terça-feira, 24 de setembro de 2013

DESBRAVADORES DO JURUÁ

José Moreira Brandão Castello Branco Sobrinho
excerto de O Juruá Federal


Nem Pedro de Ursúa, em 1560, nem Juan Palacios e seus companheiros, em 1635, nem o Capitão-mor Pedro Teixeira, Christoval de Acuña e André de Arrieda, em 1637 e 1639, nem Chandless, em 1867, pisaram terras do Juruá Federal.

O primeiro, acreditar-se na versão que o dá como transpondo os Andes ou demanda do Amazonas, via Juruá, saiu do  Peru, alcançando as  nascentes  do  rio  Jutaí,  galgou  as  alturas  que  o  separam  do  vale  do Juruá,  atingindo-o  nas proximidades do  riozinho Hudson, no Seringal Washington, onde se conta ter sido assassinado pelos seus companheiros, distante mais de 200 milhas do rio Moa.

Os excursionistas de 1637 e 1639 ficaram conhecendo as embocaduras do todos os grandes rios que se lançam no Amazonas, pouco ou quase nada sabendo sobre o curso de cada um deles.

Fernando  Denis,  no  seu  livro  Brasil, publicado  em  1838,  ao tratar  dos principais  afluentes  do  Amazonas,  omite  o  Juruá e  o  Purus dando somente na  mesma direção o  Javari, Madeira, Tapajós e Xingu, porque nesse tempo o Juruá era tido como de pouca importância. Esta suposição é confirmada pelo padre Constantino Tastevin, na monografia O Rio Juruá, publicada em 1920, na La Géographie, de Paris, em que afirma que os portugueses nunca pensaram em se estabelecer no Juruá, que até Chandless, passava por ser menos importante que o Jutaí. Dava-se um curso de uns 1.000 quilômetros, ou seja, menos de um terço de sua verdadeira extensão, parecendo, assim, que se o não conhecia além de Urubu, cachoeira no vale do Chiruan.

O geógrafo Chandless, que explorou mais da metade do Juruá, cerca  de  1.260  milhas,  não  alcançou  o  Ipixuna,  voltando  do  seringal Ouro Preto, 80 milhas abaixo da foz do Moa.

O padre José Monteiro de Noronha, em 1768,  e Castelnau, em 1847, que aludem a índios de cauda, filhos de índias com macacos coatás, nas proximidades da barra do Juruá e numa cachoeira do mesmo rio, não ultrapassaram o seu curso inferior.

Em 1854, diz João Wilkens de Mattos, secretário do governo da província do Amazonas, num relatório apresentado ao Presidente Herculano Penna, que após uma viagem de 40 dias, em canoa, se chegava à boca do Parauacu, hoje Tarauacá. Ainda o mesmo Wilkens, em 1858, na qualidade de diretor de terras, informa a existência de silvícolas aldeados até o lugar Xué, no Baixo Juruá.

Os missionários que estiveram em contacto com os gentios e os coletores de drogas “que precederam os regatões, não iam muito além da boca do Tarauacá, receosos dos assaltos dos indígenas”.

Chandless que, em 1867, aproximou-se da fronteira do território com  o  Estado  do  Amazonas,  refere ter  sido  antecedido  pelo  brasileiro João da Cunha Corrêa, o qual lhe dissera que havia subido o Tarauacá, daí passando ao Envira, donde varou para o Purus.

Esta narrativa é comprovada pelo testemunho de Guilherme da Cunha Corrêa, ainda vivo e proprietário do seringal Concórdia, no Baixo Juruá, filho do referido João da Cunha Corrêa, que era natural de Cametá, Estado do Pará.

Acrescenta o dito Guilherme que seu pai fora nomeado diretor dos índios do rio Juruá, entre 1855 e 1857, na administração do Dr. Antônio Ferreira do Amaral, época em que cometiam a Manoel Urbano da Encarnação idêntico encargo no rio Purus, e nesse caráter fizera uma demorada viagem pelo Juruá, colhendo alguns produtos da região e distribuindo pelos indígenas grande quantidade de machados, terçados, facas, miçangas e fazendas, conseguindo alcançar a foz do rio Juruá-mirim, muitas milhas além da fronteira da Zona Estadual com a Federal.

Nunca hostilizaram os silvícolas. De quem soube granjear amizade e confiança, tendo eles, apenas, no estirão dos Nauas, se retirado de suas tabas para a margem oposta do rio.

