segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O ACRE E A GEOGRAFIA DA FOME

Josué de Castro (1908-1973)


Dos retirantes que, acossados pelo flagelo, em suas múltiplas investidas, se dirigiram para a Amazônia atraídos pela miragem do ouro branco calcula-se que meio milhão foi dizimado pelas epidemias, pelo paludismo, pela verminose e pelo beribéri. (...)

A Amazônia, ou melhor, o Acre, que era seu ponto de atração mais forte, foi o grande sorvedouro de vidas sertanejas: “O Acre é como outro mundo: pode ser muito bom mas quem vai lá, não volta mais”, diz em tom melancólico um personagem de A Bagaceira, que assim fala mas que também acaba partindo passivamente para o inferno verde.

Uma das causas desta absurda mortandade dos sertanejos nordestinos no vale amazônico era absoluta incúria com que se procedia à imigração do flagelado para a nova área. Afirmava Euclides da Cunha que não conhecia na história exemplo mais anárquico de emigração do que a realizada desde 1789 entre o Nordeste e a Amazônia.

Escrevendo sobre Euclides da Cunha, o escritor Silvio Rabello retratou a improvisação da colonização amazônica com as seguintes palavras: “O sertanejo que se dispusera a penetrar na Amazônia dificilmente conseguia adaptar-se às condições nosológicas da região. Em regra, sucumbe às febres ou ao regime de carência. A terra recém-aberta ao povoamento estava longe de ser um leito macio para seus desbravadores. É ainda um pantanal que espera os mais elementares cuidados de engenharia sanitária. A umidade e o calor são ali meios de cultura ideal aos germes mortíferos. Por outro lado, nenhum esforço realiza o colono para adaptar-se à sua nova condição de vida. Continua com os seus antigos hábitos: a mesma alimentação, o mesmo vestuário, o mesmo tipo de habitação. A terra e o homem não se aproximam nem se entendem reciprocamente.”

Ainda por ocasião da chamada batalha da borracha, que se desenvolveu durante a última guerra, dos 30.000 nordestinos que foram levados como soldados desta batalha, afirma-se que um número impressionante deles pereceu, abandonado nas zonas dos seringais. O fato alcançou tais proporções que levantou grande celeuma na Assembleia Nacional.

Depoimento interessante a respeito são também o discurso pronunciado pelo Deputado Paulo Sarasate e o informe prestado pelo Sr. Firmino Dutra, então presidente do Banco da Borracha, perante a Comissão de Investigação Parlamentar, e no qual opina ser o desastre desta mortandade oriundo da falta de adaptação racional desta gente jogada sem nenhuma preparação nos perigosos igarapés da Amazônia. Numa reportagem sobre o assunto, dos Jornalistas David Nasser e Jean Manzon, lê-se o seguinte: “A guerra terminou. Os cearenses que tinha partido não voltaram. Uns voltarão, talvez, porque, dos 54.000 soldados da borracha – segundo os dados apresentados na Assembleia Nacional Constituinte pelo Deputado Paulo Sarasate –, a maior parte dorme à sombra das florestas amazônicas. Morreram longe dos seus, por um sonho de riqueza, pela esperança de melhores dias. O Exército da Borracha ainda hoje moribundo, espalhado, derrotado, faminto e errante, como em terra inimiga, perdido entre as árvores enormes, afogado nos pântanos do deserto verde, definitiva e inapelavelmente vencido. O treme-treme, a terçã maligna, a disenteria amebiana, a fome, a absoluta falta de recursos eram mais fortes que a coragem, a dedicação, a bravura e a teimosia dos homens do Ceará, da Paraíba do Norte, da Bahia e do Rio Grande do Norte.”


CASTRO, Josué de. Geografia da fome (dilema brasileiro: pão ou aço). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. p.221-222

> A primeira edição de Geografia da Fome é de 1946.
> Para quem desconhece a vida e a obra de Josué de Castro, e sua importância, no Brasil e no mundo, em relação à problemática da fome, veja aqui o documentário “Josué de Castro: Cidadão do mundo”, de Silvio Tendler, já postado anteriormente neste blog.
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