terça-feira, 10 de setembro de 2013

A GUERREIRA GLORIOSA

Isaac Melo


Segundo a etimologia, Luísa, palavra de origem germânica, significa “guerreira gloriosa”, “combatente famosa” ou mesmo “famosa nas batalhas”. Neste caso, vemos como faz jus a seu nome, a professora Luísa Galvão Lessa, nascida nas cabeceiras do igarapé Humaitá, afluente do rio Muru, de onde se levava oito dias de barco até atingir Tarauacá. E nossa guerreira teve que se pôr em marcha, e enfrentar as mais diversas batalhas. Formou-se em Letras, fez mestrado, doutorado e pós-doutorado no Canadá. E pouco a pouco fora se tornando famosa nas batalhas; e mais que famosa, a guerreira amada. Porque não é a batalha que torna grande o guerreiro; é antes o guerreiro que faz ser grandiosa e memorável a batalha. E o amor? O amor fora a arma por excelência dessa guerreira. Amor que brota generoso de seu coração como água de igarapé, tal como aquele que tanto a banhou. Amor, cuja expressão, foi, sobretudo, uma vida dedicada à educação. E como fez saber certo poeta, “a alma vive mais onde ama que no corpo que ela anima”. O educador é um amante par excellence. Ele não dá a asa pronta. Ele é o vento necessário  que impulsiona para o voo. Não é o ‘sabedor’, é o desperta ardor. Foi o velho Rui Barbosa quem disse que um sabedor não é um armário de sabedoria armazenada, mas transformador reflexivo de aquisições digeridas. Mas, como só o mau artista se contenta com a obra que faz, a professora Luisa vê seu trabalho como algo sempre a melhorar. É a primeira crítica do próprio trabalho. Por isso, não se tornou uma sedentária do saber, mas uma sedenta de saberes e uma peregrina da vida. E é da vida que retira o seu material de saber, com o qual tece o viver. E, aqui, me faz lembrar aquele poeta lisboeta: “e os meus versos são eu não poder estoirar de viver”. Seus textos são extravasamento de vida. Não é um texto para demonstrar erudição, que, deveras, não lhe falta. É uma professora que ama, que se dá por meio do que escreve, do que ensina, do que vive.


“Ninguém nunca saberá o quanto custou a minha jornada: as horas aos estudos, ao silêncio, às conquistas, aos familiares, às confissões comigo, as perguntas, as decisões, a dor, a solidão, as renúncias, a separação, as perdas, a saudade, a alegria, as vitórias. São coisas somente minhas.  Eu sei que algumas pessoas nascem póstumas. Não é o meu caso. Sou uma ribeirinha que conquistou o mundo com muita luta. Nada foi fácil, muitos espinhos, rios, riachos, montanhas e, também, abismos. Alcancei vitórias para uma pessoa que nasceu no interior da Floresta Amazônica, onde não existia rádio, luz elétrica, sem bonecas, brincando de amarelinha, mas leu muitos livros e por eles empreendeu numerosas viagens. Mas nem por isso eu estaria em completa contradição se esperasse, hoje, encontrar ouvidos e «mãos» prontos para as «minhas» verdades. O que hoje ouço de mim é que falta muito para alcançar, as mãos estão ainda abertas, os olhos atentos para as luzes do mundo. Minha alma abraça a vida, isso parece-me mesmo normal. Sou uma peregrina da vida! E nela aprendi que a sabedoria da vida é sempre mais profunda e mais vasta do que a sabedoria do seres humanos e dos livros. Imannoel Kanta já dizia, sabiamente que sabedoria das mulheres não é raciocinar, é sentir. Eu sinto, profundamente, a VIDA!

Luísa Lessa


Atualmente a professora Luísa Lessa pertence à Academia Acreana de Letras, à Academia Brasileira de Filologia, e teve alguns de seus textos adotados pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Nutro uma profunda admiração pela professora Luísa. Dela retiro a lição: os grandes homens, as grandes mulheres não nascem prontos. Fazem-se. E tantas vezes a ferro e fogo. Mesmo que exerça alguma influência, não podemos fazer do meio e das condições sócio-econômicas desculpas para o fracasso de nossas vidas. Somos aquilo que podemos ser, que queremos ser e que nos permitimos ser. Como dizia o nosso geógrafo Milton Santos, os orgãos da inteligência são dois: o cérebro e a bunda. É sentar, e ler, ler, ler... no entanto, como nos faz saber Luísa, sem descuidar do amor, “pois só quem ama escutou o apelo da eternidade”.
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