terça-feira, 27 de novembro de 2012

Série A POESIA ACREANA > MARIA MAIA

                                 Letras Palavras Versos Poemas 
                                 Descem do céu do entendimento
                                 Até minha pena

Poeta, roteirista e diretora de documentários, Maria Maia é uma das melhores expressões poéticas que tenho me deparado na poesia recente de cepa acreana. Voz límpida, concisa e bem elaborada, trabalha, com maestria, a palavra, explorando as suas multifárias faces. Faz um despedarçamento da palavra para daí retirar ou suscitar novos significados. É uma poesia que diz muito com pouco. Mas, como faz lembrar Arnaldo Antunes: “Um objeto concentrado não é um objeto qualquer”, pois “quando olhamos ouvimos pegamos cheiramos provamos é como se nunca houvéssemos olhado ouvido pegado cheirado provado daquela forma e quando olhamos ouvimos pegamos cheiramos provamos de novo é como se nunca houvéssemos olhado ouvido pegado cheirado provado daquela outra vez”. Um jeito de fazer poético que caminha na direção dois grandes vultos da poesia contemporânea brasileira: Mário Chamie, um dos poetas que melhor articulou a palavra dentro do poema, libertando-o de qualquer teoria prévia; e Alice Ruiz, que se utiliza com “maestria do peso e do tom de cada sílaba, da hesitação do som e do sentido, sem pesar a mão no excesso de intenções e nem cair na facilitação dos efeitos”. Porém, Maria Maia tem expressão própria, não é poeta da imitação, mas poeta para ser imitada naquilo que faz eximiamente, o ter(ser poesia.

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HABITAÇÃO: POESIA DO DESPEDAÇAMENTO
Maria Maia

Poesia do despedaçamento, feita sob a herança de dioniso – o deus duplamente nascido – e da dualidade fundamental que tal deus promove: sátiro e bacante, masculino e feminino, beleza e fealdade, crueldade e leveza, regaço e perdição. Esta é uma tragédia dos tempos pré, modernos e pós. 

O ato amoroso é a habitação do humano. É dali que ele parte, sobrevive e se oferece em sacrifício para apaziguar os deuses, numa época em que milhares de humanos matam um deus a cada dia. O corpo despedaçado pelos dentes das bacantes em mãos, dorso, cabelo, peito, pulso e alma procura se restaurar no amor. 

"Sempre o mesmo acerca do mesmo", advertia o grande Eudoro de Sousa, quando se tratava da tragédia. Gestada em tempos imemoriais para purificar o homem da hamartia (pecado original forjado no deicídio original – morte da divindade representada pela subida do homem do estado de natureza para o estado de cultura). E SF canta com sua pena-dentada a tragédia desta busca do desejo que não objeta em nenhum lugar. Que passeia pelos fragmentos do corpo da palavra com horror e amor. Que despreza a distinção masculino x feminino – porque sabe que no ato amoroso esta dualidade se desfaz. 

Os olhos se detêm na complementariedade deste horizonte que encandeia. "Pelo ouvido porém" se apresenta o canto e SF se faz sereia. O homem ainda tem pelo menos a possibilidade de se deixar atravessar pelo canto da sereia. Canto que o desvia da ferocidade do narcisimo e o conduz para o mar do amor. Mar onde o eu, este tirano, "como corpo morto, cai". Mar onde o eu se desfaz no outro, reinaugurando eternamente a vida. Mar que se confunde com o sertão, onde habitam as deusas mães, generosas nutrizes, que, vigilantes, sempre tomam conta da aurora da criação.

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às vezes a chuva cai
outras a terra  seca 
o  homem aquece o mar

a terra, coitada, estremece
risca o raio arisco: chove, por enquanto
arrisco no ar um rabisco

às vezes a poesia vem e nem noto
outras, ao se mostrar, anoto
muitas, simplesmente nem vem!


VERSOS LENTOS
Maria Maia

Versos lentos entram pelos poros
vêm quando querem
Não os imploro


SIMPLESMENTE
Maria Maia

Procura o simples, direto, conciso
Por exemplo: amar é preciso


VERSOS ANTIGOS ME ABRIGAM
Maria Maia

Versos antigos me abrigam
São um mistério:
Vêm quando querem
E quando não vêm
Mandam o fastio
A aridez, o frio...