Nessa viagem, João da Cunha Corrêa, apanhou uma índia velha com  duas filhas,  que  foram conduzidas  a Tefé,  sendo  depois  batizadas pelo  padre Torquato  Antônio  Ribeiro,  de  Fonte-Boa.  Regressando  do Juruá-mirim, o denodado bandeirante subiu o rio Tarauacá, penetrou no Envira, alcançou o vale do Purus, num de seus afluentes, denominado, hoje, segundo parece, Chandless. Aí procurou Manoel Urbano, conhecido pelos indígenas por “tapaúna catu” (o preto bom), e como não o encontrasse por ter subido o Purus, Corrêa voltou ao Tefé, levando em sua companhia uma outra índia, que lhe dera um “tuchaua”, a qual foi batizada com o nome de Leocadia, e faleceu em 1912. Era quase branca, de rosto oval e bem conformado, estatura mediana, nariz pequeno e aquilino.

Esta viagem de João Corrêa, ao Alto Juruá, por essa época e de certo modo confirmada pelo pernambucano Serafim Salgado, na sua exploração ao rio Purus, em 1857, quando assevera que os índios “Cucumas” lhe declinaram nomes dos brasileiros civilizados que viram nas cabeceiras do Juruá.

Assim, não padece dúvida que o destemido sertanista foi quem primeiro transitou terras do Juruá Federal, na qualidade de diretor dos silvícolas.

Em princípios de 1884, o pernambucano Antônio Marques de Meneses, vulgo “Pernambuco”, acompanhado de Antônio Torres, Pedro Moita, José Vieira, Manoel Meneses, Jacinto de Tal e Joaquim Nascimento, aportava ao estirão dos Nauas, donde voltou, sem demora, por ter sido atacado pelos índios, que lhe deram uma surra.

Em maio do mesmo ano, aportavam a Manaus, os italianos Henrique Gani, Antônio Brozzo, Domingos Stulzer, vindos da República Argentina, que ali encontraram os  seus  compatriotas  Antônio  Marcilio e Luiz Paschoal, sócios e proprietários do seringal New York, no baixo Juruá, nesse tempo pertencente ao Município de Tefé e hoje ao de São Felipe. A  convite dos últimos, vieram aqueles em sua companhia  para o aludido seringal New York, seguindo depois para o Alto Juruá, em viagem de exploração, trazendo consigo os cearenses Ismael Galdino da Paixão e Domingos Pereira de Sousa, que exploraram, em junho seguinte, esse pedaço do Juruá, que vai do referido estirão dos Nauas à embocadura do Juruá-mirim.

Esses excursionistas foram os primeiros que exploraram o rio com o fim de o povoarem, tanto que, pelo caminho, iam deixando sinais de sua passagem, respeitando, porém, a parte visitada por Pernambuco, somente porque este lhes avisara de que havia passado por ali e pretendia localizar-se numa terra firme, próxima à foz do rio Moa, na qual, atualmente, se acha implantada a cidade de Cruzeiro do Sul.

Encontraram eles pelas cercanias do rio Moa extensos bananais ou grande numero de índios, que os iam seguindo com o maior interesse, por terra. No meio do estirão dos Nauas, justamente no local em que hoje se encontra o barracão do seringal Burityzal, foram os viajantes a terra, deparando com  uma enorme maloca dos  silvícolas chamados “Nauas”, os quais deram o nome ao dito estirão, e após uma certa demora, necessária apenas para oferecerem aos aborígines alguns brinquedos ou outros objetos que lhes despertassem a curiosidade, continuaram sua rota, parando novamente na extremidade Sul do referido estirão, na terra firme, presentemente apelidada “Colônia Rodrigues Alves” e aí encontraram novamente muitos índios, tendo-lhes feito oferecimentos idênticos. Foram, porém, obrigados a fazer fogo para o ar, a fim de os atemorizar, uma vez que eles tentaram lançar mão de suas armas, instrumentos esses que os indígenas prestavam muita atenção e pelos quais se mostravam assaz interessados desde o primeiro encontro na parte central desse estirão.

Coube aos italianos a parte do rio que vai do seringal Treze de Maio ao Paraná dos Mouras e aos brasileiros do Tatajuba ao Juruá-mirim.

