segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

DOIS POEMAS DE ELIANA CASTELA

BREVE E ESTREITO
Eliana Castela

Doce Amazonas,
Que abriga em tuas margens
Amargas infâncias.

Meninos e meninas,
Hábeis navegantes,
Com determinação, enfrentam as águas,
Ingenuamente, correm riscos,
Em minúsculas embarcações.

Corpos seminus,
Finamente vestidos pela paisagem
Repleta de palmeiras de açaí.
Num único olhar captura-se contradições
Que se completam no abandono.

Breves infâncias,
Estreito o meu pensar,
Quando julguei que as mães
Brincavam com os filhos, com desvelo,
Triste engano, não é diversão, é apelo!
Suplicam, por ajuda material,
O Estreito abriga profundo fosso social.

Como a flecha e o canhão
Canoa e navio se alinham
Crianças estendem a mão
Jogam a corda, atracam, vendem produtos:
Peixe, açaí, palmito e camarão…

Às vezes ganham dinheiro,
Às vezes tem os corpos roubados,
Passam os anos e os navios
O sofrimento não é abreviado
O Isolamento, ignorado.
É Largo, é profundo.


BACABA E PATAUÁ
Eliana Castela

Minha aldeia está escassa
De valiosas palmeiras
Na feira não tem bacaba,
isso não é brincadeira!
E nas matas só se encontra
Uma aqui, outra acolá…

Mas quem sumiu de uma vez
Foi o fruto gorduroso,
Cujo nome é patauá.
Seu azeite era um colosso
Fazia parte da mesa,
No jantar e no almoço.

Só resta agora o açaí,
Este com grande fartura
Talvez, porque o açaí
Seja uma fruta de cor
Ora só, mas que besteira…
Não tem fruta incolor.

É que o açaí, minha gente,
Caiu na boca do mundo,
Patauá e a bacaba
Não puderam chegar lá
Foi grande o desmatamento,
A bacaba, quase acaba
E o patauá, ao Deus dará…


ELIANA CASTELA é natural de Rio Branco. Ativista da cultura, Eliana é formada em Geografia (bacharelado e licenciatura) pela UFAC, especialista em História da Amazônia e mestre pela Universidade Federal de Viçosa.

p.s. a imagem também é de autoria de Eliana Castela.

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