quinta-feira, 22 de novembro de 2012

PARECE NÃO SER

Jairo Nolasco


Enquanto eu deliciava um sorvete, hoje à tarde, uma moça se aproximou e quis saber se eu era o "Jairo Nolasco, que escrevia o blog Jurubeba". Sim, foi o que, ainda surpreso, respondi.

Surpreso, porque jamais poderia imaginar que alguém pudesse me reconhecer pelo o que escrevo no blog, ainda mais alguém de sua faixa etária, hoje fadada a se apaixonar pelas frases feitas do facebook, este fenômeno da comunicação moderna. Escrever em blog já é 'demodê'.

"Foi você quem realmente escreveu aquele soneto sobre a hipocrisia?" (vide a última postagem). Sem graça, balancei positivamente a cabeça. "Não parece", completou depois.

Em frações de segundos minha mente viajou há décadas, ao tempo de estudante secundário no Colégio Estadual Rio Branco em uma aula de literatura. Um professor, que a época para mim, era um esquisitão magrela movido a cafeína, tinha solicitado à classe, na aula anterior, uma redação narrativa/descritiva. A melhor seria premiada.

Passei o dia a imaginar a cena para descrever. Depois de achar a melhor, passei a descrever ao estilo de Aluísio de Azevedo, já que eu acabara de ler o livro "O Cortiço".

Até hoje acho o escritor um injustiçado, deveria ser sempre citado entre os maiores. Para mim, o cara é um monstro de nossa literatura. Aquele livro, li de um só fôlego e me apaixonei pelo estilo. Incrivelmente até hoje sinto o gosto da "fumegante palangana de café com parati", que a Rita serviu ao Jerônimo, não obstante eu nem saber o que é mesmo 'parati'. Povoa minha mente como algo de sabor super tropical.

Inspirado no melhor, fiz correr a pena pelas linhas pré-desenhadas em azul pálido da folha de papel branca. Fiz as personagens ser parte integrante do meio em que estavam. Descrevi tudo nos pormenores, como se um filme fosse, cena a cena.

A redação foi considerada pelo professor como a vencedora. Foi lida em voz alta em sala. Uns colegas me ofereceram os parabéns, outros fizeram som de muxoxo, ignoraram, e teve quem achasse que aquilo de escrever daquele jeito era coisa de boiola, a despeito de eu não ser um baitola.

Entretanto, o que marcou mesmo foi no fim da aula, quando o professor me encontrou no corredor e falou-me à boca curta: "Ficou muito boa, mas foi você mesmo quem escreveu aquilo? Se foi, continue que você tem um certo talento, se não, pare agora mesmo, o futuro dos falsários é a cadeia..."

Por motivos vários, mandei meu suposto promissor talento de escritor, enxergado pelo preconceituoso professor, às calendas gregas. Persistiu, entretanto, um certo orgulho de ter causado estranheza em quem jamais acreditaria em minha figura:  quem diria este paspalho que senta no fundão não é o marginal que eu pensava...

Agora, aquela mesma sensação novamente. Minha figura não inspira mesmo confiança: Foi você quem escreveu aquilo? Não parece....

Realmente não pareço. Em verdade, eu sequer consigo ser em emblema o que sou em letras. Sou pólos opostos a causar estranheza. Às vezes sinto vergonha do que escrevo. Já quis até parar, me afastar, não me expor ao ridículo. Mas não me mando. Virou vício.

O que consigo ainda fazer é não publicar tudo que escrevo, tenho mais de 200 rascunhos a espera de coragem para liberar... escrevo todo dia a qualquer folga no tempo.

O melhor mesmo foi o que ela disse ter entendido do soneto. E querem saber, bem melhor do que realmente eu quis dizer. A interpretação dela foi sensacional, eu só pude concordar. Talvez se eu tivesse visto por aquele ângulo teria escrito algo mais decente.

Espero ter feito mais uma amizade para meu parco circulo, não necessariamente um leitora fiel. Torço, que ela, ainda muito jovem, mas com gosto pela leitura, também escreva e seja infinitamente melhor do que eu.

Como é bonita e muito espontânea não correrá o risco de alguém perguntar : Mas foi você mesma quem escreveu? não parece...

Post Scriptum: A não ser que ela escreva sobre Economia, aí ninguém vai acreditar...

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SONETO DA FRIA HIPOCRISIA
Jairo Nolasco


E a vela, trêmula, a mão meio segura
que já te lançou pétreos impropérios
à boca que não mais roga deletérios
ao corpo livre da material amargura.

Crispadas, as mãos frias postadas
a separar por outrora vital unida
ao cessado pulsar sem mais guarida
das quentes (ex-recentes) forças separadas

Cara, vai, leva contigo a verdade cruel e fria
que a vistosa de bronze encerrada
não ver a torpeza mordaz incontida

Agora, com nada, és neo camarada
quem, sem tudo, inflamava a ferida
a dias viver - barato é - a bondosa hipocrisia
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