INTENTO
Maria Maia

Chove, chove, chove
A folha branca me chama
No chão, uma poça de lama
Por dentro algo se move
É tão vivo e me comove
Por fora separo a ganga
Palavras vão outras ficam
Me enchem de vida
Miçangas que são coloridas
Unindo o dito e o não dito
Tudo existe pra ser palavra
Cá dentro suporto um calvário
sem uma lágrima
Se sofro, rio, calo ou canto
Pro poema pouco importa
Só dizem que não estou morta
Realizam meu intento
Palavras descem ao vento por linhas tortas


PURIFICAÇÃO
Maria Maia

Vi a dor seca
sem lágrimas
a pior delas
a vida em brasa
queimava no peito
a chuva lavou
o vento levou
o tempo maduro
purificou


ABSOLUTO
Maria Maia

incriados  Deus e seus atributos

em tudo  está presente
absoluto
chega ao coração do homem
que a chaga aberta consome


PORONGA
Maria Maia

poronga é a cartilha que alumia
em cada colocação da mata escura
a estrada até o centro
de mais saber de mais fartura

chico mendes o mestre guia
criou escolas nos varadouros
pro seringueiro na mata adentro
fez-se fermento da utopia


JARDIM DE DEUS
Maria Maia

deve haver um jardim lá pelo céu
onde nenhuma semente se perde
todas dão árvores todas dão frutos
jardim suspenso do absoluto


PÉS
Maria Maia

pés tão distantes
tocam o chão do novo
caminhar só junto


ESTRELA CADENTE
Maria Maia

des
cerra
o limi
ar
da terra


NADA AOS TANTOS
Maria Maia

ah que sou nada
aos tantos
(despedaços de quebrantos)
fracionada
vitrificanto


UM LANCE DE DADOS DOS DEDOS DE DEUS
Maria Maia

homenagem aos 100 anos da morte de Mallarmé

A
Fundar
Da(na)do
Do Nada, mudo:
Mundo, acaso, fado, fardo
Homem, Mulher, fome e Tudo...


bRASIL
Maria Maia

na margem do país findo que acho
a fome fátua reina


Barro Oco
Maria Maia

carregada de gregório,
góngora, quevedo,
ando de mim
desde cedo


NADA RESTA
Maria Maia

não me resta nem a flor
nem a flor
esta


PEDRAGUA
Maria Maia

Água ardo
Eos lento que me arraste
Ao cume tenso de onde escorro pedra

Fui Fedra
Hoje só Sísifo
Fardo inútil me carrego

Vertedouro
Me despejo
Caio cálida sob o limo

Subo farta
Inconsútil: do abismo
Antevejo o despojo do desejo


ECO
Maria Maia

Meu coração novamente sente
Como quando era chuva
E tudo que é gente
Corria pras biqueiras
E ele desandado e fascinado
Desabava nas ladeiras
Com as batidas respondendo
Ao barulho do ventre
dos trovões...


ESTRANHA SIMETRIA
Maria Maia

insólita solicito gritos
soletro-te em sons de sim maduros
(qual queres)

mais sólida reconheço-me
em pura alegria

grifo em ti
o que num artifício crias:
o ponto em que sorrindo me desatas

submerges em desmedido gozo
- tu deveras não recatas

a letra tamanha
não acata
nossa estranha simetria


EM PLENO VILLA
Maria Maia

Tropeço na Floresta
Mais que menos tua.
Pernoito nu'a música
(morada de sem anos,
passarinhos, sustenidos)
Sorvendo em dose doce o teu Ri
Acho.
Não ouço a noite azul de metileno.
Baixo o açoite do som que me
Encandeia.
Sezão:
Esta maleita aquinda dormita
Um pobre coração
– botijas de pepitas soterradas no
futuro –
Golpeia a terra prenha de frutos
Maduros:
Em pleno Villa, violoncelos,
Contrapontos,
Regurgitam tons encharcados de Veneno.


PÓ DE ESTRELA
Maria Maia

pó de estrela,
restos que somos
brilhamos, no entanto

canto tanto
e recebo em minha trova
asteróides, supernovas

pela dobra da
obra
só espanto

para o olho desarmado
sobra o pó


CÍRCULO VICIOSO
Maria Maia

homenagem a Emily Dickinson e Heráclito

Circunferência: tua Origem sem fim
ousa ser sempre começo
possuída de Sagrado
pussuindo o Profano
(circularidade da qual assomo)


O AMOR FORMA
O ÓDIO DEFORMA
A DOR TRANSFORMA



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