segunda-feira, 10 de março de 2014

QUERO SER ANJO

Olivia Maria Maia


— Vó, posso entrar?

— Entre, Clarinha.

— A senhora anda tão quieta e sumida, Vozinha. Faz dois dias que não a vejo molhando as plantas — disse a neta, enquanto passava as mãos nos cabelos brancos de Dona Lucy.

— Nada não, minha pequena. O reumatismo me atacou.

— Vó, nunca ouvi alguém dizer que reumatismo ataca a língua das pessoas. Durante o jantar a senhora não deu uma só palavra. E tem passado o dia todo trancada aqui sozinha.

— Uhum... É só mesmo falta de assunto — disfarçou, baixando a cabeça para que a menina não visse a mentira estampada no seu olhar. Foi inútil.

— Mentir é feio... Foi a senhora mesma que me ensinou. Lembra quando me dizia que se eu mentisse meu nariz ia ficar grande?

Dona Lucy sorriu, procurando esconder o que não caberia na curiosidade de Clara. Abraçou-a, apertando-lhe as bochechas.

— Que bagunça, Vovó! A senhora tá arrumando as gavetas? — perguntou a menina, enquanto caminhava até a cômoda.

Dona Lucy pegou Clara pelas mãos. Apanhou um saquinho vermelho de cetim que estava na gaveta do móvel. Um cheiro forte de naftalina se espalhou pelo quarto, enquanto ela retirava de dentro uma melindrosa preta e uma piteira. Alguns confetes desbotados caíram sobre a cama. Ela segurou a longa piteira e colocou-a na boca. Rodopiou pelo quarto imitando baforadas de fumaça, enquanto cantarolava, imitando a voz do Francisco Alves:

Confete, pedacinho colorido de saudade... ai, ai, ai, ai... ao te ver na fantasia que eu usei, confete, confesso que chorei... chorei porque lembrei...  — parou bruscamente.

— Vó, a senhora tá chorando?

— Não, foi só um ciscozinho. Acho que foi a poeira dos confetes que estão aí escondidos há muito tempo — tentou disfarçar.

Pegou a melindrosa e, acariciando as franjas que insistiam em se desprender, sentiu o peito apertar de saudade: de Helena, Lúcia, Madalena, Célia... Do carnaval de 1952. Mais uma vez conteve as lágrimas:

— Quando chegará minha hora de usar, também, minha fantasia de anjo? — sussurrou.

Apenas o silêncio... De anjos, Clara entendia.


> Olivia Maria Maia é escritora acreana, radicada em Brasília. Autora de Em rio que menino nada raia não ferra (2010) e Se a catraia não virar (2013), a qual pertence o texto acima.
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