sábado, 14 de setembro de 2013

A ÚLTIMA DOS NÁUAS

Isaac Melo


Em 1930, pela Imprensa Nacional, do Rio de Janeiro, o então juiz municipal do 1o termo da comarca de Cruzeiro do Sul (AC), José Moreira Brandão Castello Branco Sobrinho, publicava o livro O JURUÁ FEDERAL (Território do Acre). Livro interessantíssimo do ponto de vista histórico da região do Juruá. Nessa obra há, dentre as 14 estampas, uma que me chamou muito a atenção. É a fotografia de uma índia, que segundo o autor, era a última sobrevivente da tribo do Náuas. Mariruni era seu nome indígena. Mariana, o cristão. A sapatilha, a saia e a blusa de mangas longas nos permitem intuir o anseio do colonizador de “civilizar” os povos nativos. Civilizar, é claro, para servir de mão de obra para suas empresas desbravadoras. Assim, os que não foram “civilizados”, foram mortos, boa parte fisicamente, outra, culturalmente.

Os Náuas ou capanáuas (mati-púrus) era uma tribo guerreira. Habitavam o estirão (longo trecho de rio a estirar-se, prolongar-se sem curva) conhecido como Estirão do Náuas, nas proximidades do que hodiernamente é Cruzeiro do Sul.

Castello Branco narra uma cena curiosa de como fora uma das primeiras tentativas do colonizador com os Náuas. Diz ele que em princípios de 1884, o pernambucano Antônio Marques de Menezes, vulgo “Pernambuco”, acompanhado de Antônio Torres, Pedro Motta, José Vieira, Manoel Menezes, Jacintho de tal, e Joaquim Nascimento, aportaram ao estirão dos Náuas, donde voltaram, sem demora, por terem sido atacados pelos Nauás, que lhe deram uma surra. Já em 1867 os Náuas haviam feito retroceder a expedição do cientista inglês William Chandless.

Mas o destino dos Náuas seria marcado um ano depois por um grupo de italianos. Henrique Cani, Antonio Brozzo, Domingos Stulzer, que, em 1885, haviam aportado a Manaus, e a convite de seus compatriotas Antonio Marcilio e Luiz Paschoal, sócios e proprietários do seringal New York, no Baixo Juruá, vieram para este aludido seringal, seguindo depois para o Alto Juruá, em viagem de exploração, trazendo consigo dois cearenses, que exploraram em junho seguinte, o pedaço do Juruá que ia do Estirão dos Náuas à embocadura do Juruá-mirim. Esses excursionistas, segundo Castello Branco, foram os primeiros que exploraram o rio, com o fim de o povoarem.

Ali, nas proximidades do rio Moa, onde hoje se acha implantada a cidade de Cruzeiro do Sul, os italianos encontraram “extensos bananais” e “grande número de índios”. “No meio do estirão dos Náuas”, diz o autor, “justamente no local em que, hoje, se encontra o barracão do Seringal Burityzal, foram os viajores à terra, deparando com uma enorme maloca dos silvícolas chamados “Náuas”, os quais deram nome ao dito estirão, e após uma certa demora, necessária, apenas, para oferecerem aos aborígenes alguns brinquedos e outros objetos que lhes despertassem a curiosidade...”. E foi assim que os italianos exploraram a parte do rio que ia do seringal Treze de Maio ao Paraná dos Mouras, e os brasileiros de Tatajuba ao Juruá-mirim.

Os Náuas, conforme ainda narra Castello Branco, foram praticamente dizimados por um “catarrão” (epidemia de gripe). Os sobreviventes retiraram-se para muito longe, pois intuiam que essa doença vinha dos brancos. Em 1900, eles reapareceram no Rio Bregueço ou Sungaru, donde sairam em 1902 ou 1903, devido à perseguição, indo refugiar-se em terras da república vizinha (Peru), pela altura do rio Tapiche (nome da época, não sei dizer a que rio ou igarapé equivale hoje). Depois, nunca mais soube-se ao certo dos Náuas, o povo guerreiro, sucumbido pela sanha dos brancos: civilizados e bons cristãos.


Referência
SOBRINHO, José Moreira Brandão Castello Branco. O Juruá Federal: Território do Acre. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1930.

NOTA
Em 2002, o Jornal do Brasil noticiava que “a Fundação Nacional do Índio (Funai) estava na expectativa de confirmar uma das descobertas antropológicas e étnicas mais importantes no país: a de que a tribo Naua, considerada extinta há mais de 70 anos, poderia ter sido localizada dentro do Parque Nacional do Divisor”. Dois anos antes, (veja aqui) cerca de 250 índios ressurgiram da floresta dizendo ser da tribo Naua, e exigiam a criação de um parque nacional de suas terras. Por sua vez, o Wikipédia (nem sempre confiável) com informações do Conselho Missionário Indigenista diz haver 300 indivíduos mestiços remanescentes da tribo dos Náuas que vivem em Mâncio Lima.
* Quanto à grafia encontrei Náuas, Nawas e Naua.
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