Um lustro após, em 1889, outros expedicionários, José Serafim dos  Anjos,  vulgo  “Tucandeira”, Joaquim Nascimento, José Raimundo, vulgo “Zé-Grande”, e Antônio Doutor, Francisco Barraqueiro e Norberto de Tal, sob a direção de Francisco Xavier Palhano, foram do Juruá-mirim até Flora, numa canoa chamada “Fura Mundo”, que partiu do porto de Redenção, de Bernardo Costa, próximo ao rio Liberdade, por conta de quem faziam a exploração, não podendo ir além por ter sido ferido Antônio Doutor. No ano seguinte (1890), o mesmo Francisco Xavier Palhano partiu do dito porto de Redenção, em  companhia  de  José Tucandeira, Francisco de Oliveira Lima, vulgo “Lagartixa”, João Facundo da Costa, Antônio Ramalho, Joaquim Nascimento e Conrado de Tal, chegando a explorar de Tanaré a Minas Gerais, tendo sido flechado Antônio Ramalho e João Facundo, numa sapopema que fica num sacado abaixo do Triunfo, depois de uma grande luta com os índios Capanauas. Subiram depois, mas no mesmo ano, o português Antônio Granjeiro, que deu nome ao Tejo,  João Pereira  dos  Anjos,  Francisco  Agostinho,  Antônio  Poeta  e  o referido Francisco Xavier Palhano, que exploraram da boca do Tejo ao Breu. Doze brasileiros, entre os quais Valdevino José de Oliveira, ainda vivo e residente em Pirapora, Manoel Tomás, José Tucandeira, Maximino Rodrigues, Francisco de Oliveira Lima, vulgo “Lagartixa” ou “Galo”, Antônio  Luiz  de  Andrade,  João Dourado, Antônio  Rocha e Francisco Barreto, exploraram o Juruá do rio Breu até perto de cem praias acima da foz do rio Vacapistéa, o que não tem grande importância para o nosso trabalho, mas citamos para mostrar que os nacionais foram muito além do território brasileiro, pelo Tratado de Petrópolis, sem topar com os peruanos.

Em 1888, o Moa era desvendado de sua barra até o seringal denominado São José, por Joaquim Barros Rego, Manoel Mendes de Matos, Francisco Teobaldo de Melo e Amaro Teobaldo de Melo, José Merouca, João Veríssimo, José Batista de Lima e Antônio Xavier  Moreira. Deste ponto em diante, foram seus investigadores João Batista de Lima, Rufino José da Silva, José Alves da Silva, Miguel de Almeida, Francisco José de Melo, Joaquim de Barros Rego, Sebastião Costa, Luiz Monteiro, Joaquim Tomás da Rocha, Amaro Teobaldo de Melo, Francisco Teobaldo de Melo e Vicente Ferreira Lima, em épocas diversas. O rio Azul ou Breguesso, afluente do Moa, foi explorado em 1893 por Joaquim Tomás da Rocha, Francisco e Amaro Teobaldo de Melo, Raimundo Cláudio, Francisco das Chagas Moreira e José Alexandre.

O Juruá-mirim foi explorado por Ismael Galdino da Paixão, Joaquim Correia de Oliveira, Francisco Albuquerque (da firma Cohen & Albuquerque), Manoel Martins, Manoel Felipe, José Joaquim e Boaventura de Tal.

O Tejo, de sua foz até Restauração, em 1890, teve como exploradores José Joaquim
de Lima, Francisco Lagartixa, Manoel Tomás, Antônio Peixoto, Francisco Ferre, João Dourado e Vicente Venâncio de Almeida. Mais tarde Manoel Patrício, André Lopes e Mariano de Barros percorreram o resto  do Tejo  e o riozinho das Duas  Bocas, importante afluente de sua margem direita.

O alto rio Liberdade teve como principal explorador, em 1894, Pedro Juvêncio Barroso.

Esses descobridores do Juruá, à medida que iam subindo, reservaram um certa quantidade de praias para cada um, assinalando as extremas de um e outro lado da exploração com um pequeno roçado e deixavam uma taboleta com os nomes dos respectivos donos.


SOBRINHO, José Moreira Brandão Castello Branco. O Juruá Federal (Território do Acre). Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1930. p.591-595

Um comentário:

Alice Alves disse...

Raridades devem ser apreciadas, principalmente quando relatam percurso de corajosos desbravadores na imensa Amazônia.