e paranóica do que a Neuzinha Brizola, descia o malho. Eu apanhava, apanhava tanto, tanto, bem mais do que um manequim de sapateiro. Isso tudo acontecia baseado no princípio de que uma laranja podre arrebenta com o pomar. A boa educação das minhas irmãs mais velhas, duas moscas mortas e obedientes, não podia ser contaminada por causa das ações de uma delinquente juvenil.

Ah! tinha volta. Tinha. E como tinha! Todas, todas, sem exceção de nenhuma das pornografias escritas na parte interna das portas dos banheiros da notre école foram de minha própria autoria e lavra. E não me arrependo. Desenhos de piriquitas em forma triangular e frases indecorosas, tudo eu. Tudo eu. Tudo eu. "A Dona Nair é puta". "Dona Vanda é puta". "E a Tereza, se ainda não é, vai ser". E tenho dito. A gente tinha que aprender de tudo, principalmente a se defender. Do que valeria saber que a tangente de um ângulo de 45 graus é igual a um e continuar apanhando? Valeria a pena?


P.S.: Os erros de grafia de quaisquer palavras das línguas estrangeiras aqui expostas são de minha inteira responsabilidade. Não tenho nem mordomo, nem datilógrafo, nem tradutor. Tudo eu, tudo eu, tudo eu. Optei ficar na esfera do coloquial. E tenho dito. 

JALUL, Leila. Suindara. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora Ltda, 2007. p. 62-65
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