quarta-feira, 7 de novembro de 2012

POLÍTICA REVOLUCIONÁRIA X POLÍTICA AUTORITÁRIA, A TRAJETÓRIA DO PT

PROFª. INÊS LACERDA ARAÚJO
 
 
Para uma melhor compreensão de um dos mais representativos fatos políticos da atualidade brasileira, o julgamento da compra e venda de votos de parlamentares no primeiro governo Lula, uma breve incursão na ideologia político-partidária do PT é esclarecedora.

A oposição ao regime militar fez surgir uma oposição combativa e corajosa. Um dos marcos foi a arregimentação, após a ditadura militar, de um partido de esquerda, socialista, surgido da militância de sindicatos e de intelectuais, com destaque para professores universitários.

Proclamava-se a esperança em um governo eleito, não por meio de revolução proletária, mas de instituições democráticas como via para o socialismo. Esse governo deveria levar a uma mudança radical, afinal socialismo é a repartição social igualitária de todos os bens produzidos. Deveria redimir a pobreza, aplicar a justiça social na cidade e no campo. A produção de riqueza viria da industrialização com base em crescimento de recursos internos. E, entre os mais radicais ou talvez mais ingênuos, a crença de que combater e mesmo eliminar o capitalismo, seria a redenção do povo brasileiro.

Com base nessas crenças e lutas, firmou-se certo autoritarismo, quem está do nosso lado, está no lado da verdade e do bem. Os outros, presume-se, estão errados e serão um dia vencidos. Ora, sem a pressuposição de que há diversidade ideológica, de que em uma democracia vozes diferentes e diversas expressões devem e podem coexistir, isso tudo gera intolerância.

Aos poucos, e depois da vitória de Lula para o seu primeiro mandato, os motivos ideológicos acima descritos passaram por uma mudança inesperada. Um choque de realidade. Como de fato governar? Sem capitalismo, sem produção com lucro, sem investimento externo? Sem FHC, Banco Mundial e FMI surgiria o melhor dos mundos? Declarar a moratória?

Nada disso: para governar é preciso administrar a sociedade, a economia real (e do real, nossa moeda); há uma constituição a ser respeitada, cidadãos com direitos e deveres; também há três poderes, legítimos e independentes.

Praça dos Três Poderes - Brasília

Seguiram-se ações governamentais ancoradas na realidade econômica, projetos de mudança foram implementados, com ganhos visíveis. O malfadado capitalismo não pôde ser eliminado...

Mas havia ainda outro projeto ou estratégia: o que fazer para permanecer no poder? Além de planejar para bem governar e alcançar as metas de redução da pobreza e da enorme diferença social, do gritante déficit educacional, do sofrimento com doenças,projetos legítimos, alguns deles alcançados -, seria preciso também ganhar o total apoio do Congresso.

Nascia a ideia de compra de votos. Afinal parlamentares são corruptíveis, não é mesmo? Toma lá, dá cá, na surdina. Até que alguém dá com a língua nos dentes.

Entretanto, o governo Lula seguiu, firme, forte e confiante, caiu um aqui, (Dirceu) outro ali (Genoino). Julgamento pelo Supremo Tribunal Federal? Adia-se, quando chegar a hora, contrata-se advogados, afinal o PT e seus membros acusados podem pagar, regiamente! Tinham, além disso, costas quentes, o próprio Lula.

Imprevisto: passados 7 anos, juízes examinam o processo vindo da procuradoria, julgam e condenam!

Para o PT e seu presidente, Rui Falcão, houve "apenas" caixa 2, o partido da ética valida a prática de caixa 2, e vai além:

Primeiro uma reforma política, financiamento público de campanhas; mas quem em sã consciência quer dinheiro público, do meu e do seu imposto para pagar campanhas de pessoas que visam o poder a qualquer preço, quantos medíocres se candidatem e se elegem!

Segundo ponto: controlar a mídia. Afinal, jornais "estragam" e "deturpam" tudo, por isso precisam ser monitorados...

E o antigo projeto de ética na política? O partido não o menciona mais! Não expulsará de seus quadros os condenados pelo STF. Ao invés disso pretende regulamentar a mídia. Jornalistas teriam então regras sobre o que escrever e noticiar?

No século 18 Kant defendia a liberdade de escrita e de publicação! Esclarecimento, é disso que o público precisa. Sim, pois a imprensa pauta-se pela defesa da liberdade de expressão, cuidado com a verificação e a veracidade, resposta do leitor, não precisa de um partido político para "regulamentá-la".

O cunho autoritário do PT é o lado avesso de suas pretensões revolucionárias.


* INÊS LACERDA ARAÚJO - filósofa, escritora e professora aposentada da UFPR e PUCPR.
Postar um comentário