quinta-feira, 6 de março de 2014

HUMBERTO DE CAMPOS

Isaac Melo


Humberto de Campos (1886-1934) como poeta é maravilhoso, comovente. E quando o tema é amor, ele é singular, arrebatador. Tão perfeita são suas imagens e metáforas, impregnadas de lirismo, numa escrita sem defeito. Um dos mais jovens escritores brasileiros a ingressar na Academia Brasileira de Letras, aos 33 anos.

Assim traçou Carlos Arruda Castanho o perfil de Humberto de Campos: “Escritor maranhense, produziu uma obra proteiforme: foi poeta, contista, crítico, novelista e cronista. Numa atividade febril nos legou 40 volumes, além de trabalhos dispersos em jornais e revistas. Foi o cronista mais lido do Brasil, tendo colaborado no maiores jornais das principais cidades do País.”

Sobre o pai, afirmou Humberto de Campos Filho: “Dono de um estilo inconfundível, escrevendo um português corretíssimo e sabendo, como poucos, colocar uma vírgula no lugar certo, Humberto de Campos conseguia sensibilizar o leitor dos mais diferentes quadrantes culturais.”

Abaixo uma pequena seleta poética de Humberto de Campos. Quando um poeta é bom, não há necessidade de apologetas.

***

OLMEIRO DE AREZZO

“Meu coração (dissete) há muito é morto...
Morreu porque custaste, e não podia
Viver mais para o amor, para a alegria,
Sem teu braço, teu beijo, teu conforto...”

Eis repetida, pois, a lenda do horto
Lendário e triste, em que um arbusto, um dia,
Vetusto e seco, refloriu, quando ia
O cadáver de um santo ao último porto.

É a mesma história a repetir-se: o olmeiro
Que, ao bater no ataúde, reverdece,
E abre em folhas e flores todo inteiro.

É este lírico espírito que animas,
E que, ao sentir teu coração, floresce,
Aberto em sonhos e desfeito em rimas!


TEU NOME

Hilda: teu nome, que eu murmuro e prezo
Com respeito de crente, é uma oração
Que eu, pela vida, comovido, rezo
Ajoelhado sobre o coração.

É o verso de ouro que regula o metro
De um poea de orfeônicos harpejos,
Que, de hora em hora, trêmulo, soletro
Intercalando síladas de beijos.

Quando quero dizê-lo, a lira  tanjo,
E balbucio um cântico suave:
Porque teu nome é uma cantiga de anjo,
E é brando, e é leve como um canto de ave.

Para mim, ele é um cândido e modesto
Poema, por duas sílabas composto,
Que me evoca a doçura do teu gesto
E a serena beleza do teu rosto.

Encontro-o em tudo que me prende e encanta,
Ouço-o em todo rumor que o azul povoa:
No mavioso vozear da ave que canta:
No sonoro bater da asa que voa.

Dele, um coro de cânticos se evola.
E a harmonia que escuto, ouvindo-o, é tanta,
Que o imagino (que doido!) uma gaiola,
Na qual é uma ave cada letra, e canta...

Se acaso o digo, é assim como se fosse
Segredar. Porque temo, comovido,
Ser, como aquele santo de voz doce,
Por um bando de abelhas perseguido.

É a áurea colmeia onde cultivo, como
Encantado Aristeu, a beijo e verso,
Cinco abelhas douradas, que não domo,
E que são as mais louras do universo.

As letras que contém, para escrevê-las,
Toda a gama do arco-íris não tem cores;
Escrevi-as no céu juntando estrelas,
E na terra, no chão, juntando flores.

Assim, teu nome, que eu murmuro e prezo
Com respeito de crente, é uma oração
Que eu, pela vida, comovido, rezo
Ajoelhado sobre o coração.


CONFITEOR

Olha: eu sei que outro te ama, que palpita
Outro peito por ti. Noto e conheço
Que a alguém votas paixão justa e infinita,
Que eu não disputo porque não mereço.

Amo-te, é certo; adoro-te, confesso,
E não deves querer que to repita;
És o objeto do culto que professo,
E amar-te é lei na minha sorte escrita.

Ver-me-ás, por isso, comovido e mudo.
Nunca te hei de falar, porque, na vida
Quero ver-te feliz, antes de tudo.

Segue, portanto, e deixa-me sozinho.
Deixa apenas que esta alma dolorida
Espalhe versos pelo teu caminho...


CORAÇÃO

Dizem que se ama uma só vez na vida...
O amor, no entanto, para mim, parece
Taça espumante que, uma vez bebida,
Se outra vez se beber, mais apetece.

O coração é uma árvore florida,
Que dentro em nós, sem o querermos, cresce,
E que, sempre a dar flores, à medida
Que os botões se lhe arrancam, mais floresce.

A mão do Tempo essa árvore maltrata.
Mas, qual planta podada, dia a dia,
Mais em ramos e flores se desata:

Que era nos turvos séculos remotos
Que o coração, para dar flor, possuía
A indolência romântica do lótus...


DOCE CASTIGO

Uma vez, em tempos longes,
– Diz uma história, – um bandido
Nas terras de uns certos monges
Penetrou, cauto, escondido.
E roubou... Tudo o que havia,
E os olhos viram, roubou.
E fugiu; mas, se fugiu,
Não se sabe como se achou,
Depois de correr um dia
E uma noite, sem parar,
No local donde corria.

(Dizem que isso era magia
Dos monges desse lugar)

Li essa lenda ainda há pouco
E estou pensando se não
Parece a história de um louco
Sonhador, não longe daqui:
Enfim, se não sou eu, cujo
Crime sei que cometi,
E, à medida que te fujo,
Mais fico perto de ti!


CAMPOS, Humberto de. Poesias Completas. São Paulo: Opus, 1983. p.70, 85-86, 106, 125, 128

Um comentário:

ROGEL SAMUEL disse...

no meu blog há um ou dois livros inteiros do mestre HC e recomendo o seu DIÁRIO SECRETO - sua obra máxima (NOVA EDIÇÃO DA GÉIA DO MARANHÃO). Sou aficionado por ele e já li a obra inteira de HB.